Águia Solitária
6 Capítulo V
Já dancei muito esta noite. – Era quase meia-noite, e só nessa altura é que ela fora comer qualquer coisa – O que é que gosta de fazer no seu tempo livre?
– Voar – respondeu ele com um sorriso tímido. Era fácil estar com ela e ele só sabia falar de aviões – E você?– Gosto de ler, de viajar e de jogar ténis. E no Inverno faço esqui. Jogo golfe com o meu pai mas não sou grande jogadora. Adorava patinar quando era miúda. Teria adorado jogar hóquei, mas a minha mãe teve um chilique e proibiu-me.– Foi inteligente da parte dela, pois você teria ficado sem dentes! – vendo o sorriso deslumbrante de Kate era fácil perceber que ela nunca jogara hóquei – Sabe guiar? – perguntou, recostando-se na cadeira. Ocorreu-lhe perguntar se ela gostaria de aprender a voar.Kate sorriu.– Tirei a carta quando fiz dezasseis anos, mas o meu pai não gosta que eu conduza. Ensinou-me em Cape Cod no Verão. Lá não há trânsito e é fácil aprender. Logan assentiu, mas ficou perplexo com o que ela acabara de dizer. – Que idade tem? – tinha a certeza de que ela devia rondar os vinte e cinco anos. Parecia bastante adulta e tinha uma conversa agradável. – Dezassete. Faço dezoito daqui a uns meses. Que idade julgava que eu tinha? – ficou lisonjeada com o espanto dele. – Não sei… talvez vinte e três… vinte e cinco. Não deviam permitir que uma rapariga da sua idade envergasse vestidos como esse. Assim só confunde os velhos como eu. Kate não o achava velho, especialmente quando ele punha aquele ar desajeitado e arrapazado. De vez em quando, parecia pouco à vontade e desviava o olhar. Kate gostava da timidez dele. Fazia um contraste interessante com a sua experiência de voo, e sugeria humildade. – Que idade tem, Logan?– Vinte e quatro. Quase vinte e cinco. Voo desde os dezasseis. Ia perguntar-lhe se gostaria de voar comigo um dia destes. Mas calculo que a ideia não agrade aos seus pais. – Não agradaria à minha mãe. Mas o meu pai acharia divertido. Passa a vida a falar do Lindbergh. – Talvez um dia eu possa ensiná-la a voar. – ao dizer aquelas palavras, os seus olhos adquiriram uma expressão sonhadora. Nunca ensinara uma rapariga a voar, embora conhecesse muitos pilotos mulheres; fora bastante amigo de Amelia Earhart até ela desaparecer havia três anos, e voara com a amiga de Charles, Edna Gardner Whyte, que considerava tão espantosa como ele. Ela vencera a primeira corrida a solo havia sete anos e treinava pilotos militares. Gostava bastante de Logan. – Costuma ir a Boston? – perguntou Kate esperançada, parecendo subitamente muito jovem. Logan sorriu. Havia naquela rapariga algo excitante, feminino e juvenil mas, ao mesmo tempo, era bastante adulta. – De vez em quando. Tenho amigos em Cape. Fiquei em casa deles o ano passado. Mas durante os próximos meses vou estar na Califórnia. Posso telefonar-lhe quando regressar. Talvez o seu pai queira vir também connosco.– Ele iria adorar! – aquiesceu ela. Achava uma ótima ideia. Agora só lhe faltava arranjar maneira de convencer a mãe. Mas quem sabe se Logan iria telefonar-lhe? Provavelmente não. – Anda a estudar? – perguntou ele com uma expressão curiosa, e Kate assentiu. Logan deixara de estudar aos vinte, e depois disso só estudara aviões, depois de Lindbergh o ter tomado à sua guarda. – Vou para o colégio no Outono. – respondeu Kate.– Sabe para qual?– Ainda não. Quero ir para Radcliffe, o meu pai estudou em Harvard. Gostaria de ir para lá, se pudesse. Mas Radcliffe é relativamente perto. A minha mãe quer que eu vá para Vassar, onde ela estudou. Também me candidatei lá. Mas não me agrada tanto. Acho que preferia ficar em Boston. Ou talvez vir para Barnard aqui em Nova Iorque. Também gosto de Nova Iorque, e você? – tinha os olhos muito abertos ao fazer-lhe a pergunta, e ele ficou sensibilizado. – Não sei. Prefiro as cidades mais pequenas. Ela não era da mesma opinião. As raízes de Logan podiam estar nas cidades pequenas, mas algo nele sugeria que essa preferência fora preterida, embora de forma inconsciente. Logan tornara-se parte de um mundo muito maior, embora ainda não se tivesse apercebido disso. Kate apercebera-se.Continuavam a falar das virtudes de Boston e de Nova Iorque quando o pai de Kate se aproximou e ela o apresentou a Logan.– Peço desculpa por ter estado a monopolizar a sua filha. – disse Logan com uma expressão ansiosa. Receava que Clarke Jamison fosse aborrecer-se com ele por causa da idade da filha, mas fora tão agradável conversar com ela. Tinham estado juntos quase duas horas. – Olhe que não culpo – retorquiu o pai de forma agradável – Ela é uma excelente companhia. Já me tinha perguntado onde se encontraria, mas vejo que esteve em boas mãos. – achou que Logan parecia inteligente e educado, e quando ouviu o seu nome ficou bastante surpreendido. Clarke sabia pelo que lera acerca dele nos jornais que Logan era um aviador de renome e perguntou de si para si como teria ele acabado a falar com Kate e se ela saberia quem ele era. Ao lado de Lindbergh, ele era um dos melhores, embora ligeiramente menos famoso. Clarke sabia que ele vencera corridas de aviões no país a bordo do famoso Mustang P-51 de Ducth Kindelberger.
– O Logan ofereceu-se para nos levar a voar um dia destes. Achas que a mãe teria um ataque?– Acho que sim, — respondeu o pai com uma gargalhada – mas talvez eu consiga convencê-la. É muito simpático da sua parte, Mister Allbright. Sou um grande admirador seu, e aquele recorde que bateu à pouco foi assombroso!Logan ficou atrapalhado com os elogios de Clarke Jamison, mas satisfeito por ele saber. Ao contrário de Charles, Logan conseguia evitar atrair as atenções, mas isso começava a tornar-se cada vez mais difícil após os seus recentes feitos.– Foi um voo excelente. Tentei convencer o Charles a ir comigo, mas ele estava muito ocupado em Washington com a Comissão Conselheira Nacional de Aeronáutica. Clarke assentiu, impressionado, e seguiu-se uma animada conversa sobre os avanços da guerra na Europa. A mãe de Kate juntou-se-lhes. Disse que estava a fazer-se tarde e que queria ir para casa. Clarke apresentou Logan à mulher. Ele pareceu tímido, mas muito educado. E era evidente que estavam todos prontos para se irem embora. Sem hesitar, enquanto se dirigiam para a porta, Clarke entregou o seu cartão-de-visita a Logan.– Ligue-nos se alguma vez for a Boston. – convidou num tom hospitaleiro, e Logan agradeceu-lhe – Vamos ver se podemos aceitar a sua oferta. Eu estou com vontade de o fazer! – piscou o olho a Logan e este soltou uma gargalhada. Kate sorriu. O pai parecia simpatizar bastante com Logan. Pouco depois, os dois homens apertaram as mãos e Logan disse que ia ver se encontrava Charles. Sabia que o seu mentor gostava tanto de festas como ele e que devia estar escondido algures, pelo que seria difícil de descobrir no meio da multidão. Então, depois de se ter despedido da mãe dela, Logan virou-se para Kate. – Gostei de jantar consigo. – disse ele fitando-a com uma expressão intensa – Espero tornar a vê-la. – parecia falar a sério, e ela sorriu. De todas as pessoas com quem estivera naquela noite, ele fora o único que a impressionara. Havia nele algo de muito raro e extraordinário e no fim da noite ela percebeu que conhecera um homem espantoso. – Boa sorte na Califórnia. – murmurou, perguntando a si mesma se os caminhos de ambos voltariam a encontrar-se. Não sabia se ele telefonaria. Não aparentava ser esse género de homem. Tinha o seu próprio mundo, a sua paixão, um êxito condicional na sua área e era pouco provável que fosse atrás de uma rapariga de dezassete anos. Aliás, ao falar com ele, Kate ficara quase com a certeza de que não telefonaria. – Obrigado, Kate. – respondeu Logan – Espero que consiga entrar em Radcliffe. Tenho a certeza de que vai conseguir. O colégio terá muita sorte em tê-la como aluna, independentemente de o seu pai ter estudado em Harvard – apertou-lhe a mão, e desta vez foi Kate que baixou os olhos ante a intensidade do seu olhar. Parecia que ele a observava pormenorizadamente, como se para gravar a sua imagem na memória. Foi uma sensação estranha, mas Kate sentiu-se atraída para ele por uma força a que era impossível resistir. – Obrigada. – murmurou.Então, com uma ligeira vénia na sua direção, Logan voltou-se e desapareceu na multidão para ir à procura de Charles. – Que homem extraordinário! – comentou Clarke enquanto avançavam lentamente para a saída e iam buscar os casacos ao bengaleiro – Sabem por acaso quem ele é? – e contou a Kate e à mãe os feitos extraordinários de Logan e os recordes que ele batera nos últimos anos. Clarke parecia sabê-los todos. Quando entraram no carro, Kate olhou pela janela, pensando nos momentos que passara a falar com ele. Os recordes que Logan batera nada significavam para si, embora o admirasse por isso e percebesse que ele era importante e bem sucedido na atmosfera rarefeita em que vivia. Mas era a essência do homem que a atraía. O seu poder, a sua força, a sua ternura, até o seu ar acabrunhado tinham-na tocado como nunca nada a tocara. Soube naquele momento, sem a menor dúvida, que ele levara consigo uma parte de si própria e a que mais a perturbava era não saber se algum dia voltaria a vê-lo.
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