Águia Solitária
4 Capítulo III
Percebeu que não conseguiu mover-se, que estava preso ao chão, e pouco depois voltou a olhar para ela.
– Não me parece que isso seja comida que chegue para um homem do seu tamanho. – disse Kate, com um sorriso.
Não era tímida e isso agradou a Logan. Tinha dificuldade me falar às pessoas desde que era rapaz. E, enquanto adulto, era um homem de poucas palavras.
– Jantei antes de vir. – explicou ele.
Não se aproximara da mesa do caviar, evitara a grande variedade de ostras que haviam sido compradas para a ocasião e contentara-se com duas costeletas de borrego, um pãozinho com manteiga e alguns camarões. Chegava para si. Kate reparou que ele era bastante magro. A roupa não lhe assentava muito bem e calculou que tivesse pedido emprestada para a ocasião. Era uma indumentária de que ele nunca precisava e não contava voltar a vesti-la. Pedira-a emprestada a um amigo. Tentara não ir à festa dizendo que não tinha roupa adequada. E depois fora obrigado a ir quando o amigo lha arranjara. Com exceção do seu encontro com Kate, teria dado quase tudo para não estar ali.
– Não parece muito contente por estar aqui. – disse, baixando voz para que só ele conseguisse ouvi-la, com um sorriso e uma expressão de compreensão, e ele sorriu, admirando-a.
– Como adivinhou?
– Tinha ar de querer esconder o prato e fugir. Detesta festas? – perguntou. A rapariga de Wellesley afastara-se e ela podia conversar com ele mais à vontade. Pareciam estar sozinhos no meio de centenas de pessoas a rodopiar à volta deles, e não prestavam atenção em mais ninguém.
– Sim, detesto. Ou pelo menos julgo que detesto. Nunca vi algo como isto. – tinha de admitir que estava impressionado.
– Eu também não. – retorquiu, com toda a franqueza, embora no seu caso não fosse uma questão de preferência ou de falta de oportunidade, mas sim por uma questão de idade. Contudo, Logan não podia saber. Ela parecia tão descontraída e tão cheia de maturidade que, se alguém lhe tivesse perguntado, ele teria dito que ela devia ter vinte e poucos anos, ou até quase a sua idade – É bonito, não é? – perguntou ela, olhando em volta e depois para ele. E Logan sorriu; sim, era bonito, embora não tivesse pensado na festa nesses termos. Desde que chegara só pensara no elevado número de pessoas que ali se encontrava, no calor que fazia, nos apertos e nas muitas outras coisas que preferia estar a fazer. E naquele momento, olhando para ela, já não sabia se a festa fora uma perda de tempo tão grande como inicialmente supusera.
– É bonito. – respondeu ele, e Kate reparou na cor dos seus olhos. Castanhos-escuros, muito escuros. – E você também é. – acrescentou inesperadamente.
Fora tão direto naquele elogio e na sua expressão que as suas palavras significaram muito mais para ela do que todas as que já ouvira dos rapazes que a cortejavam. E embora fossem dez anos mais novos, estavam muito mais à vontade em sociedade do que ele.
– Tem uns olhos lindíssimos. – disse Logan, fascinado.
Eram tão claros, francos, vivos e corajosos. Ela parecia não ter medo de nada. Tinham isso em comum, mas de formas distintas. Quando muito, aquela noite fora uma das poucas coisas que o assustara. Teria preferido arriscar a vida, o que fazia com frequência, do que misturar-se a um grupo de pessoas como aquele. Chegara havia menos de uma hora quando a encontrara, e já estava farto e desejoso de partir. Esperava apenas que o amigo lhe dissesse que podiam ir-se embora.
– Obrigada. Chamo-me Kate Jamison. – apresentou-se ela, enquanto ele mudava o prato para a outra mão e lhe estendia a direita.
– Logan Allbright. Quer comer alguma coisa? – era direto e objetivo, e parco de palavras. Dizia apenas aquilo que achava necessário. Nunca tivera jeito para floreados. E ela não pegara sequer um prato. Quando Kate assentiu, ele estendeu-lhe um. Kate serviu-se de muito pouco: alguns legumes e um pedaço de frango. Não tinha fome, sentia-se demasiado excitada para comer. Sem dizer uma palavra, ele carregou-lhe o prato e dirigiram-se para uma das mesas. Sentaram-se em silêncio e, quando Logan pegou no garfo, olhou para ela, perguntando a si mesmo por que motivo ela teria escolhido a sua companhia. Fosse qual fosse a razão, essa escolha melhorara consideravelmente a sua noite. E a dela.
– Conhece muita gente aqui? – perguntou Logan sem olhar para mais ninguém, apenas ela.
Kate debicava a comida e sorria-lhe.
– Algumas pessoas. Os meus pais conhecem mais do que eu. – explicou ela, admirada por se sentir tão pouco à vontade. Não era normal isso acontecer-lhe, mas tinha a sensação de que todas as suas palavras contavam e que ele escusava todas as inflexões da sua voz. Não sentia com ele a mesma ligeireza que sentia quando estava com outros homens. Havia em Logan algo de realmente intenso. Com ele, era como se todos os floreados e subterfúgios tivessem desaparecido.
– Os seus pais estão aqui? – perguntou com ar interessado enquanto comia outro camarão.
– Sim. Algures. Há horas que não os vejo. – e sabia que não voltaria a ver durante muito mais. A sua mãe tinha o hábito de se instalar aos cantos com alguns amigos chegados e assim passar a noite, sem sequer dançar. O pai de Kate ficava sempre perto da mulher – Viemos de Boston para a festa. – acrescentou ela para fazer conversa, e Logan assentiu.
– Mora lá? – observava-a com atenção. Havia algo nela que o cativava. Não sabia se era a forma como ela falava ou olhava para si. Parecia calma, inteligente e interessada naquilo que ele dizia. Logan não se sentia à vontade com pessoas que lhe prestavam muita atenção. E para além de evidente inteligência, era linda. Adorava olhar para ela.
– Sim. Você é de Nova Iorque? – perguntou ela, desistindo do frango. Não tinha fome, a noite estava a ser demasiado animada para perder tempo com comida. Preferia falar com ele.
– Nasci no Minnesota. Vivo aqui há um ano. Mas já vivi em muitos sítios. Nova Jérsia, Chicago. Passei dois anos na Alemanha. Vou até à Califórnia no início do ano. Vou para onde houver pistas de aviação. – parecia esperar que ela compreendesse isso, e Kate fitou-o com um interesse renovado.
– Voa?
Pela primeira vez, ele pareceu genuinamente divertido com a pergunta e descontraiu-se ao responder-lhe.
– Acho que pode dizer isso. Já alguma vez esteve num avião, Kate? – era a primeira vez que ele dizia o nome dela, e ela gostou do som. Fazia-o parecer mais pessoal, e ficou satisfeita por ele não o ter esquecido. Parecia o tipo de homem capaz de esquecer nomes sem grande custo e tudo o mais que não lhe despertasse a atenção. Mas estava fascinado com ela e reparara em todos os pormenores mesmo antes de a conhecer.
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