Águas Profundas
2 A batalha
Notas iniciais
A gata sentia o sangue quente escorrer pela sua barriga, enquanto a enorme pressão provinda do inimigo a impedia de encher os pulmões de ar. Não importava a força com que se debatia, seu corpo esquálido não lhe oferecia energia nenhuma para escapar do agressor, que impiedosamente enfiava suas garras cada vez mais fundo em sua pele.
Uma voz grossa então ecoou pela clareira, preenchendo os ouvidos da gata com alguma razão
"O que pensa que está fazendo no nosso território?" sibilou, com raiva "E ainda por cima bebendo de nossa água?"
Poeirinha tentou falar, porém nenhum som saia de sua garganta; A dor era enorme, e a tensão do momento maior ainda. Precisava sair de lá o mais rápido possivel.
"Não vai falar nada?" a voz perguntou, e após mais alguns segundos de silêncio, bradou "Então vou matar você aqui e agora!"
Seus olhos se arregalaram, e fez o dobro de esforço para tentar ao menos se defender, sem sucesso. Nesse momento, já havia perdido sangue o suficiente para sentir o mundo turvo à sua volta.
"Eu tinha acabado de mudar minha vida...."pensou, enquanto parava de se defender "Depois de tantos anos sendo miserável... eu tinha mudado minha vida..."
Por fim, sentiu a respiração quente do inimigo em seu pescoço, e soube que seu momento havia chegado. Fechou seus olhos, aceitando seu destino.
"Espere um momento, Pelo de aranha" uma voz leve falou "Não faça nada que vá se arrepender futuramente"
Poeirinha sentiu uma presença esmagadora o suficiente para eriçar seus pelos, a voz, mesmo que macia, era firme e poderosa.
"Estrela de carvão!" A presença do agressor parecia pequena diante daquela aura imensa "Eu estou apenas fazendo meu trabalho de escolta! Esse invasor estava bebendo de nossa água e-"
"Preste atenção no gato que está atacando" Estrela de carvão falou, ainda tranquilo "Ele parece uma ameaça?"
Pela primeira vez desde que atacara a gata, o inimigo pareceu de fato prestar atenção em sua presa, tal como se houvesse apenas seguido os instintos básicos de caça inconscientemente.
"É um gato magro e fraco" prosseguiu Estrela de carvão" Tem cheiro de duas pernas, porém não parece ser um gatinho de gente... Basta apenas uma olhada para perceber que não tem forças nem para caçar direito, muito menos ameaçar nosso clã"
Pelo de aranha parecia estar envergonhado pelo seu alarme, e lentamente recolheu as garras do corpo de poeirinha. Ele saiu de cima da gata, que tossiu continuamente até estabilizar sua respiração.
"Vamos embora, deixe-o ai" disse Estrela de carvão "Deve se recuperar em dois ou três dias, se ficar em repouso"
"Vocês me atacaram e vão me deixar pra morrer!?" pensou poeirinha, com o sangue subindo à cabeça. Tremendo, se ergueu em suas pernas, molhadas pelo sangue que escorria pelo corpo, e se virou para atacar.
Pelo de aranha se virou para a direção contrária, pronto para retornar ao acampamento, quando em um baque, sentiu o corpo frágil da gata sobre suas costas.
"E-eu não vou deixar barato!" Sibilou a gata, enquanto arranhava a lateral do corpo do gato com todas suas forças restantes.
Até então, ela não tinha visto a figura do agressor, que era um gato macho forte e grande. Sua pelagem era cinza clara e espessa e possuía várias cicatrizes, as quais iriam aumentar em breve com seu bote.
Estrela de carvão, um gato marrom consideravelmente menor e mais esguio do que o guerreiro, a encarou com os olhos cinzas curiosos de cima da árvore que estava; sua cauda balançava em movimento pendular, e suas orelhas se mexiam em animação.
Pelo de aranha sibilou com raiva e arqueou suas costas, tentando tirar o peso de cima de seu corpo, porém Poeirinha havia se prendido sem dó e não pretendia abrir mão de seu ataque. Por fim o guerreiro se jogou para trás, em uma manobra rápida , caindo em cima da gata com todo seu peso, e a fazendo liberar completamente o ar de seu pulmão. O mundo começou a girar e ficar preto, enquanto perdia o controle de seu corpo e os seus sentidos.
Por fim, Poeirinha desmaiou.
"Maldito" ofegou "Me atacou quando eu estava de costas"
O gato esguio pulou de seu esconderijo e caiu graciosamente ao lado do corpo inerte da gata
"É uma fêmea afinal" apontou, agora vendo com mais clareza "E uma fêmea bem corajosa, de fato... Para te atacar no estado que estava"
"Sim, não me machucou muito mas me deixou sangrando um pouco"
"Bom, não podemos deixa-la aqui desmaiada para morrer... Antes ao menos estava com consciência, agora certamente vai ser atacada por algum outro animal e virar comida" comentou Estrela de carvão
"Você pretende levar uma gata invasora pro clã?!" Bradou "Não pode fazer isso!"
Nesse ponto, o gato marrom já a havia colocado em suas costas, pronto para partir
"Eu posso, e irei!"
FIM DO SEGUNDO CAPÍTULO
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