Águas Passadas

15 Esgrima De Peixe Espada


Notas iniciais
MAS O QUE É ISSO? É UM PÁSSARO? UM AVIÃO? UM MILAGE?! NÃO, É UM... ESPERA, É UM MILAGRE SIM! :P Pois é pessoal. Após uma longa eternidade, I'M BACK, BABY! E, após toda essa longa demora, eu cheguei na conclusão de um milhão de dólares: sabe aquela coisa de estipular data? Então, né...É melhor que eu não faça mais isso, porque tudo SEMPRE dá TERRÍVELMENTE ERRADO. Só pra vocês terem uma ideia, nesse meio tempo meu note queimou a tela, meu pc quebrou 3 vezes seguidas, e eu também que REESCREVER ESSE CAPÍTULO 3 VEZES!!! Por que? Bem, o documento desse capítulo foi corrompido DUAS VEZES E SEMPRE QUANDO EU ESTAVA NO FINAL!!! Então, para "compensar" a maior demora milenar, também venho trazendo O MAIOR CAPÍTULO QUE JÁ ESCREVI EVEEEEEER. Literalmente, o maior capítulo que já escrevi tanto nessa fanfiction, quanto na minha vida inteira U.U Eu não culpo aqueles que cansaram de esperar por uma atualização. Uma demora dessa apenas por um novo capítulo pode realmente desanimar... Mas saibam que, por mais que eu demore, eu não abandonarei essa história. Estejam certos de que eu irei termina-la. Mas, de preferência, antes do próximo milênio KKKKKKK :P Sendo assim, para os que ainda estão comigo, e para não perder o costume... SEM MAIS DELONGAS, BOA LEITURA! Nos vemos nas notas finais ;D

Ao invés de majestosas ondas, e surfistas aventurando-se no topo de suas cristas, como era de costume, as belas paisagens do porto e das praias que o rodeiam estavam mudando de forma, dando cada vez mais lugar a faixas amarelas, e cones de segurança alaranjados... Um novo ataque, um novo resgate, e novas perguntas. Quer dizer, algumas velhas dúvidas estavam presentes também. A fumaça densa que ofuscava o carmesim do pôr sol estava se tornando algo cada vez mais recorrente, a ponto de muitos turistas deixarem de frequentar o local por medo de que ocorresse algum acidente de uma hora para outra. Em contrapartida, o que afastava a maioria, só aproximava a gangue cada vez mais do olho do furação. De fato, já poderiam até se considerar como salva vidas honorários...

Após mais um longo resgate, e uma perseguição frustrada digna de algum filme de ação amador, todos já estavam novamente em terra firme: alguns socorrendo, e outros sendo socorridos. Enquanto Freddie estava ajudando o Shay mais velho a carregar as maletas com as amostras até o carro, Ryan e Gibby continuavam auxiliando Griffin e os salva vidas a realizarem os primeiros socorros nas vítimas. Bem, ao menos o ex-gorducho estava tentando... As meninas, por sua vez, estavam apenas aguardando em uma das ambulâncias. Visto que uma certa repórter, que exalava teimosia, se recusava a sair dali antes dos demais para ir ao hospital. Fora que, diante dos novos pontos de vista que haviam sido apresentados, os investigadores de primeira viagem ainda precisavam decidir o que fazer com relação algumas novas dúvidas que haviam surgido em suas mentes. Entretanto, podia-se dizer que algumas respostas já estavam ao menos, no fio da espada.

— Carleeê? – Com sua melhor expressão de penúria, praticamente uma homenagem ao gato de botas, a sommelier se recostou na porta da ambulância na esperança de que a Shay mais nova finalmente atendesse ao seu pedido.

— Nem pensar, Sam. A resposta ainda é não. – Irredutível, a nomeada cruzaria os braços se as circunstâncias lhe permitissem.

— Deixa de ser teimosa, Carls. O Griffin disse que ainda vai demorar um pouco, e o carro do Spencer vai ficar a disposição.

— Sim, eu sei. Mas o combinado foi que eu passasse em uma das ambulâncias assim voltássemos ao porto, e não que fôssemos ao hospital. E, bem, aqui estou eu!

— Como medo de ir ao hospital, Shay? Quem diria, nem parece que é a mesma pessoa que praticamente me arrastou até o dentista pelos cabelos...

— Porque um dente seu caiu enquanto você comia uma abobrinha, e depois você continuou mastigando uma espiga de milho, mesmo ela estando coberta de sangue!

— É normal dentes caírem...

— Sim, mas apenas quando se tem cinco anos, ou noventa!

— Tudo bem, que seja! Mas você quebrou o braço!

— Eu não quebrei o braço, apenas sofri uma luxação.

— Beleza, então sem problemas. Deixa eu só arrancar um dente seu que eu também ganho o direito de sair te arrastando pelos cabelos. — Presunçosa, a sommelier lançou um olhar no ápice de sua petulância, já ciente da reação que receberia a seguir.

— Calada, Puckett! – Reprimindo um sorriso, ela revirou os olhos, suavizando suas feições rapidamente afim de não dar margem para que a loira tirasse proveito da situação. — Mas, respondendo a sua pergunta, não. Eu não estou com "medo" de ir ao hospital. Eu apenas preciso continuar aqui caso alguma coisa aconteça. E se, sei lá, acontecer algo que precise ser registrado? Eu estando aqui, logo consigo fazer uma cobertura exclusiva, além de também conseguir possíveis evidências que podem ser úteis na posteridade.

— Bem, se esse é o problema, é só deixar a filmadora com o Benson. Você sabe que ele também tem todo aquele lado "high tech", ele ia saber como se virar.

— Até poderia ser, mas, no momento ele está ajudando os Spencer com as amostras. Então é mais um motivo para que eu fique. – Franzindo o cenho, a consultora gastronômica notou o comportamento anormal da redatora, que mais parecia um relógio tentando atrasar seus ponteiros, afim de evitar que uma bomba pudesse explodir a qualquer instante...

— Carly... — Samantha suspirou, fazendo a Shay mais nova olhar em sua direção. Mesmo, que por puro reflexo — Nem adianta fingir. Quer dizer, tentar, você sempre foi uma mentirosa terrível! Principalmente porque eu tenho dois olhos aqui no meio da cara, e com eles estou vendo que você está praticamente se jogando em cima do braço que deveria estar ao menos engessado, e não com essa tipóia improvisada. Então será que você poderia por gentileza parar de fazer birra, e irmos ao hospital onde você vai poder receber um diagnóstico adequado?

— Eu já disse que não precisa, Sam. Até porque se você realmente quisesse, já teria me arrastado até o carro apenas com uma das mãos.

— Eu? Eu jamais seria capaz de fazer isso, tenho profundo respeito pelos mais velhos e pelos doentes! – Dramática, ela repousou a mão sobre o peito de forma teatral.

— Aham, claro. Depois eu que sou uma mentirosa terrível.

— Não fui eu que fiquei sem o micro-ondas... – Indignada, Carly a encarou com os olhos semicerrados. – Eu sei, eu sei. Tecnicamente foi culpa minha.

— Tecnicamente?!

— Óbvio! Eu posso ter começado com a mentira, mas não tenho culpa se você e o Freddork não possuem a mesma mente brilhante que a mamãe aqui para inventar boas desculpas. – Sam exclamou triunfante, ciente de que por mais tortos que fossem seus argumentos, os mesmos acabavam fazendo sentido, no final das contas.

— Eu só não vou discutir porque essa maldita dor está me impedindo de pensar direito, então considere esse como sendo seu dia de sorte.

— Finalmente, obrigada por admitir o óbvio! Então vamos, eu pego a chave do carro do Spencer quando chegarmos no estacionamento.

— Não, Sam. Eu preciso ficar, é sério!

— Eu juro que falta pouquíssimo para que eu vá buscar um pouco naquele ócido netroso pra você! – Embora bem humorada, de certa forma, ela estava falando sério.

— É óxido nitroso, mas, isso não vem ao caso... O foco é que, sim, o meu braço está doendo. Parece literalmente que ele está em chamas, e eu não vejo a hora de ir a um hospital de verdade e resolver isso. Mas como eu disse, alguma coisa pode acontecer. E se acontecer, eu preciso estar aqui pra registrar.

— Carly, eu já disse que gravar não é o problema, até o Gibby pode fazer isso. Se ele consegue criptografar um computador, ele com certeza sabe como segurar uma câmera, exatamente como fezer hoje mais cedo!

— Sim, eu sei disso. Até uma criança com um celular pode fazer uma gravação.

— Exatamente, parece que finalmente estamos chegando a um consenso!

— Mas precisa ser eu, Sam. Eu preciso fazer isso, eu preciso ser a pessoa segurando a câmera.

— E por que quem segura ou deixa de segurar a câmera faz tanta diferença pra você? O importante seria registrar a imagem!

Faz diferença porque as pessoas também precisam saber que eu sou capaz.

— Calma, calma, volta a fita. Como assim? — Cética, e de certa forma, estupefata, Samantha mostrava-se agora, completamente apreensiva. Se antes ela sabia que algo não estava certo, agora apenas lhe restava ter a certeza do que estava errado...

— Você sabe que eu nunca fui exatamente a pessoa mais forte, ou mais resistente do mundo, fisicamente falando.

— Absolutamente não! Ainda me lembro do dia em que você foi parar na enfermaria porque conseguiu a proeza de torcer o pulso fazendo um arremesso de basquete, definitivamente não é algo que vemos todos os dias... Fora o dia em que você acabou contraindo uma infecção por causa de uma unha quebrada, o lance da verminose quando você e o Spencer fizeram aquela viagem e eu e os meninos ficamos no loft de vocês, e por aí, a lista é longa! — A loira riu-se no íntimo ao lembrar-se de tais acontecimentos. Porém, logo retomou uma postura mais séria, visto que naquele momento o foco era outro. — Mas, aonde você quer chegar?

— O que eu quero dizer que eu não quero ser sempre aquela que é resgatada, aquela que não sabe se defender, ou com quem não pode contar quando a situação ficar mais tensa. Até o Freddie aprendeu a como dar uns murros quando for preciso, e ele já foi nocauteado pelo Gibby com um soco só!

— E por mim várias e várias vezes, modéstia a parte. — Samantha deixou escapar um sorriso travesso. — Mas você não precisa mudar quem você é, Carls. Basta ser quem você é, e do jeito que você é.

— Eu não estou mudando quem eu sou, Sam. Apenas evoluindo como todos do nosso grupo. Aquela que ajuda ao invés de precisar ser a ajudada. Hoje mesmo, por exemplo. Ao invés de estarem procurando pelo criminoso, acabaram perdendo tempo indo atrás de mim.

— É claro que fomos atrás de você, você sumiu! E faríamos a mesma coisa quantas vezes fosse preciso.

— Esse é exatamente o problema! Eu estou sempre no meio de algo, tendo que ser acudida por algum motivo!

— Claro que não, isso nem faz sentido! Na verdade o certo é dizer que nós que estamos sempre no meio dos problemas, até porque eles nunca saem do nosso meio, então... Fora que isso é muito relativo. Poderia ser eu, o Spencer, e até o nerd. Voltaríamos por quem quer que fosse.

— Ainda assim, as vezes eu sinto que sou a mais "frágil" de vocês. Ou melhor, de nós. E nem venha me dizer que vocês iriam fugir da ação por causa de uma torção no braço, por que eu sei que não. Eu com certeza não sou a única teimosa daqui. — Inconscientemente, a própria sommelier concordou com um balançar de cabeça. — Eu só achei que iria assumir mais riscos no futuro, mas pelo visto, continuo sendo a mesma pessoa vulnerável de dez anos atrás...

— E por acaso isso é uma coisa ruim? Toma vergonha na cara, Shay. — Samantha expressou-se com tamanha naturalidade, que a própria nomeada acabando deixando escapar um riso abafado. — Você acha mesmo que a Carly de dez anos atrás iria participar de uma perseguição em alto mar, topando qualquer loucura em uma investigação por conta própria, no estilo polícia e ladrão? Porque se você acha isso, está finalmente aprendendo a mentir!

— Acho que isso não deveria ser um elogio...

— Shiii... O que importa é o contexto! — Sam a repreendeu esforçando-se para manter a postura, afim de não deixar com que seu sermão perdesse o impacto. — Sim, a Carly de dez anos atrás levou cupcakes para uma festa de delinquentes que eu disse que ela não deveria ter ido, e acabou tendo que ser resgatada. Mas a Carly de hoje em dia ainda levaria cupcakes e balinhas de coração para uma festa. A diferença é que ela também é uma das repórteres mais competentes do ramo, que vai até os limites por uma resposta que possa trazer justiça... Então pelo amor do donut mais sagrado, para de falar essas besteiras. Por que se você machucou esse braço, pra começo de conversa, foi filmando uma explosão que, aliás, é o primeiro registro em vídeo de um dos ataques sofridos aqui no porto. Então se isso não é ajudar, eu não sei o que é... Eu só sei que você não precisa "evoluir" para querer provar algo. Nenhum de nós precisa. Porque desde que estejamos juntos nessa, e em outras que eu sei que estão por vir, já seremos as melhores versões de nós mesmos.

— Uau...! E pensar que há dez anos o papel de dar os conselhos filosóficos sobre a vida era meu, mas parece que alguém acabou velejando numas certas águas da sabedoria, por aí. — E lá estava ele, aquele singelo sorriso que apenas a Shay mais nova sabia esboçar tão bem.

— É, acho que devo ter comido algum biscoito da sorte em algum lugar, que provavelmente tinha algum provérbio chinês muito sábio. — De fato, era impossível discernir se a graça encontrava-se na piada em si, ou no fato de que até o ensino médio, a sommelier realmente não fazia ideia de que era preciso tirar o bilhete de dentro dos biscoitos. — Além do mais, eu também me lembro de ter resgatado o Freddie e o Gibby na festa da Dana. Então pára de ter uma memória seletiva apenas pra procurar defeito onde não existe! Parece até que se esquece que já ficamos penduradas em um andaime de lavar vidraças, fomos sequestradas duas vezes junto com os meninos, pulamos de um avião em movimento no meio do Japão, e ficamos presas na sua sala com um bando de detentos fugitivos. Se é pra isolar momentos, isole esses. E olha que são apenas alguns! Cada um possui uma força diferente, Shay. Mesmo que seja uma força delicada.

— Força delicada?

— E por que não? Se existe galã feio, pode existir força delicada... — Embora interpretada de formas diferentes, a lógica era algo notório para ambos os lados.

— Uma lógica meio distorcida, mas, faz sentido...

— Em quem disse que é preciso que algo seja lógico, pra fazer sentido? Basta ser o certo, para que se torne uma verdade.

— Touché, Puckett! — Talvez fosse a dor alterando seus sentidos, mas, a redatora havia de concordar que assim como Gibby, a loira estava ficando cada vez mais sábia. Ou pelo menos, seus esporádicos conselhos já não eram tão ilegais. — Mas, agora falando sério. Valeu, Sammy. Acho que eu só estava olhando da perspectiva errada, o mais importante é sermos mais fortes juntos.

— "Unidos venceremos, divididos cairemos".

— Quem disse disso? Me parece familiar, tenho certeza que já ouvi em algum lugar...

— Eu não faço ideia, mas tenho quase certeza de foi de um filme. Ah, o nerd deve saber... Bem, eu sei que agora a senhorita é uma pessoa durona, inclusive ouvi até boatos de que você vai protagonizar uma nova sequência de Duro De Matar, e tal. — A Shay mais nova sorriu, balançando a cabeça vagarosamente. Ela não fazia ideia do que era Duro De Matar. Que Samantha não soubesse disso. — E eu sei que você também não vai ao hospital enquanto estivermos aqui, por isso não vou te obrigar. Mas como ainda vamos ficar aqui por algum tempo, eu estou indo atrás dos socorristas para arranjar alguns analgésicos. Então é melhor que você aceite de bom grado, e fique paradinha com esse braço até eu voltar. Porque eu juro que se você quiser bancar a indestrutível mais uma vez, eu vou transformar essa torção em uma fratura exposta. — É claro que, ela jamais faria isso. Mas, ao mesmo tempo, não poderia correr o risco de perder a pose.

— A sua delicadeza é comovente, sabia?

— Força delicada! — Sam a corrigiu.

— Sim, é verdade, força delicada! Vou começar a aderir...

— E aí, meninas! Como vai o braço da Carly? — De supetão, um certo engenheiro naval surgiu detrás da ambulância, fazendo com que a sommelier praticamente descobrisse qual é a sensação de ter um coração saindo pela boca. — Te assustei, princesa Puckett?

— Impossível, eu já me acostumei com a sua cara de assombração! — Ofegante, ela estava ocupada demais tentando trazer o ar de volta aos seus pulmões para pensar em uma resposta melhor.

— Aham, sei... Então essa mão no coração não é por que você quase teve uma taquicardia? — Fredward estava mais do que se divertindo com que aquela situação.

— Óbvio que não! Estamos em uma ambulância, não estamos? Pois bem, estou apenas aproveitando para medir a pressão arterial.

— Sam, não é assim que se mede a pressão. E mesmo que fosse pra sentir a pulsação, teria que ser ou no pulso, ou no pescoço.

— Sim, Benson. O braço da Carly está ótimo! Não era isso o que queria saber?!

— Eu queria. Mas agora eu prefiro continuar com as perguntas, me parece bem mais interessante. — Destemidamente, o rapaz estava aventurando-se em um terreno perigoso.

— Se você não essa calar a boca, eu juro que você vai se juntar a ela. Porque eu não vou quebrar um braço seu, mas sim os dois!

Vem calar, Samantha.— Ambíguo, Freddie tentou soar duplamente intencionado, mas foi surpreendido ao receber uma bofetada no rosto que faria a Dona Florinda corroer-se de inveja. — Sam! — Perplexo, ele começou a esfregar sua bochecha esquerda encarecidamente.

— Que pena, você ainda está falando! Eu jurava que iria funcionar... — Satisfação estava estampada no rosto da loira.

Não era bem isso o que eu tinha em mente...— O herdeiro da Past Waters, por outro lado, mostrava-se decepcionado por sua investida velada não ter dado certo.

— Parem vocês dois! Nem pensem em brigar na frente da amiga convalescente de vocês, ela precisa de paz e sossego.

— Convalescente? — Samantha arqueou as sobrancelhas. Aquilo soava um tanto contraditório levando em conta das declarações anteriores.

— O que? Foi você quem disse que a minha força é delicada, apenas estou fazendo uso disso. — Astuta, Carly parecia ter encontrado uma boa saída.

— Força delicada? — Dessa vez, Fredward era quem se mostrava confuso.

— Longa história, nerd... Quer dizer, na verdade nem é tão longa assim. Mas no momento estou com preguiça de explicar, então...

— Tudo bem, que seja... Mas já que estamos aqui, eu estava falando com o Spencer e com o Griffin. Como vamos mudar o rumo da investigação, precisamos nos reunir novamente e decidir o que fazer. De preferência o mais rápido possível.

— Por mim, seria hoje mesmo. Mas estamos só o pó, e desse jeito ninguém vai conseguir pensar direito. Sendo assim, acho que amanhã seria o ideal. Até porque não vou conseguir fazer muita coisa com esse braço, então, estarei em casa mesmo.

— Concordo, eu também topo que seja amanhã. Darei uma passada na Past Waters mais cedo para agilizar as coisas. Ainda temos que falar com o resto do pessoal, mas acredito que todos vão dar um jeitinho pra que dê certo.

— Gente, pra que toda essa burocracia de "precisamos nos reunir novamente e decidir o que fazer"? Pra que toda essa formalidade? Por Deus, se tem uma coisa que já fizemos muito nessa vida, foi ir até o loft da Carly e conversar, mesmo quando nem ela nem o Spencer estavam em casa.

— Espera, é o que? — Escandalizada, a repórter investigativa deu um salto, assim como suas pálpebras.

— Nada! — Com um sorriso amarelo, a sommelier tratou de mudar de assunto rapidamente. — O foco, é: vamos todos marcar um dia e um horário para irmos lá, e fim. A parte complicada é apenas o plano, e é assim que deve ser.

— Falando assim até parece fácil, Puckett.

— E não deveria ser? A vida já complicada o suficiente pra que eu ajude a deixar as coisas ainda mais difíceis.

— Quem me dera que você pensasse desse jeito sobre outras coisas.... — O rapaz murmurou entre os dentes.

— O que disse, Benson?

— Na-nada! Eu disse apenas que você estava certa.

— Ótimo, foi isso que eu pensei ter ouvido, mesmo... — Ela replicou em seu tom autoritário habitual.

— Bem, agora as coisas já estão sob controle, mas o trabalho ainda não acabou. Então eu vou voltar pra ajudar os caras.

— Daqui a pouco eu também vou ajudar com as fichas, só tenho que buscar alguns analgésicos antes.

— Aliás, pelo visto as coisas ainda vão demorar por aqui. Por que não vão indo na frente até o hospital? O Spencer começou a entiquetar as amostras, mas a chave do carro ficou comigo. — Disse ele balançando o molho de chaves sugestivamente.

— Nem adianta insistir, Freddork. Esse filme eu já eu conheço. Já fiz de tudo pra convencer essa cabeça dura a irmos até o hospital, mas ela diz que quer esperar o resto do pessoal já que foi apenas uma luxação.

— Beleza, eu sei que não foi algo tão grave, mas ainda assim eu acho que vocês deveriam...

— Fala, maninha! Tudo em cima por aqui? — Repentinamente, o Shay mais velho surgiu aos berros, provavelmente estourandos os tímpanos do engenheiro naval.

— Cheguei também, acharam que eu ficaria fora do clube dos cinco? — Griffin também resolveu dar o ar de sua graça. Porém, de uma forma, digamos, menos estridente.

— Cara, você não tinha ficado entiquetado as amostras?! — Hiperventilando, Freddie começou a esbravejar com o cientista forense.

— Tomou um susto, Benson? — Sentindo-se em seu próprio "país das maravilhas", Sam estava sorrindo tanto quanto o Gato de Cheshire.

— Não, Sam. Estou apenas testando se a sua técnica é realmente eficaz! — Como diz o ditado: a vingança é uma taquicardia que se serve após um susto.

— É tão gratificante quando o universo conspira ao meu favor! — Antes que um Benson ofegante pudesse retrucar, Spencer começou a tagalerar com naturalidade, ignorando completamente a situação que estava acontecendo ao seu lado:

— Eu já terminei de catalogar, essa é a parte rápida. A parte complicada de verdade vai ser quando eu chegar no laboratório. Então eu decidi ajudar também, assim as coisas andam mais rápido... Quantas pessoas ainda faltam?

— Não dá pra saber exatamente já que ainda não verificamos o número total. Mas pela quantidade de pessoas que já foram liberadas, eu diria que já foi mais da metade. — O salva vidas respondeu de maneira mecânica, como se já tivesse escutado aquela sentença muitas outras vezes durante o dia. Todavia, mudou o tom rapidamente ao lembrar-se do motivo que o havia levado até ali. — Mas, eu vim mesmo para perguntar sobre o Ryan. Vocês viram ele por aqui? Já faz quase duas horas que não o vejo...

— Ele não tinha ficado com você e com o Gibby na hora do resgate? — O Shay mais velho franziu o cenho.

— Sim, mas nos separamos assim que todas as vítimas foram resgatadas. Eu já encontrei o Gibby no setor Sul, mas nada do cara aparecer depois disso.

— Estranho... O Turner costuma ser meio disperso com todo o lance de observar a natureza, e tal. Mas ele nunca costuma desaparecer por muito tempo...

— E lá vamos nós de novo em busca de outro desaparecido! Viu, Carls? Eu disse que os problemas estão sempre no nosso meio. — Embora tivesse a melhor das intenções, Samantha não poderia ter escolhido um momento mais inapropriado. Bem, pensando bem, talvez ela poderia tê-lo feito com facilidade...

— Calma, gente. A última vez que eu vi o Ryan ele tinha ido junto com o Gibby ajudar o outro grupo, ou seja, ele já estava aqui no porto quando nos separamos. Então eu não diria que ele desapareceu. Ele apenas... Sei lá, sumiu! — O proprietário do Sun And Sea tentava acalmar os ânimos que aquela altura, já estavam mais do que desanimados.

— Vocês não levam os relatórios para arquivar? Então, vai que ele foi ajudar a levar a papelada até o escritório, ou algo assim. O Gibby também pode saber de alguma coisa. — A voz da razão, mais conhecida como Carly Shay, decidiu se pronunciar.

— Verdade, os relatórios! Embora eu duvide muito que o Gibby tenha prestado atenção em alguma coisa que tenha acontecido ao redor dele, mas... Quem é a investigadora mais inteligente e mais linda de Miami? — Em um tom galante, Griffin começou a elogiar sua amada.

— Vocês não vão começar, não é? Por que se forem, avisem que eu já aproveito pra medir o meu nível de glicose no sangue assim que chegar no hospital! — A sommelier revirava os olhos como se os mesmo fossem a extensão de uma escada rolante.

— Beijinho de esquimó... — Griffin cantarolou.

— Esse é o seu único argumento, Petterson? — Mais contrangida do que irritada, ela retrucou com a primeira coisa que lhe veio a cabeça.

— Não, mas é o mais divertido. — Ele balançou os ombros com naturalidade.

— Enfim... — Igualmente ávido para mudar de assunto, Freddie aproveitou a opotunidade para tomar as rédeas da situação — Já que vamos todos ajudar com as vítimas, eu vou ajudar vocês a procurarem o Ryan também, ele não deve ter ido muito longe. Com a quantidade de ambulâncias que tem aqui, se ele não estiver no escritório provavelmente deve estar dentro de alguma dessas.

— Woo Hoo Hooo! Isso! — Repentinamente, a gangue dirigiu a atenção para uma comemoração que todos conheciam muito bem.

— O que houve?! Encontrou ele? — A Shay mais nova mostrou-se entusiasmada.

— Não, mas isso pode ajudar a encontrar: o sinal voltou. — O csi virou seu Pearphone para eles, apontando para a barra de tarefas.

— Beleza, então bora lá! Assim já podemos aproveitar e dar baixa nas ambulâncias que tiveram alta. — Com uma longo e profundo suspiro, um exausto Griffin Peterson recuperava o fôlego para mais uma maratona de trabalho, o que incentiva a todos os demais a fazerem o mesmo.

— Calma aí, gente. Espera! — Quando já estavam em suas primeiras passadas, toda a turma se vira bruscamente ao escutar um berro estridente.

— O que foi?! — Afoito, Spencer indagou.

— Foi o braço? — Inicialmente preocupado, Griffin entrou em estado de alerta.

— Foi um pássaro? — Ao perceber que não se tratava de algo sério, Freddie aproveitou a oportunidade de iniciar um trocadilho.

— Um avião? — Entrando na brincadeira, o Shay mais velho continuou.

— Não, são três super bocós tentando ser engraçados! — Não era bem esse o desfecho que esperavam, mas os rapazes teriam que se contentar.

— Eu só ia dizer que antes de irem, seria bom resolvermos uma coisa: o Freddie, a Sam e eu estávamos conversando sobre decidir o que vamos fazer daqui pra frente, já que os planos mudaram. Nós três estamos livres amanhã. Então se estiverem também, podemos nos reunir lá em casa amanhã e discutir a nova estratégia.

— Nova estratégia que ainda não temos, diga-se de passagem, mas é exatamente isso que temos que resolver.

— Por mim, tranquilo. Essa é a vantagem de se ter o próprio estabelecimento, posso mudar os horários sempre que precisar.

— E eu moro lá, então...

— Mas você trabalha no laboratório.

— O laboratório está onde eu também estiver, pois a ciência está em todo o lugar! — Enfático, digo, artístico, Spencer exclamou com um estusiasmo desmedido.

— Beleza, Einstein...

— Eu prefiro Da Vinci...

— Mas da Vinci era mais artista, do que cientista.

— E o sou o que?

— Um cientista que também é artista!

— Não não, eu sou um perfeito equilíbrio dos dois. A ciência é a minha arte, e o mundo é a minha tela!

— Que eu me lembre o Thanos virou fazendeiro depois do estalar de dedos, e não um artista... — Embora soubesse que ninguém entenderia, o engenheiro naval foi incapaz de se conter.

— Do que é que vocês estão falando?! — Desconexa, Sam trouxe á tona aquilo que todos estavam querendo saber.

— Apenas que, por mim tudo bem! — Direto, o salva vidas pôs um ponto final na questão.

— Por mim também, maninha.

— Então depois só precisamos falar com o Gibby, e decidir o horário.

— Ótimo, entramos em um acordo? Estão todos certos disso? Que falem agora, ou calem-se para sempre! — A juíza Samantha Puckett estava prestes a bater o martelo.

— Bem, então é isso...

— Shiii... Eu disse "calem-se para sempre".

— Mas o pra sempre, sempre acaba...

— Não estraga a piada, Benson... Apenas, cala a boquinha, cala. — E então, ela literalmente calou a boca do rapaz, colocando sua mão sugestivamente sobre o lábios dele. E, por incrível que pareça, ele não fez um único movimento em sinal de protesto, até que a própria Samantha decidiu retirá-la por contra própria. — Carls, eu já volto com os analgésicos. Vê se não desaparece outra vez! — Em um só impulso, o grupo de amigos finalmente se dispersou, cada um dirigindo-se para suas respectivas "missões solos".

— E vocês também tentem não sumir, ou se matarem no meio do caminho! — Carly exclamou, ao passo que a gangue ia se afastando gradativamente da ambulância... E permanecendo ali, apenas com seus pensamentos e uma leve queimação no braço, a morena de sorriso largo aproveitava a sutíl calmaria que estava lhe sendo concedida. Afinal de contas, ela sabia que a tempestade não havia ido embora, ainda era possível ouvir o estrondo das trovoadas. Mas, de qualquer forma, também não era lhe era nenhum pecado deixar o guarda chuva um pouco de lado, para aproveitar a sensação do chuvisco lhe fazendo cócegas no rosto...


[...]


— Então deixe-me ver se eu entendi... Você está me dizendo que este maldito produto, que por acaso é essencial, não existe no mercado?! — Contendo sua fúria, Michael Connor passou a apertar sua mandíbula e suas pálpebras, torcendo em seu íntimo para que tudo não passasse de um mal entendido.

— É claro que não, o produto existe.

— Ótimo, então consiga-o para mim! E não demore, faça o favor de compensar toda a paciência que perdi com essa conversa.

— Perdão, tenho ciência de que o senhor já está nesse ramo á mais tempo do que pode se lembrar, mas... Por acaso você faltou em suas aulas de interpretação, senhor Connor? Eu disse que o produto existe, não que ele está disponível para compra. — Petulante, Nevel não fez questão de ocultar seu sarcasmo, embora visualmente estivesse contentando-se apenas com um debochado sorriso de canto de boca.

— Do que estamos falando especificamente, Papperman?

— Ficarei lisonjeado em lhe explicar, formosura. — Sedutor, ou ao menos, tentando ser, o nomeado voltou toda a sua atenção para a a única moça naquela sala.

— Formosura? — Nauseada, Jessica indagou retoricamente.

— Trata-se de uma fibra bioluminescente feita a partir da casca da banana da terra e algas marinhas, servindo como uma espécie de led ecológico que reage quando entra em contando com o oxigênio. A Lux Mare, como assim a batizaram, reveste o casco do navio, transformando-o basicamente em "vagalume que veleja sobre as águas", por assim dizer.

— Mas algo assim praticamente iria extinguir as algas marinhas. Para uma empresa que diz se importar tanto com o meio ambiente, a produção dessa Lux Mare vai causar um desequilíbrio ambiental gigantesco.

— Não necessariamente... As cascas de banana são sim, utilizadas na produção em massa da fibra. Mas apenas a composição química das algas marinhas são reproduzidas, trata-se de uma emissão de luciferina sintética. Como a banana da terra consegue naturalmente conter o calor por bastante tempo, a fibra derivada de sua casca servirá como um isolante térmico para a luciferase, que é o catalisador necessário para produzir a luz cintilante. E como o nome do navio do Benson sugere, essa luz será roxa. Para alcançarem esse resultado, irão produzir um corante utilizando uma farinha feita a partir da casca do mirtilo e da jacuticaba. E todos sabemos que a Past Waters tem uma parceria com diversas instituições que trabalham com a coleta orgânica, inclusive os mesmos produzem adubo em massa e doam para agricultores. Então, muito pelo contrário, minha musa garbosa. O escoteiro está mais para o "pai natureza", do que para um destruidor de floras.

— Maldito Benson! Isso é genial, vai revolucionar o mercado. — Passando a mão nervosamente pelo rosto, Maxwell levantou-se começou a caminhar pela sala, ainda segurando o próprio queixo.

— Você me chamou de garbosa?! — Indiferente, Jessica estava momentaneamente ocupada aumentando seu asco pelo rapaz de cabeça de melão.

— Pouco me importa se mauricinho descobriu como sintetizar a água, ou uma maneirada de trazer paz mundial! Eu quero a Cruise Control produzindo essa fibra antes que ela chegue no mercado! Aliás, Pappeman... Se você sabe todas essas informações, por que não ainda não mandou produzir essa mina de ouro? Eu sei que você tem investimentos em áreas científicas, e eu sou um minerador interessado... — Mantendo a pose, Michael começou a aumentar a voz afim de amedrontar o negociador excuso. Entretanto, mesmo com toda a sua crista, as ameaças pareciam não estar surtindo efeito.

— Primeiramente, eu sei tanto quanto você. Ao menos sobre isso, é claro. Eu apenas interpretei as anotações de rodapé que estão na planta de acabamento, uma tarefa medíocre que pelo visto, você não aprendeu a executar. Deveria estar muito ocupado se afogando em uma garrafa rum, como sempre... E segundo, não é porque eu tenho a receita, que eu necessariamente sei como fazer o bolo, senhor Connor! Creio que pelo menos essa metáfora você entendeu, certo? — Nevel falava vagarosamente, como se estivesse ensinando uma tarefa dificíllima para uma criança — E por mais que me seja nauseante dizer isso, os méritos de criação vão para Spencer Shay e o Crime Scene Lab. Ele é o idealizador, e o único que possivelmente possui a fórmula completa. Logo, ele também é o único que pode produzi-la e disponibiliza-la para o mercado. A única coisa que eu não consigo explicar é como aquele imbecíl que acabou preso em uma abóbora gigante por um bando de crianças, conseguiu se tornar um cientista com esse tipo de proeza...

— Então vamos pontuar uma coisa: você está nos dizendo que não pode conseguir a única coisa que classifica o Purple Ship como um navio inédito no mercado?!

— Está corretíssimo, senhor Hunter!

— Michael, você nos garantiu que providenciaria toda a mão de obra, sem subtrações!

— Sem a fibra, sem negócio! — A acionista juntou-se ao seu irmão em sinal de protesto.

— Meus amigos, não falem assim! Podem ver claramente que a culpa não é minha, e sim desse incompetente que não irá conseguir a encomenda de um de seus clientes mais antigos!

— Não quero saber! Eu já estou ficando cansado das suas desculpas. Porque incompetente ou não, foi você quem contratou o incompetente! O que faz de você responsável tanto pelos seus próprios erros, quanto pelos erros de seus contratados.

— Incompetente? A minha pessoa?! Não, de forma alguma eu irei me submeter a isso! — Indignado, Nevel Papperman levantou-se de forma brusca, arrumando seu chapéu milimetricamente para a direita — Sou o melhor fornecer que vocês um dia verão na vida, e não admito que digam ao contrário! Muito menos você, Reynolds! — Ele apontou seu indicador em direção ao rosto do fundador da Cruise Control — Em nenhum momento eu disse que lhe forneceria o inexistente, mas sim que poderia conseguir qualquer coisa que exista no mercado.

— Mas isso, não, me importa! Eu quero essa Lux Mare em minhas propriedades, e você irá consegui-la para mim!

— Sabe de uma coisa, Michael? Eu conheço um excelente fornecedor de chupetas, prometo providenciar algumas exemplares para você. E se tiver sorte, posso até conseguir algumas mamadeiras também. Afinal de contas, meus clientes merecem sempre o melhor! — Engolindo a seco, como se algo estivesse rasgando sua traqueia, o senhor Connor apenas observava com fogo nos olhos o rapaz de cabeça de melão, vestindo o sobretudo que o mesmo havia deixando em um mancebo. — Agora, se quiser falar de um negócio real, me procure novamente. Mas apenas se realmente tiver algo a oferecer, odeio desperdiçar meu tempo com incompetentes. — Já com a mão na maçaneta, o fornecedor fez questão de olhar para trás uma última vez, apenas para dar o seu parecer sobre a reunião que haviam acabado de realizar. — Maxwell, Jessica, passar bem. Foi um prazer conhecê-la, minha bela senhora tentação. Mas, sinto muito por vocês. Também sempre considerei que o senhor Connor fosse um negociador de respeito. Mas pelo visto a decepção é o único consenso ao qual conseguimos chegar nessa tarde. Orevuar, mon na mi! Se precisarem de um peixe espada, estarei navegando por aí...— E dizendo isso, Nevel Papperman deixou os aposentos, desaparecendo rapidamente ao cruzar o corredor. Deixando para trás o lenço umidecido que o mesmo havia utilizado para manusear a fechadura da porta, como um claro sinal de sua repulsa, e desprezo.

— Escuta aqui, Michael. Que palhaçada foi essa?! Minha irmã e eu viemos aqui em busca de um negócio sério, e não desse papelão que você acabou de apresentar!

— Não me culpe, Maxwell. A culpa foi daquele palhaço com cabeça de melão, e não minha!

— Pois parece que aquele palhaço é o único que sabe o que realmente está fazendo! Diferente de nós, que estamos aqui no meio de um circo montado por você! Saiba que eu não arrisquei o meu pescoço á toa, senhor Connor. Então eu acho melhor que você conserte o que fez, e consiga essa fibra e um passe de mágica. — Apoiando as duas mãos sobre a mesa, o acionista inclina seu rosto em direção a Michael, encarando-o com severidade. Sua respiração era tão pesada que durante pouco tempo em todos permaneceram em silêncio, era possível ouvir com nitidez o ar entrando e saindo pulmões dos pulmões do rapaz.

— Eu não admito que você fale assim comigo, seu moleque! — Como uma serprente ardilosa, Connor levanta-se com brutalidade, como se estivesse preparado para dar o bote.

— E eu não admito que você fale assim com ele, ou comigo, espadarte.

— Como conhece esse nome, Jessica? — Curioso, o empresário abaixa significativamente o tom, dando dois passos para trás.

— Eu faço a minha lição de casa, Michael. É sempre bom conhecer nossos aliados, e nossos inimigos. Agora cabe a você decidir qual deles vai ser.

— Bem, se você conhece a minha antiga alcunha de pescador, então sabe quantos prêmios eu já ganhei antes mesmo da Cruise Control ser o que ela é hoje... E ouviu bem o que eu disse, Jesse? Uma palavrinha muito importante: ganhar. Pois bem, eu agradeceria se depositassem a confiança devida na minha pessoa. Se eu garanti que iria arcar com a mão de obra do navio, eu farei isso.

— A questão é que os negócios não vivem de promessas, Michael. Eu sei que você é perfeitamente capaz de construir um navio até com madeira importada da Amazônia se você quiser! Mas o que importa aqui é a Lux Mare, e esse é um milagre que você vai ter que conseguir. Porque nem eu nem a Jesse vamos nos arriscar novamente por algo que não tem futuro. Então dá teu jeito... É... Como é? "Espadarte!"

— Eu asseguro Maxwell. O esforço da Jesse em conseguir a planta do navio do Benson não vai ser em vão.

— É Jéssica, pra você.

— Novamente, eu acho que a sua irmã já é bem grandinha para responder por si própria, acionista Hunter.

— Mas a questão não é essa. A questão é que...

— Relaxa, Max... Guarde as suas palavras para o que realmente importa.

— Você deveria ouvir mais a sua irmã, Maxwell! Pelo visto ela é a irmã mais sábia dos dois. — Ela não respondeu. Mas também, não fez questão de discordar.

— Mas o Max tem razão, Connor. Tudo bem, você diz que garante que vai conseguir a Lux Mare. Mas como é mesmo que você pretende fazer isso? Porque ou você nos diz o que vai fazer, ou nosso acordo está desfeito e passamos a discutir a compensação.

— Compensação? Ah, meu bem... Por acaso se esqueceram? Esse é um negócio totalmente ilegítimo.

— Nem pense em tentar passar a perna em nós, senhor Connor. Os arquivos confidenciais do Purple Ship podem até ser escusos. Mas o contrato que assinamos como acionistas da Cruise Control referente a parceira na construção de um novo navio, continua totalmente em vigor.

— E mais! Mesmo se estivéssemos tratando de assuntos legais, de forma alguma você iria sonegar o que nos deve por tudo que fizemos por baixo dos panos até agora. Você pode achar até que eu sou um "moleque" na vida, Michael. Mas se tem uma coisa que eu não sou, é novo nos negócios.

— E vocês vão fazer o que? Me processar? Sinto informá-los, mas a lei não vai estar a favor de vocês...

— Nós também temos alguns contatos, sabia disso? E muitos deles pouco se importam com o que a lei tem a dizer sobre isso. — Jesse sorriu de satisfação, ao notar que o homem mais velho não estava esperando por aquela resposta. — É, é isso aí. Dois também podem jogar esse jogo, meu senhor. E não apenas dois, três!

— Isso é uma ameaça?

— Se é uma ameaça ou não, não importa. O que importa é que você ainda não respondeu minha pergunta: como você vai conseguir essa fibra? Porque você pode estar nessa apenas por uma briguinha para massagear o seu ego. Mas nós não estamos nessa apenas pelo dinheiro. Estamos aqui por um propósito.

— Oh, mas que lindo! Então estão nessa pela caridade? Por que não me falam mais sobre essa causa social? Estou ansioso para contribuir! – Fazendo troça da situação, embora soubesse do que se tratava, Michael tornou a agir com altivez — E outra: como os dois esperam que eu tenha uma solução imediata?! Todos aqui nessa sala foram notificados sobre o problema em questão, ao mesmo tempo. Ou será que os grandes gênios tem alguma solução instantânea em mente? — Diante do silêncio esclarecedor, os argumentos do proprietário da Cruise Control iam ganhando força — Foi o que eu pensei... Então se derem licença, tenho alguma ligações a fazer. Eu vou conseguir a fórmula dessa fibra antes que o Benson pense em inaugurar esse navio, nem que eu tenha que arrancar o cérebro do Spencer Shay de dentro daquela cabeça oca. — E dizendo isso, esgamou o pequeno ramalhete que estava sobre sua mesa, deixado lá como cortesia pela senhoria Smoak.

— É óbvio que precisa ser antes da inauguração! E aliás, não temos muito tempo. Se faltam duas semanas para o lançamento, é muito.

— Duas semanas? Ficou louco?! Ainda tínhamos trinta dias no memorando!

— Parece que alguém não andou lendo os jornais, ou pelo menos assistindo o mínimo dos noticiários: O Benson adiantou o lançou do Purple... Do novo navio dele em duas semanas.

— O que?! Esse imbecíl não tem motivo nenhum para fazer isso, ele não sabe de nada que está acontecendo!

— Ele pode até não saber, mas estou certa de que desconfia de algo. Não subestime o mauricinho, Connor. Não levou nem doze horas até que ele fosse até o restaurante do Griffin Petterson atrás das informações da Lexie Lane. E graças a isso, não posso ir a campo até que o Platinum O'Connor seja lançado, precisamos manter a descrição o máximo possível.

— Garoto insolente! — Como que já não tivesse tido o suficiente, agora o pobre ramalhete estava sendo pisoteado. — Eu não vou deixar que ele inaugure esse projeto antes de mim!

— E o que você esperava, Michael?! Que faltasse um mês para o lançamento da Past Waters, para que você enfim começasse a construir o seu?

— É claro que não, Jessica! Eu já tenho a carcaça do navio pronta faz muitos meses. Mas eu precisava das especificações do projeto para começar aplicar as melhorias no navio.

— Você já anunciou o lançamento do Platinum O'Connor?

— Sim, logo quando eu soube que o escoteiro estava começando a construir o seu projeto. Porém eu não anunciei detalhes. Apenas declarei que por ser um projeto surpresa, havia uma promoção relâmpago para os cruzeiros pela metade do preço.

— Metade do preço?! Quer nos falir?

— Isso se chama investimento, Maxwell. Coisa que você diz saber exercer! Com os patrocínios que esse navio iria receber, pouco me importa o lucro das passagens. Seriam apenas migalhas diante do rio de dinheiro que o projeto renderia quando fosse disponibilizado no mercado.

— Acho que eu preciso de uma caixa de aspirinas. — Sentando-se novamente, o nomeado começa a massagear a têmpora, como se a mesma tivesse sido deslocada de seu lugar.

— Quer saber de uma coisa? Não me importa que você tenha que explodir o Crime Scene Lab com o próprio Shay dentro. Apenas consiga a droga dessa fibra para ontem! E sabe o que também me importa? É saber como você vai atrasar o lançamento da Past Waters, ou pelo menos fazer a inauguração voltar para sua data original... É bom que você faça muitas ligações, até eu veja aquele topetinho anunciando uma nova coletiva de imprensa!

— Não me ensine a como fazer o meu trabalho, garoto.

— Eu vou fazer o que for preciso para que isso dê certo, mesmo que seja preciso ensinar novos truques para um cão velho.— A disputa de egos era tamanha, que nem a Cruise Control em toda a sua grandeza era capaz de conter a fúria de dois homens arrogantes. — Porque eu não sei se você percebeu, mas eu ainda estou aqui, Jessica e eu estamos aqui, fazendo as coisas acontecerem. Diferente do seu filhinho aventureiro que faria essa empresa afundar em questão de minutos, se a mesma estivesse nas mãos dele.

— Ah, toda essa atitude... Essa selvageria! — Para a estranheza dos gêmeos, o homem sorriu — Você é praticamente uma versão mais nova de mim, Maxwell. Parece ser mais meu filho, do que o próprio.

— Então dê mais valor para quem merece, coroa. Pois a minha família não honra apenas o nosso sobrenome, mas também o sobrenome da sua família. Espero que você honre o nosso também.

— Você sabe que Anthony e Clarice sempre terão minha estima, não há porque duvidar disso...

— Assim espero, nos retorne quando tiver resultados. E que seja rápido, por favor. Talvez você não tenha pressa, mas nós temos... Vamos, Jesse? — A moça assentiu, simplesmente farta de desperdiçar mais um minuto naquele lugar.

— Engraçado... Vocês disseram que não estão nessa apenas pelo dinheiro. Então, por que o Benson? Vocês poderiam investir em quaisquer outros projetos que seriam igualmente rentáveis, e claro, menos arriscados.

— A resposta é simples: por honra. Pois é como sempre dizemos: a família em primeiro lugar... — Jessica respondeu. Embora retórica, era uma pergunta que lhe soava pertinente.

— Claro, eu realmente imaginava que fosse por esse motivo. Caçadores sempre defendem o seu bando... Mas, como eu já lhes disse, eu preciso apenas fazer algumas ligações. O tempo pode não estar do nosso lado, mas eu vou impedir o lançamento desse navio. De um jeito, ou de outro, nem que eu tenha que comprar a relojoaria inteira.

— De outro jeito?

— Sempre há um outro jeito, você sabe disso. Algumas medidas são apenas mais drásticas do que outras.

— Isso me parece desespero.

— E isso me parece necessário. Se for o que a situação pedir, é o que nós faremos.

— Eu realmente espero que você saiba o que está fazendo.

— E eu sei, minha querida. É como vocês mesmos disseram: trata-se de uma questão de honra. — O homem exclamou como se fosse óbvio. — Entrarei em contato em breve. E quando nos reunirmos novamente, por favor, tente evitar atrasos, Maxwell. Eu sei que a culpa foi sua, Jessica sempre foi absolutamente pontual.

— Eu tive que resolver umas coisas antes de vir para cá, e você sabe disso.

— Achei que já tivesse adquirido alguma prática a essa altura.

— Não abuse da minha cortesia profissional, apenas faço questão de garantir que as coisas sejam bem feitas. E para isso, ninguém melhor do que eu mesmo.

— Exceto eu, é claro. Mas um dia você chega lá... — Já virando de costas para seus "convidados", Michael serve a si próprio outra dose de rum, contemplando a vista de sua janela como se tivesse vencido outra batalha.

— Alguma vez já ouviu falar do Gladio, Espadarte? Eu sei que você ainda acompanha as novidades da pescaria... — Sinuoso, Maxwell sabia que havia resgatado a atenção do homem mais velho.

— Já ouvi falar desse indivíduo, o tal "novo prodígio misterioso" a ironicamente capturar o maior espadarte da história do clube de pesca. Que aliás, até merece meu respeito. Levou vinte anos para que alguém finalmente conseguisse quebrar o meu recorde. — Seu peito inflava de orgulho próprio. — Mas, por que a pergunta?

— Nada demais, apenas para avisar que qualquer dia, eu posso pensar em lhe dar um autógrafo. — Erguendo as sobrancelhas em espanto, Michael faz menção de dizer algo ao abrir a boca. Porém, desiste da ideia ao fecha-la imediatamente. — Fica esperto, Michael. Você não é o único peixe espada nesse mar.— Por fim, o acionista deixa a sala, indo ao encontro de sua irmã que já estava a espera dele na entrada do elevador.

— Precisava mesmo armar todo esse circo, Max? Vocês pareciam duas crianças birrentas dispurando por um doce, pra variar... — Impaciente, ela começa a balançar a perna por antecipação, já ciente do tipo de resposta que iria receber.

— Não começa, Jesse. Você sabe muito bem que foi ele que começou! — Maxwell cruza os braços, esboçando uma carranca, assim como uma eterna criança que esperneia por seus caprichos não realizados.

— E com isso você só acaba de provar o meu ponto!

— E por acaso você queria que eu fizesse o quê? Levasse orquídeas holandesas para o nosso estimado parceiro de negócios? Por favor né, Jess! O Connor é insuportável, a cada dia que passa está cada vez mais insustentável o fato de termos que conviver com ele.

— Sério? Não me diga que você só percebeu isso agora! Que ele é insuportável eu já sabia, mesmo antes de entrarmos na faculdade.

— Você entendeu o que eu quis dizer! Eu sei que insuportável ele sempre foi, mas ao menos nos tratava com o devido respeito. Agora parece que a idade já está subindo a cabeça, tantos anos de egocentrismo mataram mais neurônios que o necessário.

— Aposto que se ele fosse Narciso, iria estrangular o próprio reflexo para continuar sendo exclusivo! — Os gêmeos gargalham em alto, e bom som, enquanto ainda estavam sozinhos no elevador.

— Muito obrigado! Eu sei que somos dois, mas um Michael para cada um de nós seria uma penitência para os pecados que ainda nem chegamos a cometer.

— Vai por mim, Max. Mesmo sendo um só, aquele homem já cometeu mais pecados do que nós dois juntos podemos contar...

Um dia, eu chego lá...— Com uma frieza inebriante, ele sorriu, como se estivesse se gabando de algo que fosse de fato, um motivo para orgulho.

— Oh, me desculpe, Michael Jr. Eu esqueci que você é o pupilo do Connor!

— Desde que isso nos garanta a Cruise Control, pode me chamar até de Bradley!

— Coragem! Isso não seria nem um sacrifício, seria uma consagração como mártir.

— Mas se tivesse que ser feito, é óbvio que eu seria o homem certo para isso! Até porque o pote de ouro no final do arco íris, iria compensar todos os males...

— Não não, nem pense que você levaria toda a glória sozinho! Se for assim, pode me chamar de Michele.

— Com certeza soa muito melhor que Lexie, ou Lena... — Com um ar zombeteiro, o acionista a provoca, recebendo um tapa na orelha como resposta.

— Mas, falando sério, Max. Tenho coisas mais importantes com o que me preocupar do que minhas identidades fictícias. Nós dois temos, e não é algo pequeno.

— Eu sei, mas você sabe que não podemos voltar atrás agora, já chegamos muito longe pra pular fora do barco. Nem é como se tivéssemos escolha, de qualquer forma... Temos um dever a cumprir.

— Eu também sei disso. Mas ao mesmo tempo, não podemos passar essa impressão. O Michael precisa sentir que está em nossas mãos, principalmente porque se não fosse pela nossa parte, ele não teria nada.

— Esse é exatamente o problema! Se eu soubesse que aquele infame sequer sabia como conseguir a fibra, não teríamos feito um acordo com ele, pelo menos não dessa forma! Mas agora acabamos de entregar a única vantagem significativa que tínhamos.

— Como é? Por favor, Maxwell. Você só pode estar brincando com a minha cara. — Indignada, Jessica apressa o passo ao sair do elevador, deixando seu irmão para trás em um estado absorto.

— E por acaso eu tenho cara de palhaço? — Abrindo os braços, o nomeiado se aproxima, reclamando coisas incompreensíveis desde o longe.

— Pode não ser um profissional ainda, mas pelo menos leva jeito. Porque um circo lá dentro já conseguiu armar.

— Jessica! — Injuriado, ele exclama, a ponto de esgoelar-se.

— E por acaso eu disse alguma coisa errada? — Suprimindo um sorriso, Jessica manteve-se indiferente.

— Se você não percebeu, a situação é séria. Nossa reputação e a nossa família dependem disso!

— E é justamente por isso que me pasma o fato de você achar que eu daria alguma vantagem ao Connor de mão beijada! Se desconfiamos até mesmo das sombras das nossas sombras, quanto mais daquele homem!

— Você... Você guardou uma cópia das plantas, não é? — Subitamente, um total exclarecimento o acometeu.

— É óbvio, Max! Eu não nasci ontem!

— E por que diabos não me avisou que tinha feito isso?!

— E por acaso era necessário? Imaginei que você iria automaticamente deduzir o óbvio, assim como acabou de fazer agora!

— Eu sei, eu sei... Eu tenho apenas muita coisa na cabeça, Jess. Comunicação não custa nada, não seja como nosso pai.— E então, o sorriso sapeca desaparece do rosto da mulher, dando lugar uma tensão indescritível. Abrindo e fechando os lábios discretamente, ela faz menção de responder. Mas desiste de ondulá-los e os mantém em uma linha firme, enrijecendo a mandíbula com um rigor desnecessário. — De qualquer forma, bom trabalho. Uma cópia nunca é demais. Eu apenas não sei como isso como pode nos abrir uma vantagem, sendo que Michael e nós compartilhamos as mesmas informações.

— O que importa não é a informação, e sim o que pretendemos fazer com ela.

— Está sugerindo que terminemos o serviço sem o Michael?

— De certa forma, sim. Mas não vamos levantar recursos desnecessários. Isso é algo a se considerar apenas se o Connor realmente não cumprir a parte dele. Eu só sei que não podemos permitir que o Benson seja bem sucedido com aquele navio, não importa de que forma iremos conseguir impedi-lo. De um jeito ou de outro, faremos isso...

— Eu realmente espero que seja do primeiro jeito. Detesto a ideia de ter desperdiçado meu tempo, energia, e recursos em um investimento sem volta.

— Então enquanto nós e o Connor formos co-dependentes...

— Colaboradores profissionais. — Ele a corrigiu.

— Colaboradores profissionais, co-dependentes, ou parceiros na aula de zumba, que seja! O ponto é que se pretendemos continuar com essa parceria, isso inclui ao menos manter as aparências. O que significa não insultar o filho do seu parceiro de negócios, por mais que seja algo compreensível e tentador.

— Desde quando o pirata sonhador é um problema?

— Desde o momento em que ele é o único filho do Michael.

— Até onde sabemos... — Maxwell insinuou, dando vazão para o benefício da dúvida. — Além do mais, ele literalmente não dá a mínima para a empresa. Não passa de um imbecil ao quadrado que foi treinado para girar um timão.

— Michael pode ter até um time inteiro de futebol só com filhos, isso não me importa! O que importa é o fato do Connor Jr ser o único herdeiro legítimo da Cruise Control. E mais! Ele pode não ligar para a empresa agora. Mas espera até que ela passe para o nome dele, as coisas podem mudar de figura rapidamente...

— Acha que ele representa alguma ameaça futura?

— Talvez. Geralmente quem desdenha, é porque na verdade quer comprar... Mas, sinceramente, aquele ali é um mísero peixe palhaço! E espero que continue assim... Aliás, o Benson e ele são iguais. O Bradley é praticamente é a versão loira de uma mesma moeda. Inclusive, disputam até a mesma mulher.

— Como? — Com os olhos arregalados, o acionista indaga totalmente estuperfato.

— É isso aí. Samantha Puckett é o nome dela. Mas pelo que eu soube, a mesma odeia ser chamada assim... Enquanto eu estava infiltrada no restaurante do Griffin Petterson, eu vi o nosso herdeiro pirata praticamente se jogando aos pés da tal. O que foi torturante de aturar, principalmente levando em conta o fato de que ele mais parecia um cavalo sendo guiado por um cabresto. Se caísse um meteoro naquela ocasião, ele sequer iria perceber! Mas, foi divertido assisti-lo implorando por uma chance, mesmo sabendo que não iria receber uma. — Tendo acompanhado tudo de perto enquanto estava na pele de Lexie Lane, Jessica divertia-se em seu íntimo com as vergonhosas memórias que a mesma fazia questão de manter. — E o Benson nem se fala, presenciei de perto. Na festa de boas vindas, digo, na segunda festa de boas vindas da Samantha, ele não desgrudava dela em nenhum instante, praticamente a retia com o olhar. E se minhas pesquisas estiverem certas, e elas sempre estão, eles parecem ser do tipo que praticamente tentam se matar a cada dia. Mas ao mesmo tempo, são do tipo que dariam a vida um pelo outro.

— Calma aí, espera... — Varrendo os olhos de um lado para um outro, Maxwell parecia estar chegando a uma conclusão aparentemente prazerosa, levando em conta o enorme sorriso que havia surgido em seu rosto. — Não, mentira! Então quer dizer que você era a segunda opção do nerd esse tempo todo?! Que crise, ein Jesse. Quem te viu, quem te vê, não está fácil para ninguém! — Gargalhando euforicamente, o homem lacrimejava de tamanho esforço, divertindo-se o máximo as custas de sua nova descoberta.

— Eu roubei o projeto da vida do cara, e ele nem sabe que isso aconteceu! Tenho certeza que estou levando isso melhor do que ele, principalmente quando o pior acontecer... — Mantendo o foco, ela parecia não se importar com as provocações. Todavia, diferente da mesma, seu irmão não parecia estar disposto a mudar de assunto.

— Não não, nem vem. Não pense que irei esquecer disso tão cedo!

— É como Clarice sempre nos dizia, Max: Você não pode esperar desbravar os sete mares, sem engolir um pouco da água salgada.

— Você sabe que eu odeio quando você fala desse jeito. Fala como se nossa mãe já não estivesse mais viva. — Visivelmente pertubado, o rapaz tornou-se abruptamente queito.

— Ela não está entre nós, de qualquer forma. E você sabe porquê, sabe por quem...— Tomada de rancor, Jessica concentra toda a sua atenção em seus próprios sapatos, como se estivesse desesperadamente tentando esconder algo.

— Nós vamos dar um jeito nisso, Jesse. Até que tenhamos esgotado todas as nossas opções...

— E não é o que estamos fazendo agora?— Compartinhando um olhar cúmplice, nenhum dos gêmeos respondeu de imediato, até que um pigarrear chamou a atenção de Jesse:

— Falando nisso, pode deixar que eu vou na toca do predador dessa vez. Você fica aqui cuidando dos negócios, não devo ficar mais de dois dias fora. Até porque com toda essa enrolação do Connor, ainda não estou louco de me ausentar. — Sem olhar para os lados, o pescador prodígio declara de forma enfática, ainda que houvessem resquícios de receio em sua voz.

— Não foi você quem foi da última vez?

— Sim, mas eu tenho umas coisas a resolver. Você sabe...

— Sim, e isso ainda não me agrada nem um pouco, nada disso fazia parte do acordo. Já estamos cruzando a linha.

— Não acha que já fizemos isso há muito tempo? — Quase uma retórica, ele indagou com sinceridade. Porém, a acionista perde sua chance de responder ao ser bruscamente interrompida por um berro desmedido. — JESSICA! — Abrindo os braços, Maxwell esbraveja, como se a vida do mesmo dependesse daquilo.

— O que?! — Atordoada, ela responde.

— Você causou interferência nas câmeras do elevador, não é?

— Que droga, Max. É óbvio que sim! Precisava explodir os meus tímpanos por causa disso?! Confundi os circuitos antes mesmo de entramos no elevador. Eu sabia que você e sua boca grande não iriam esperar até chegarmos aqui fora.

— E agora a culpa é minha?

— Não, é claro que não... Não te culpo por ser o menos inteligente. — Com um sorriso mordaz, a mulher provoca o irmão, aguardando quase que ansiosamente por uma réprica do mesmo.

— Me contento em ser o mais bonito. — Ajeitando a gravata, ele devolve o sorriso astuto, levantando o queixo orgulhosamente como se tivesse acabado de vencer uma grande batalha.


[...]


O peixe espada — especialmente o da espécie Xiphophorus Helleri — é conhecido por sua cauda longa e pontiaguda, além de possuir uma coloração avermelhada sobre suas escamas. Geralmente apresentando um comportamento pacífico, o "portador de espadas", como também é conhecido, sente-se a vontade em locais onde a temperatura permanece agradável. Especificamente, na casa dos vinte graus. Todavia, dependendo do habitat em que esteja, o peixe espada pode mostrar-se agressivo, principalmente quando o mesmo é exposto a baixas temperaturas. Outro fato conhecido é que o peixe espada pode ser um tanto namoradeiro, sempre correndo atrás de sua fêmea a ponto de deixá-la estressada. E, bem. As vezes, a vida imita a arte. Ou melhor dizendo, uma parte da natureza, imita a outra...


— Boa noite, meu bom homem. — Com uma voz grave, e um tanto serena, um certo engenheiro naval recosta-se sobre o balcão de bebidas, fazendo questão de manter uma postura misteriosa.

— Boa noite, senhor. Em que posso servi-lo? — Cortês, Griffin coloca-se a disposição como se não o conhecesse.

— Um Dry Martini, por favor.

— Excelente pedido, é pra já!

— Espere! — Em um tom urgente, Fredward o interrompe. — Batido, não mexido. Obrigado. Ele complementa com um balançar de cabeça.

— Como eu deveria chamá-lo, senhor?

— Me chame de Bond, James Bond. — Ajeitando a gola de sua camisa polo, o engen... Digo, o agente secreto, decide apresentar-se oficial, e formalmente.

— Senhor Bond?

— Sim, rapaz?

— Sinto em lhe dizer isso, mas preciso informar algo muito grave...

— O que seria isso? Existe algum membro do Spectre nesse estabelecimento? Vamos homem, me diga! A noite só começa quando ouve-se o estampido do primeiro disparo... — Olhando freneticamente para os lados, como se estivesse em busca de seu alvo, o detesmido agente parece estar pronto para a ação.

— Não, não é nada disso! Eu apenas sinto lhe informar que... Cara, foi mal. Mas você é no máximo o agente 86! — Explodindo em gargalhadas, o proprietário do Sun And Sea dispara a gaitar ao perceber a decepção estampada no rosto de Freddie.

— O que? Ah, qual é! Logo o Smart?

— Teve sorte que eu não falei que você era o agente 13.

— Espera, eu sou o agente Hill? — Esperançoso, o herdeiro da Past Waters indagou.

— Absolutamente não, seria bom demais pra você!

— Então é o cara da lata de lixo, não é...?

— Bingo!

— Ha ha ha... Muito engraçado.

— Desculpe, hombre. Mas trabalho apenas com a verdade!

— Não, nesse momento você está trabalhando com uma garrafa de Vodca.

E existe soro da verdade melhor do que esse?— O salva vidas respondeu com convicção, certo de que seu argunto era de fato, irrefutável.

— Obrigado por destruir meus sonhos, Doutor Julius No! — Deixando-se cair sobre a banqueta, Fredward cruza os braços como se alguém tivesse acabado de lhe furtar um doce.

— Relaxa, quem sabe um dia você não construa um navio próprio para espiões e agentes secretos? É melhor do que nada. — Griffin tenta soar superficialmente reconfortante — Mas, brincadeiras a parte, é bom ver que resolveu tirar um tempo pra você. Imaginei que você iria passar mais uma noite em claro se afogando em uma pilha de papéis e maquinando algumas ideias, ou algo assim.

— Sim, e eu iria. Mas, hoje foi um dia duro, e imagino que amanhã será tão louco quanto. Então acredito que todos nós merecemos um descanso, nem que seja por algumas horas.

— Sabe de uma coisa? Cara, você está totalmente certo. Eu sei que dizem que "não se deve deixar para fazer amanhã o que se pode fazer hoje", e tal. Mas as vezes, pelo menos as vezes, eu acredito que é preciso deixar os problemas para amanhã. Por que não é apenas porque um problema surgiu ontem, que ele deve ser resolvido ontem. Dependendo do tamanho desse problema, ele pode não apenas roubar o seu ontem, como também pode roubar o hoje até chegar ao ponto em que um amanhã diferente, pareça não existir... Então, vamos procrastinar um pouco. As vezes nos adiantamos tanto que a nossa pressa pode ser um verdadeiro atraso de vida. — Acometido por uma súbita ponderação, Griffin começa a tagarelar sem parar enquanto prepara alguns drinks, praticamente como se estivesse fazendo um monólogo.

— Mas o que? Meu Deus do céu, eu já estou bêbado? O que você colocou nesse Martini? — Alarmado, Freddie solta seu drink sobre a copa de mármore, ainda tentando assimilar tanto as palavras que ele havia acabado de ouvir, quanto por quem as mesmas haviam sido proferidas.

— O que? Não posso ter meu momento de sabedoria também? Eu sou um homem que tem um bar, e a regra e clara: em algum momento da vida, o dono de um bar precisa dar sábios conselhos para alguém que está tentando afogar as mágoas.

— Justo... — Entornando o restante de seu drink, o engenheiro concorda. Porém, ainda há uma pulga atrás de sua orelha. — Mas...

— Tudo bem, eu confesso. Eu meio que não sabia o que "procrastinar" significava. Achava que era o nome de uma cidade, ou algo do tipo.

— Que tipo de cidade se chamaria "Procrastinar"?

— É sério! Por que não? Parece o nome de alguma cidade italiana ou algo assim. Seria algo mais ou menos como... "Procrástina"! — Balançando a mão sugestivamente, em um gesto bem conhecido por todos, o salva vidas mostra-se visivelmente orgulhoso com sua invenção. — E não é que soa bem? Acho que vou atualizar o domínio da minha ilha virtual...

— Domínio virtual...?

— Sim, lá na ilha pelúcia eu consigo visualizar o meus colecionáveis antes de comprar o exemplar físico. Consigo até elaborar os cenários e acessórios por encomenda! Falando nisso, preciso me lembrar de comprar uma furadeira nova e um serrote, meu escritório anda de precisando de prateleiras novas... Assim já aproveito e conserto os buracos do quartinho da academia, acabei acertando um soco fora do alvo e quebrando a parede, pra variar. — Falando com tranquilidade, mal sabia Griffin Petterson que além de salva vidas e empresário, o mesmo também poderia ser considerado uma verdadeira antítese em pessoa.

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— E eu achando que a Sam era a única complicada. Mas, Carly Shay, os anos se passam e eu ainda não consigo te entender... — Murmurando com seus próprios botões, Fredward seguia inconformado com o quão complicadas eram as mulheres que já haviam passado por sua vida. — Aliás. Mano, eu acho que nunca te perguntei isso. Pelo menos, não diretamente: Como? E por que?!

— Como conseguir um domínio virtual?

— Não! Como você conseguiu que a Carly voltasse com você? E por que ela te aceitou de volta?! Lembro que ela quase teve um infarto quando descobriu que você curtia colecionar bichinhos de pelúcia. — Ele sorriu de forma nada discreta.

— Sinceramente? Não sei se tem muito o que explicar. Se mesmo com todos os indícios de que as coisas dariam errado, acabou dando certo, é porque simplesmente, era pra ser. — O salva vidas respondeu de forma simples e direta.

— Você sabe... Toda essa coisa de "era pra ser", é algo terrivelmente vago.

— Não quando, de fato, já era.

— Quando já era o que?

— Amor.

— Quando já era o amor? Mas isso não faz...

— Não, homem! Quando já era amor. Quando já é amor não importa quantas coisas contrárias aconteçam no meio do caminho. Por mais que surjam outras pessoas, ou por mais que caminhos diferentes sejam tomados. Quando já existe amor, existem apenas duas opções: ou a pessoa nunca vai, ou ela sempre volta.— Pensativo, Freddie estava a ponto de admitir que após tantos anos, Griffin havia se tornado um homem mais sábio do que ele. Entretanto, uma coisa o fez permanecer no "quase". — Além do mais, elas não resistem ao charme de um bad boy. — O proprietário do Sun And Sea não resistiu a tentação de fazer piada com a situação.

— Bad boys não...

— Sim, eu sei. Mas ainda assim, quem continua tendo mais atitude? — Imodesto, Griffin Petterson assume sua pose habitual.

— Eu precisei ser atropelado por um caminhão, e você, só colecionar pelúcias. A vida é ingrata. — Inconformado, o herdeiro da Past Waters entorna mais uma dose — Bem, pelo menos a Carly conseguiu uma grande vantagem com tudo isso: pelúcias de presente é o que não vão faltar!

— As minhas? De forma alguma! É, é... Digo... É claro que eu costumo presenteá-la com pelúcias, até porque desse assunto eu entendo. — Novamente, ele mostrava-se orgulhoso — Mas meus colecionáveis são única e exclusivamente feito para serem admirados!

— Griffin? — Interrompendo completamente o assunto, Fredward aparentava estar ansioso, e um tanto inquieto.

— O que?

— Tem outra coisa que eu também não me lembro de já ter te perguntado, mas acredito que esse seja o momento ideal: você sabe que eu já fui loucamente apaixonado pela Carly, certo?

— Você já foi? Não, imagina! A história do olho mágico nem é uma das minhas favoritas. — O engenheiro revira os olhos, da mesma forma que uma certa pessoa, mas acaba se deixando levar e caindo nas graças da brincadeira. — Mas, sim, na verdade acho que toda a Ridgeway sabia. Por que?

— Você nunca ficou incomodado com o fato do melhor amigo da sua namorada, ser também o ex-namorado dela?

— E por acaso eu deveria? — Ainda que fosse uma retórica, Freddie balbuciou fazendo menção de responder, mas o salva vidas prosseguiu como se sequer tivesse percebido. — Você já namorou tanto a Carly, quanto a Sam, e nenhuma delas parece incomodada com o fato de serem melhores amigas do mesmo ex-namorado.

— Eu sei! Mas, sei lá... Talvez seja mais fácil para algumas pessoas, do que para outras...

— Mais fácil?

— Sim, lidar com esse tipo de situação...

— Cara, sejamos sinceros: você e a Carly podem até ter namorado, e terem se apaixonado em algum momento no passado. Mas vocês nunca se amaram pra valer, não dessa forma. Você já amava outra mulher, Freddie. Você sabe disso. Mas ao mesmo tempo, ainda queria realizar o sonho de viver um grande amor de infância. Eu tô errado? — Novamente, o nomeado não respondeu, apenas assentiu, e consentiu. Talvez porque, pela primeira vez, aquilo havia lhe soado como um esclarecimento, como uma confissão feita por meio de outros lábios... — Fora que, na época, a Carly era solteira. Ela tinha todo o direito de ficar com a pessoa que ela quisesse, assim como eu também tive outras namoradas. Muitas namoradas, por sinal. — O bad boy fez questão de enfatizar tal "fato importante". — Então por que eu deveria me incomodar com os antigos relacionamentos dela, se eu não tinha nenhum direito de cobrar alguma coisa? Nós amamos um ao outro, e ela está comigo agora. Isso é que realmente importa.

— Cara, sinto lhe informar, mas as pessoas não são assim...

— Sim, eu sei. Mas mundo seria um lugar muito melhor se as pessoas pensassem dessa forma... — Talvez as doses estivessem começando a fazer feito, mas, o engenheiro poderia jurar que estava sendo moralmente estapeado por um ex-mulherengo.

— Mas é impossível não sentir ciúmes de alguém que você ama! Principalmente quando esse alguém, já não está mais não está mais com você...

— Calma aí, eu não disse que eu não tenho ciúmes da Carly. É óbvio que eu se eu perceber um maluco tentando se aproximar com má intenção, ou tendo um "súbito torcicolo", eu já vou começar a olhar meio torto! Mas por que eu teria ciúmes do cara que literalmente carregou uma foto da menina que ele gostava por anos, apenas aguardando por uma oportunidade?

— Eu não sei! Um rival é sempre um rival.

— Aaahhhh... Então você também tinha ciúmes de mim e da Sam? — Não haviam palavras para expressar o quanto o proprietário do Sun And Sea estava se divertindo naquela noite.

— O que?! Não, claro que não! Vo-você e a Sam... — Fredward empalideceu.

— É óbvio que não, cara! Mas nós também somos amigos, assim como você e a Carly.

— Pra falar a verdade, eu sempre pensei que você e a Sam combinavam. Os dois curtem motos, os dois gostam tem pavio curto, os dois gostam de importunar as pessoas... São praticante iguais!

— E você e a Carly são dois certinhos que gostam de jogar pelas regras, e de fazer a lição de casa no final de semana! O que é um absurdo, aliás. Eu não fazia nem a lição que passavam na sala, quanto mais a que passavam pra casa... Vocês dois também são muito parecidos, e faria sentido que acabassem sendo um casal sem graça, graças à afinidade. No entanto, a Carly escolheu a mim, e a Sam você.

— Falou muito bem, escolheu. Agora, isso é coisa do passado... Ei, você disse sem graça?

— Freddie... — Griffin ignorou completamente os resmungos — Ainda há alguma chance de você e a Sam reatarem?

— Sinceramente, eu não sei... Eu acho que sim, mas quando as coisas estão prestes a dar certo, acabam dando mais errado ainda.

— Então você não pode ser assim, homem... O que aconteceu com o cara da foto no bolso?

— Ele apenas aprendeu a não abrir mão de uma oportunidade, principalmente quando ele sabe que tem uma chance... Espera! Não posso ser "assim", como?

— Alguém excessivamente ciumento.

— Eu não sou excessivamente ciumento!

— Não, tem razão... É excessivamente ciumento, e um grande orgulhoso também. — Freddie o encarou com os olhos arregalados, sem dizer uma única palavra em resposta. — Desculpe, mano. Mas eu precisava dizer isso. Se nós não pudermos contar uns aos outros nossas duras verdades, então o que nós estamos fazendo? Que tipo de amigos somos?

— Não, você tem razão... Talvez eu tenha ficado tão obcecado em ser uma versão melhorada de mim mesmo, que acabei deixando o meu melhor no meio do caminho.

— Também não é bem assim, não seja tão dramático. As vezes vocês só deixam as coisas mais complicadas do que já são. Ou melhor: conseguem complicar algo inexplicavelmente simples.

Algo inexplicavelmente simples torna-se inexplicavelmente complicado, quando se trata de uma mulher inexplicavelmente imprevisível...

— Tem certeza de que o problema é apenas com a Sam, homem?

— Cara, de que lado você está?!

— Do lado em que vocês dois consigam se entender. Que nesse caso, é desse lado do bar! — O empresário foi astuto em levantar a bandeira branca. — Mas vocês só vão conseguir se entender se conseguirem conversar de forma civilizada, e se respeitarem. Estando juntos, ou não...

— Em tese, parece simples. Mas as vezes eu simplesmente não sei dizer se o problema é quando abrimos a boca, ou quando ficamos calados.

— Bem, eu não posso falar pela Sam e nem falar com ela, visto que a loirinha não está aqui. Então, o que tenho a dizer, eu direi a você: se existe a possibilidade de vocês reatarem o relacionamento, você tem o dever de fazer a sua parte pra que isso dê certo. Mas se você sabe que essa não é uma possibilidade real, cara. Você não tem o direito de impedir que ela seja feliz com outra pessoa, se é que ela deseja ter um outro alguém.

— Eu vou tentar, mano. Eu prometo.

— Não, você não vai tentar. Você vai conseguir. – Griffin Peterson exclamou com firmeza, mas ainda assim, de uma forma gentil.

— Deus, você se tornou uma Carly que conserta motos! Depois do sumiço misterioso do Ryan, esse com certeza é o momento mais estranho do dia...

— É, até que é interessante ser a voz da razão, pra variar um pouco. Mas esse cargo ainda continua sendo da Carly na maior parte do tempo, eu prefiro continuar do lado divertido da vida... Mas, cara! Tu me lembrou bem. Por que o amigo do Spencer sumiu por todo aquele tempo? Eu lembro de ter visto a mensagem da Carly avisando que tinham encontrado ele, mas eu estava tão louco pensando em terminar de preencher as fichas antes de anoitecer que me esqueci completamente de perguntar o que aconteceu.

— Bem, resumidamente falando, pra te poupar de todos os termos técnicos...

— Sim, muito obrigado! A cada vez que você poupa o mundo do seu papo nerd, uma árvore é plantada na Mata Oceânica.

— Quer dizer, Mata Atlântica...

— Que seja, é tudo oceano!

— Mas... Mas... Quer saber, deixa pra lá! Voltando ao foco: O Spencer disse que o Ryan voltou ao mar para tirar alguma fotos quando avistou alguns peixes boiando no rastro de produtos químicos. Segundo ele, essas fotos servirão para abrir um processo sobre danos contra o meio ambiente.

— Beleza, mas ele vai processar quem?! O porto?

— Acredito que ele vá guardar isso até encontramos o culpado, ou algo assim...

— É, até que faz sentido. Mas, estranho...

— O que?

— Eu não me lembro de ter nenhuma lancha faltando. Quando fizemos a contagem, estavam todas lá...

— Pode ser que ele tenha saído com alguma delas após vocês terem feito a contagem.

— Sim, talvez... Mas é muito difícil uma lancha sair sem que ninguém perceba, é quase impossível.

— Sim, concordo. Mas geralmente não tem um resgate em massa acontecendo, então digamos que isso atrapalha a visão. Só um pouquinho, nada demais. – Freddie reivindicara o seu direito de ser a voz da razão.

— Tudo bem, você venceu! Isso faz sentido... Mas beleza, já fica a dica de que eu preciso ficar mais atento. Eu sei eu o Torres anda contando vantagem por aí, e isso eu não admito!

— Cara, desencana disso!

— Jamais! O recorde de piloto mais rápido pertence a mim, e continuará sendo dessa forma. Sendo em uma moto, ou em uma lancha!

— Qual é... Eu sei que você só implica com o Torres porque ele já piscou pra Carly uma vez.

— Não apenas piscou, como convidou a minha namorada pra dar uma volta na garupa dele! Na garupa dele!

— Você mesmo disse que ele não sabia que vocês estavam namorando.

— Sim, eu sei. Mas ele fez isso na minha frente!

— Depois eu que sou o ciumento... – O herdeiro da Past Waters aproveitou a oportunidade para uma insinuação nada discreta.

— Vai por mim, cara: exibir a moto é um insulto muito maior do que uma piscadela. E pra isso eu não dou o braço a torcer!

— Oh, e falando em braço a torcer, ou melhor, torcido, qual foi o diagnóstico da Carly? Eu cheguei a mandar algumas mensagens, mas ela ainda não me respondeu.

— Deve ser por isso que ela ainda não me respondeu também, os analgésicos e calmantes devem ter dado efeito.

— Analgésicos e calmantes?! Então foi algo mais grave que o esperado? – Fredward mostrava-se ligeiramente alterado.

— Não, na verdade não. Foi realmente uma luxação assim como os paramédicos haviam diagnosticado, a lesão vai se curar sozinha em uma ou duas semanas. Mas você conhece a Carly e a teimosia suprema dela. Ela queria trabalhar no artigo sobre o ataque assim que chegasse em casa, então o Spencer meio que pediu alguns analgésicos que pudessem facilitar o repouso.

— Calma aí... E ela concordou com isso?

— Mas é claro que não! O Spencer teve que fazer isso sem que ela percebesse, óbvio. Tipo quando ela sempre pedia café na época do fundamental.

— Foi impagável quando ela descobriu que o Spencer fazia descafeinado sem que ela soubesse. Ele tentou disfarçar com capuccino em pó, mas definitivamente não deu muito certo!

— Aliás, isso também me lembrou que amanhã eu tenho que passar na farmácia antes de pra lá. Vou até separar uns petiscos porque, pelo visto, nosso dia vai ser longo...

— Eu só espero eu valha a pena. O tempo está passando, e o lançamento do Purple Ship já está às portas. Essa é a nossa última investida, então tudo precisa dar certo. De um jeito, ou de outro...
— Sem crise, nossos planos sempre dão certo. E dessa vez, não pode ser diferente.

— Sim, até funcionam. Mas depois de tudo ter dado errado durante o percurso. Seria bom se não houvessem incidentes no meio do caminho. Pelo menos dessa vez, só pra variar.

— Mas aí tu já tá pedindo demais, cara. O que importa é que no final das contas, dê tudo certo. Ninguém pode prever os obstáculos no meio do caminho, mas qualquer um pode encontrar um jeito de contorná-los para chegar até o seu destino... Opa, bem na hora! – Triunfante, o salva vidas comemorou ao encontrar o canal que estava procurando.

— Bem na hora do que?

— Especial do Bon Jovi, praticamente acabou de começar. – Disse ele apontando para o televisor, como se fosse algo óbvio.

— É o que?! Não brinca, aumenta isso!

— Como é? Você, nerd Benson, gosta de Bon Jovi?

— Claro que sim! É Jon Bon Jovi, cara! — Fredward gritou, de uma forma tão eufórica que chegava a causar estranheza. — Essa música, eu amo essa música! — E então, o mesmo começou a cantarolar junto, e a balançar as mãos de um lado para o outro, como se estivesse de fato presenciando um show.

We've got to hold on,
(Nós temos que suportar,)
Ready or not,
(Estando prontos ou não,)
You live for the fight,
(Você vive pela luta,)
When that's all that you've got!
(Quando ela é tudo que você tem!)
Oh, we're halfway there
(Oh, nós estamos quase lá)
Oh, oh, living on a prayer!
(Oh, Oh, Vivendo por um triz!)
Take my hand, we'll make it, I swear
(Segure minha mão, nós vamos conseguir, eu prometo)
Oh, oh, living on a prayer!
(Oh, Oh, Vivendo por um triz!)

— Beleza... Falou então, "rockstar". Vamos combinar de ir um dia em um clube de headbanger, depois podemos dar um rolê com o pessoal do moto clube local. — As palavras de Griffin soaram como um assombro para Freddie, fazendo-o arregalar os olhos em pânico total

— Headbanger?! Moto Clube? Oh não. Não, não, não! Nem brinca com isso, nunca mais! Como vocês conseguem usar essas botas de combate? Parece que andam com o peso de um tijolo em cada perna!

— Não seja exagerado, homem. Naquela vez nós fomos apenas em uma loja punk. Fora que foi você mesmo que havia pedido, então...

— Sim, fui eu que pedi. Mas acontece que eu não estou acostumado a ser acorrentado dentro de um globo da morte quando vou comprar roupas! — Ele esbravejou, jogando a esmo os braços no ar.

— Pelo menos você recebeu um desconto.

— Sim, é verdade... Quase recebi o desconto de ter a minha vida abreviada! — Já faziam praticamente sete anos desde o ocorrido. Mas, aparentemente, o engenheiro não estava disposto a se conformar.

— Se continuar pensando assim, não vai durar muito em um apocalipse zumbi...

— Aaahhh, vai por mim, Petterson. Foram muitos e muitos anos que esse cara aqui investiu na Comic Con. Então se existe alguém aqui que vai saber o que fazer, esse alguém serei eu!

— Tudo bem, "Indiana". Então vê se descobre os mistérios que existem no fundo dessas garrafas, e aproveita o show aí. — Guardando algumas coqueteleiras de volta no balcão, o pseudo bad boy dá a volta no bar, deixando apenas algumas garrafas expostas na copa..

— Mas o Indi nunca enfrentou zumbis...

— Enfrentou aliens, que são praticamente zumbis de outro planeta.

— Sim, mas eles só apareceram no final. Ele nem chegou a "enfrentá-los" de fato, apenas ficou assistindo tudo.

— Que seja, ele nunca enfrentou zumbis! Mas o que importa é que se ele tivesse de enfrentá-los, com certeza saberia o que fazer!

— É, você tem um ponto. — Fredward concordou, tirando o lacre de mais uma garrafa.

— Mano, agora eu vou dar uma conferida na cozinha. Saíram muitas porções de camarão empanado hoje, então é provável que eu tenha que ir até o frigorífico do armazém buscar mais. Mas, você já sabe: as bebidas estão no balcão, o gelo no freezer, e as frutas na geladeira. Faz a festa aí e aproveita o show, "metaleiro"! — Abanando a mão direita em formato de hangloose, Petterson começou a andar em direção ao armazém. Entretanto, retrocedeu alguns passos ao lembrar-se de algo que julgava ser importante. — Ah, Freddie?

— O que? — O nomeado gritou em resposta.

— Só vê se não exagera na Vodka, você sabe como fica depois!

— Aqui é consumo consciente, cara. Sempre com moderação! — Confiando na palavra de seu amigo, Griffin, por fim, ausentou-se do local, deixando o herdeiro da Past Waters a mercê de sua própria liberdade...

[...]

— Freddie? Hey, cara! Bom te ver por aqui! — Sem dar-se conta de quanto tempo havia se passado desde que garrafas vazias haviam se tornado sua agradável companhia, Freddie é subitamente arrancado de seu estado atemporal após ouvir uma voz que o fez, em seu íntimo, desejar estar momentâneamente surdo:

— Bradley! Mas que grande coincidência você decidir dar as caras justamente na mesma noite em que eu apareço aqui...! — Encolerizado, e praticamente fulmegando pelas narinas, o engenheiro oferece um sorriso de desprezo para o comandante. Porém, o mesmo não pareceu perceber.

— E não é? A vida é engraçada, e nada como uma risada para melhorar o dia!

— Com toda a certeza! A vida é engraçada, e pelo visto eu sou o palhaço... — Fredward murmura, aproveitando o momento em que o Connor mais jovem estava fazendo seu pedido para buscar algumas garrafas, e consequentemente, afastar-se de sua indesejável companhia.

— Então, Dry Martini? Excelente escolha, o senhor Bond ficaria orgulhoso. — Apesar da distância considerável, Brad tenta puxar um assunto para quebrar o gelo.

— Bem, sabe como é. Eu não poderia dispensar o clássico. — Sentindo-se incapaz de ignorar uma referência por um motivo de força maior, Freddie responde em um tom mais amigável, mesmo que ainda estivesse incerto se deveria continuar, ou não. — Mas um Godfather também não é nada mal, Bradley. O nome e o whisky escocês, já falam por si só.

— Cara, eu já lhe disse: somos parceiros, me chame apenas de Brad!

— Sim, desculpe. Apenas, força do hábito.

Força do hábito, ou forçado pelo hábito? Sabe, eu odeio formalidades. Sempre prefiro improvisar e esperar pra ver o que dá.

— Não que eu que tenha algo contra o estilo de vida mais Macgyver, na verdade até admiro. Mas, improvisar não é exatamente a melhor coisa na minha profissão. Se os navios já estão do jeito que estão tendo toda a segurança possível, imagine se eu fosse descuidado... — Com um sentimento ambíguo pairando no ar, o herdeiro da Past Waters degustava o sabor agridoce de mais uma dose, ao passo em que mensurava o amargor de suas próprias palavras afiadas.

— Freddie? — Evidentemente receoso, Bradley perguntou.

— Sim?

— Eu sei que é uma pergunta um tanto retórica, na verdade eu sei que a resposta só pode ser uma. Mas ainda assim, eu acredito que você pode confirmar o que estou pensando...

— Manda aí.

— Você estava aqui no porto quando esse último navio explodiu? Eu ainda não havia chegado de viagem quando o naufrágio, digo, quando o ataque aconteceu. Me disseram que foi horrível, mais do que as últimas vezes. A ponto de a fumaça ser capaz de cobrir a praia como um véu...

— Eu gostaria de dizer que esses boatos não são verdadeiros, mas, infelizmente é verdade. A fumaça estava tão densa que era possível tocá-la com a mão. Eu vi a coisa toda, inclusive. Desde o ataque, até o resgate, principalmente porque dessa vez o ataque foi muito mais perto do porto do que nas vezes anteriores. Eu só sei quem quer que esteja por trás de tudo isso, com certeza está se importando cada vez menos com as pessoas que serão afetadas...

— Sabe, eu literalmente cresci nesse porto. E nesses meus quase vinte e seis anos de vida, eu nunca vi algo desse tipo acontecer. Por que alguém em sã consciência iria querer prejudicar esse lugar? Na verdade, acredito que nem meu pai tenha visto algo assim. Nunca o vi tão arrasado quanto no dia daquele atentado contra a Cruise Control. Foi um dos primeiros projetos dele que ainda estava em funcionamento, praticamente explodiram um pedaço da nossa história... Eu sei que tecnicamente nossas empresas são rivais, mas, fiquei sabendo que você foi um dos voluntários durante o resgate. E como eu não tive a oportunidade de agradecer, estou fazendo isso agora: valeu, Freddie. Você não tinha a obrigação, mas ainda assim o fez. Foi um belo gesto.

— Não foi nada demais, cara. É sério. Se você puder fazer coisas boas para outras pessoas, tem a obrigação moral de fazer isso.

— Homem aranha?

— Sim, exatamente! — Abismado, o nerd de berço arqueia os lábios para baixo, balançando a cabeça de forma quase imperceptível.

— Parece surpreso. — Todavia, não imperceptível o suficiente a ponto de que o herdeiro da Cruise Control não pudesse notar.

— Digamos que você não tem exatamente a cara de alguém que goste de quadrinhos.

— Justo... E você não tem cara de quem vira shots de rum em uma sexta feira a noite.

— Justo. — Ele concordou, fazendo jus á afirmação anterior ao virar mais uma dose.

— Mas, ainda assim, eu não desejo que o mesmo que aconteceu com a Cruise Control, aconteça com a Past Waters. Falo isso do fundo do coração. As empresas que nossos pais construíram também fazem parte da história desse porto. Uma parte muito importante da história, aliás! E mesmo que o pior aconteça, saiba que no que puder, eu irei ajudar também. Só espero que o cara que está por trás disso seja pego o mais rápido possível...

— Eu também, para ambas as afirmações. Mal posso esperar pela hora em que as pessoas voltarão frequentar o porto em busca de diversão, e não apavorados com a ideia de que poderão ser atacados a qualquer momen... Espera... Como sabe que é um cara? — Freddie subitamente endireita sua postura, entrando em um estado imodesto de alerta.

— O que? Na-não, relaxa! Foi apenas um modo de falar.

— Sim, é claro, desculpe. Foi apenas uma expressão, eu deveria ter imaginado... — Ele tentava camuflar seu desconforto.

— Parece muito desconfiado, homem. Toda essa apreensão vai te consumir uma hora.

— Culpado, mas, não posso me ajudar nisso. Talvez seja por isso que um nerd está entornando doses em plena sexta feira a noite... Porém, como você ia dizendo, existe uma coisa que todos temos em comum, certo? O amor por esse porto. Então é inadmissível que as pessoas que tanto respeitam esse lugar, tentem prejudicá-lo dessa forma. Não é mesmo?

— Sim, é exatamente isso que estou dizendo! E falando sobre o amor por esse lugarzinho aqui, o meu começou logo cedo, praticamente desde que me lembro... Eu sei que meu coroa também não é o cara mais amistoso do mundo, mas ele sempre me levava para andar de escuna todo final de semana, de manhã bem cedinho, logo após o sol nascer. Foi desse jeito que eu aprendi a pilotar: sentindo o vento batendo no rosto, e literalmente observando o sol subir o horizonte até ficar estabelecido. Eu me sentia um pirata desbravando os sete mares, principalmente quando meu pai me dizia que o mar era um lugar muito grande, e que ainda havia muita coisa a ser explorada... — Olhando em direção ao longe, para as imagens fragmentas do mar que eram possíveis ser avistadas através dos vitrores, Bradley exibe um largo sorriso, um lembrete visível de saudosas e agráveis lembranças. — Eventualmente, ele parou de pilotar comigo. Sempre dizendo que tinha compromissos com a empresa, deixando de aparecer uma vez ou outra. Até que por fim ele parou de se justificar, e também de aparecer. Mas isso não me impediu de continuar pilotando, claro. Naquela altura eu já tinha minha habilitação e, bem. Digamos que não era muito difícil conseguir em uma lancha, nem um navio. — Freddie apenas concordou em silêncio, compartilhando, meio que de forma indireta, a realidade de alguém que já nascera com a responsabilidade de ser um herdeiro. — Eu só sei que sou incapaz de dizer quando comecei a amar a arte de pilotar, não me lembro de nenhum momento em que eu já não amasse fazer isso. E seja lá quando esse amor surgiu, o que importa é que surgiu exatamente aqui nesse porto...

— Quem diria, parece que temos outro hábito em comum: meu pai também costumava vir comigo ao porto todo final de semana. A diferença é que ao invés de me ensinar a pilotar, vínhamos testar alguns pequenos protótipos funcionais de navios que eu costumava construir quando era criança. Bons tempos... — Talvez demonstrando falsa modéstia, talvez não, o fato é que mesmo debaixo de toda a disputa velada, havia sinceridade nas lembranças saudosas do engenheiro prodígio.

— Protótipos funcionais?! Acho que não posso competir com isso. — Alheio a qualquer sinal de maledicência, Brad mostrava-se ainda mais interessando no assunto.

E nem deveria. O resultados são apenas consequências. A verdadeira conquista encontra-se na pureza das intenções. — Dessa vez, não haviam insinuações na voz do nerd.

— Wow... Pelo visto não posso competir com as palavras também, deve ser bem difícil ser um primo seu.

— Apenas porque a concorrência não é muito acirrada, qualquer pessoa consegue ser mais agradável do que a prima Amanda.

— Quem é a prima Amanda?

— Uma pessoa horrível, jamais queira conhecê-la!

— Ela é tão ruim assim?

— Amanda é repugnante, você não faz ideia... — Freddie chacoalhou o corpo afim de dispersar a sensação de arrepio que lhe subia pela nuca.

— Mesmo assim, deve ser uma boa sensação.

— Ter uma prima repugnante?

— O que? Não! Digo... Ser o filho perfeito. Meu pai não diz isso em voz alta, mas, eu sei que ele queria que eu fosse mais como você. Um engenheiro, um sucessor, um gênio. Você constrói barcos, enquanto eu apenas sei pilotá-los. Você está fazendo história. Por você, pela sua família, pela sua empresa. Eu só quero viver a minha história, mas sei que isso não é o bastante...

— Eu... Eu não sou perfeito, cara. Acredite em mim quando eu digo isso. Principalmente porque minha mãe queria uma menina, então a teoria do filho perfeito já caiu por terra desde o útero. — O comandante não sabia ao certo se deveria interpretar aquilo apenas como uma piada, ou se realmente havia um fundo de verdade. Mas, no final contas, continuava sendo engraçado.

— Você tem um bom senso de humor, Benson. Achei que fosse mais sério. Se eu soubesse já teria começado com algumas piadas ruins que contamos em bares capengas.

— Oh, você quer dizer piadas do tipo: "Por que o pinheiro não se perde na floresta?"

— Calma aí, não me fala a resposta! Pinheiro... Floresta... Huh... Muita calma nessa hora, eu vou conseguir descobrir!

— Tem certeza...?

— Não, na verdade não... Droga, essa eu realmente não sei!

— Por que ele tem uma pinha! Entendeu? Um mapinha! — Demonstrando um entusiamos surreal, e repentino, Freddie segurava uma garrafa que servia como seu suposto microfone improvisado, como se estivesse perfomando em um show de stand up comedy.

— Isso foi terrível... O que é incrivel! Como nunca pensei nisso antes? É genial! Não posso me esquecer disso, vai que surge uma oportunidade! Se ao menos eu tivesse um... — Brad tateava os bolsos de sua calça em busca de algo que pudesse servir como um bloco de anotações, embora essa não fosse uma experência poderia ser facilmente esquecida.

— Então reverencie vossa majestade, Bradley. Pois eu sou o rei dos trocadilhos, e com muito orgulho! Talvez você até seja um sucessor e herdeiro melhor do que eu, mas jamais irá me superar quando o assunto é piadas ruins. Isso é um decreto!

— Pode ficar tranquilo que ambos são todos seus... — Ele respondeu sem emoção, como se tivesse algo do que se envergonhar.

— Creio que ainda é muito cedo pra dizer isso, não precisa entregar o jogo tão facilmente.

— Não, não é apenas sobre isso. Eu falo sério! Eu nunca quis herdar a Cruise Control, estou longe de ser o cara que nasceu pra usar terno e gravata todo dia. Tudo bem, é elegante. Mas vestir aquilo o dia todo deve ser terrivelmente desconfortável! Se eu pudesse passaria a liderança tranquilamente pra outra pessoa. Mas sou filho único, parece que não tenho outra escolha...

— Se serve de consolo, eu também não faço questão de receber a cadeira tão cedo... Mas não é porque eu não a quero. Eu meio que fui treinado para isso desde cedo, então estou preparado. Inclusive meu pai até queria passar a empresa no meu nome desde já, mas... Isso seria tão...

— Mórbido?

— Sim! Algo do tipo... Meu velho está saudável e bem vivo. Se brincar tem até mais disposição do que eu! Assinar aquilo seria como matá-lo em vida, então, prefiro que a vida siga o seu curso natural. Quando o inevitável chegar, aceitarei minhas responsabilidades...

— Acho que o inevitável merece outra dose... — Bradley brinca com outra garrafa vazia, espremendo os olhos afim de ler o rótulo que já não lhe parece tão legível.

— Sim, concordo. Já sei até o shot ideal... Hey, Shane! — O engenheiro chacoalha um dos braços com uma intensidade desnecessária, chamando a atenção de um conhecido de longa data.

— Opa, Freddie?! Quando chegou aqui, cara? Acho que fiquei tão entrentido nos coquetéis que nem percebi.

— Ah, cheguei faz um tempinho. Até dei uma enrolada com o Griffin antes de ele sair para buscar alguns quilos de camarão. Ou, algo assim...

— Bem, então posso te ajudar com algo? Vieux Carre tem sido o mais pedido da noite.

— Bourbon parece tentador, mas, tenho outra coisa em mente: dois Strawberry Basil Rickey, por minha conta.

Cointreau? Tá na mão! Os clássicos nunca decepcionam! — O barman mostrava-se genuinamente empolgado.

— Um coquetél que trás uma sensação doce, e amarga ao mesmo tempo...

— Assim como o inevitável! — Fredward transparecia sua satisfação ao ter seu ponto compreendido.

— Como aprendeu tanto de drinks?

— Digamos que uma convivência loira teve lá sua influência. — Mesmo sem possuir a intenção de insinuar algo, o herdeu da Past Waters deu-se conta do terreno perigoso em que havia entrado, ao notar a incerteza de Bradley em continuar a conversa.

— No capricho, aproveitem! — Shane retornou rapidamente com um drink em cada mão, interrompendo o assunto que, de certa forma, sequer havia começado.

— Wow, isso foi rápido. Muito rápido! — Freddie exclamou com os olhos arregalados, sem saber ao certo se Shane realmente havia sido muito eficiente, ou se sua percepção do tempo já estava um tanto quanto, distorcida...

— Sabe como é, né? Alguns anos de prática trazem lá suas vantagens!

— Bem, de qualquer forma... Coquetel bonito, coquetel bem feito, coquetel formoso! Valeu, cara. — O engenheiro agradeceu com um aperto de mão firme.

— Qualquer coisa, é só dar um grito! — O ex-membro do clube A.V agradeceu e afastou-se do balcão, voltando imediatamente para o trabalho.

— Bem, ao inevitável! — Os futuros herdeiros levaram seus drinks ao alto e saudaram seus próprios dilemas, entornando suas respectivas doses logo em seguida.

— Woah, eu amo essa música! — Fredward volta sua atenção para o televisor e aumenta o volume significativamente, ao reconhecer a melodia que para uma geração inteira, poderia ser considerada como inconfundível:

It's my life!
(É a minha vida!)
It's now or never
(É agora ou nunca)
I ain't gonna live forever!
(Eu não vou viver para sempre!)
I just want to live while I'm alive...
(Eu só quero viver a minha vida enquanto eu estou vivo...)
(It's my life)
(É a minha vida)
My heart is like an open highway
(Meu coração é como uma rodovia aberta)
Like frankie said:
(Como Frank (Sinatra) disse:)
"I did it my way!"
("Eu fiz isso do meu jeito!")
I just wanna live while I'm alive...
(Eu só quero viver a minha vida enquanto eu estou vivo...)
It's my life!
(É a minha vida!)

— Não brinca! It's My Life? Essa música é atemporal, não irá envelhecer jamais!

— Eu não sei explicar... Mas ela me traz sensação de urgência, a sensação de que você precisa apostar alto antes que seja tarde demais. De lutar pelo que é seu. O famoso "é agora, ou nunca".

— Sim! Exatamente isso. Amo ouvir essa música quando estou pilotando, traz aquela sensação de liberdade. De longe, é a minha favorita... Aliás, é um show deles?

— Sim, começou já tem um tempinho. Cheguei aqui logo na abertura. Já tocaram minhas favoritas: It's My Life, Livin' On A Prayer, Runaway, Always, entre outras. Mas ainda não tocaram minha predileta...

— Qual?

You Give Love A Bad Name.

— Wow, sério? Selvagem! Eu poderia jurar que seria uma mais lenta.

— Não que eu não escute algo do tipo Moonlight Sonata de vez em quando, mas, deve ser pela identificação. A sensação de euforia que essa música passa é algo... Algo inexplicável. Provavelmente deve ser pelo contexto vívido. Que por sinal, devo tê-lo vivido até demais...— Momentaneamente, os rapazes cairam em um silêncio mútuo, apenas observando o show que estava sendo transmitido. O que, de fato, poderia ter continuado assim, assim como o próprio Fredward havia desejado anteriormente. Todavia, por razões inexplicáveis, o engenheiro sentiu fortes ímpetos de continuar, trazendo á tona um assunto que poderia ser facilmente identificado por suas intenções questionáveis... — Então, esperando por alguém? — Ele indagou de forma despretenciosa.

— Oh, sim. Na verdade sim! Por um momento acabei me esquecendo do motivo de eu estar aqui, acho que acabei me deixando levar pelos drinks. Ela só está um pouco atrasada, mas ela sempre se atrasa. Então, acho que não deve ser nada demais.

Parece até alguém que eu conheço... Mas, relaxa cara, olhe pelo lado bom: de repente ela já está treinando para casamento! — Freddie respondeu de maneira ingênua, estando verdadeiramente desprovido de qualquer malícia.

— Casamento? Quem me dera, mano! Apesar que se a Sam topasse casar comigo, eu não me importaria de esperar por ela o tempo que fosse necessário...

— Isso que é determinaç... Espera, você está esperando pela Sam?!— Como um isqueiro que aceso em um celeiro repleto de feno, o herdeiro da Past Waters sente seu estômago queimar, sendo incapaz de disfarçar a tamanha indignação com as quais as palavras haviam escapado de sua boca.

— Sim, por que? — Brad questiona, ainda sem entender o que o teria levado a se expressar daquela forma. — Algum problema?

— Não, nenhum! Ma-mas se eu soubesse que se tratava dela, eu não teria feito a piada sobre o casamento...

— E por que não? Quer dizer que ela não poderia casar comigo se quisesse? — O comandante, já exibindo uma carranca, tenta tirar satisfação, mudando totalmente seu estado de espírito habitual.

— Não, cara! Eu não disse nada! Estou apenas dizendo que eu não faria uma piada como essa se soubesse de quem se tratava... — Freddie inicialmente tenta se justificar, mas logo muda sua opinião de maneira drástica... Sentindo-se rebaixado de alguma forma, o rapaz não apenas aceita a briga, como também decide comprá-la, ao dobrar sua aposta com uma cartada muito pior... — Olha, se realmente quer saber, a Sam pode fazer o que quiser da vida dela. Mas se a conheço bem, e eu conheço, duvido muito que ela irá querer...

An angel's smile is what you sell
(Um sorriso angelical é o que você vende)
You promise me heaven, then put me through hell
(Você me promete o paraíso, então me coloca no inferno)
Chains of love got a hold on me
(As correntes do amor me prendem)
When passion's a prison, you can't break free
(Quando a paixão é uma prisão, você não consegue se libertar)

— Está tentando insinuar algo, Benson? Por que se estiver, eu gostaria que você fosse um pouco mais claro... — O piloto permanece sério e arisco, como uma chaleira que começa a ferver aos poucos.

— Desculpa, parceiro. Mas acho que fui bem direto, não? Você me perguntou qual era o problema, eu apenas respondi.

— E o que te faz pensar que você conhece a Sam melhor do que eu?

— O que me faz pensar? Seria o simples fato de que a Sam e eu nos conhecemos desde o ensino fundamental? Nos conhecemos o equivalente a metade do nosso tempo de vida, literalmente!

— Sabe, cara. Você é muito inteligente. Eu sei disso, e sei que você também sabe disso. Então é óbvio que aprendeu muitas coisas, mas, parece que esqueceram de te ensinar uma das mais importantes... Vem cá, nunca te disseram que qualidade, é muito melhor do que a quantidade?— No rosto do unigênito de Michael, havia um sorriso contido, como se o mesmo estivesse começando gostar da situação. — Eu posso não conhecer a Sam a tanto tempo quanto você, nem termos estudado na mesma escola durante anos. Mas garanto que o meu relacionamento com ela, é muito mais saudável do que o seu jamais foi!

— Oh, mas que grande relacionamento vocês dois possuem! Vai dizer mais o que? Que vocês dividiram o mesmo quarto no berçário, ou que o mar a trouxe de volta pra você? Ah, Me poupe... Além do mais, o que você pensa que sabe sobre mim, capitão? Essa é a primeira vez que trocamos algumas palavras além do obrigatório!

— Eu sei o suficiente. Que para o seu governo, é muito mais do que você pensa! Foram longas noites naquele cruzeiro, Freddie... E nessas noites Sam e eu conversamos sobre muitas coisas, inclusive sobre você.

— Certo, então ela gastava o tempo dos "encontros" de vocês, falando sobre mim? Acho que estou lisonjeado! — O nomeado reataliou de forma despreocupada, e em até certo ponto, satisfatória, como o se nada que Brad lhe disesse pudesse atingi-lo.

— Pois não deveria, Benson. Eu não me lembro de ter dito que eram coisas boas, as vezes o tiro simplesmente sai pela culatra...

— O que quer dizer com isso?

— Quero dizer que eu sei que você e a Sam já namoraram. Que já terminaram, reataram, e claro, que ficaram nessa dança por muito tempo... Assim como também sei o quanto você foi um imbecíl durante todo o relacionamento de vocês. A Sam não poupou adjetivos para descrever o quanto você sempre foi egocêntrico...

— Está mentindo.

— Como pode estar certo disso? Diferente do que pensa, você nem sempre pode ter todas as respostas.

— Sim, eu posso. E eu tenho. Principalmente sobre isso. Porque diferente de você e dos seus blefes desesperados, eu realmente conheço a minha ex-namorada. Então eu sei que não importa o que eu tenha feito, o quanto eu esteja errado, ou qualquer mal que eu tenha causado a ela. Eu sei que a Sam jamais diria algo desse tipo sobre mim, principalmente pelas minhas costas. Ela poderia até dar um tapa na minha cara todo dia, colocar gorgonzola no meu shampoo, ou sapatear em cima da minha pizza. — Estas, sem dúvidas, não eram lembranças agráveis. Nunca foram. E era pouco provável que fossem vistas dessa forma algum dia. Todavia, ainda assim, Freddie mantinha um estranho afeto por elas. Não que ele gostasse de sofrer. Na verdade, nutriu seu ressentimento pela loira durante muitos anos, por estes mesmos motivos. Mas agora, essas coisas faziam parte do passado. Então talvez, apenas talvez, seu saudosismo por dolorosas lembranças se desse pelo mesmo motivo... — Mas ela jamais falaria qualquer coisa negativa sobre o nosso relacionamento. Na verdade a Sam sequer falaria do nosso relacionamento, principalmente com um estranho como você! Eu não sei como você sabe das coisas que diz saber. Mas se foi a Sam que disse qualquer coisa sobre isso, ou foi por muita insistência da sua parte, ou isso aconteceu recentemente.

— Ela é boa demais para você. Eu sei que você também sabe disso...

— Oh, então deixe-me adivinhar. Você seria o homem ideal pra Sam?

— Melhor que você? Eu seria com certeza! Isso já é o bastante.

— Se eu fosse você tomaria mais cuidado com as palavras, Connor.

— Ou o que? Acha que eu tenho medo de você? Você é apenas um egoísta com complexo de grandeza, Freddie Benson. Que nem a fez feliz, e nem permite que ela seja feliz com outra pessoa. — Bradley se aproxima um pouco mais, sem quebrar o contato visual em momento algum, enquanto descansa seu punho fechado sobre o balcão de forma nada sutíl.

— E por acaso eu estou impedindo que exista alguma coisa entre vocês, campeão? Sam e eu rompemos a cinco anos atrás. Então não venha me culpar dizendo que sou que quem não permite que ela seja feliz com outra pessoa. Se você fosse a felicidade que ela tanto precisa, ela já teria te dado uma chance. Na verdade eu até acho que ela estava em paz, mas você está tentando acabar com isso com toda essa insistência. Então, me diz: quem é o egoísta com complexo de grandeza, agora?— O herdeiro da Past Waters dá um tapinha de consolação sobre o punho de seu rival, balançando a cabeça negativamente como se sentisse pena dele.

Woah, Oh Oh
(Woah, Oh Oh)
You're a loaded gun...
(Você é uma arma carregada...)
Woah, Oh Oh
(Woah, Oh Oh)
There's nowhere to run,
(Não há para onde correr,)
No one can save me
(Ninguém pode me salvar)
The damage is done!
(O estrago já está feito!)

— Não se trata de mim, Benson.

— Oh, agora vai tirar o seu da reta?

— Eu não estou tentando me insentar de nada, se é o que você está pensando. Se trata apenas do fato de que você pode até não estar nos impedindo. Mas ao mesmo tempo você não aceita a ideia de ver a Sam feliz com outra pessoa, com outro homem. Te enlouquece apenas a possibilidade de que ela possa ser feliz com uma pessoa que não seja você.

— Você a ama? — Fredward indagou sem rodeios, deixando Connor completamente estarrecido.

— O que?

— Eu te fiz uma pergunta, Bradley. Você a ama?

— E-eu... Eu gosto dela. Eu realmente gosto.

— Mas você a ama?

— Se eu disse que gosto dela, é porque eu gosto, homem! Não lhe devo satisfações sobre o que eu sinto, ou deixo de sentir. Mas saiba que tenho uma afeição enorme pela Sam, provavelmente desde o momento em que a vi no bar mergulhando...

— Mergulhando algumas batatas fritas em um shake gordo tamanho extra grande. Sim, eu sei. Eu sei disso porque eu a amo. Ela faz isso desde o ensino médio toda vez que fica ansiosa com alguma coisa. — Quanto mais irritação seu oponente deixava transparecer, mais enfunado de orgulho Freddie demonstrava estar, ao constatar que ele sempre teria todas as respostas sobre ela.

— A Sam é só um troféu pra você, Benson?

— Como é que é?

— Por que eu só vejo você se gabando do quanto a conhece, de quanto tempo se conhecem, e do fato de terem namorado. Mas se você a ama tanto quanto diz amar, por que não estão juntos nesse momento?

— Por que não pergunta a ela? Ela me ama também. Então essa é uma questão que a própria Sam pode responder.

— Como eu disse, Freddie, a sua prepotência realmente é algo que passa dos limites... Você não pode falar por ela, não pode afirmar os sentimentos de outra pessoa.

— Não, eu posso. Sobre isso eu posso! Por que eu sei que você também sabe que é verdade.

— Você não pode afirmar nada dis...

— Cara, eu vou te dizer apenas mais uma vez: sim, eu posso! Porque eu tenho toda a certeza do mundo que a Sam admitiu pra você que ela também me ama. E digo mais: ela precisou dizer isso pra te dar um fora! Porque você insistiu tanto, mas tanto pra que ela te desse uma chance, que a Sam precisou admitir que amava outra pessoa para conseguir te despachar...

— Como você sabe dessas coisas, Benson? Andou me espionando, por acaso?! — Levantando-se abruptamente, o comandante tenta amedrontar Fredward por sobrepor sua altura diante da dele.

— Não, eu não precisaria ser tão baixo. Eu não sou você.

— Como você sabe dessas coisas?! — Brad continuava expelindo suas palavras com animosidade, como se as feições ainda serenas de Benson estivessem pertubando-o.

— Bem, acho que eu deveria te agradecer. Você acabou de me confirmar. — Ele simplesmente exibe um sorriso mordaz, entortando ligeramente a curvatura de seus lábios, sem vacilar sua postura em momento algum.

— Tudo bem, Fredward. Então será do jeito que você quer... Eu juro que tentei ser agradável com você, tentei ser seu parceiro. Afinal de contas, se você é importante pra Sam, eu também deveria me dar bem com você. Mas como eu já disse, e não me importo de repetir, o seu ego é gigante. Tão grande, a ponto de você sequer perceber que o simples fato de estar constantemente escancarando que você não foi o único a ter culpa, vai apenas criar um remorso compartilhado entre vocês, e não o perdão. Só porque você não é o vilão, não significa que seja o herói, Benson.— O nomeado não respondeu. Todavia, desfez rapidamente seu sorriso ao convertê-lo em uma carranca. E Bradley percebeu isso. — Mas, que assim seja. Se você não quiser ser meu aliado, então será meu rival.

— Seu rival? Rival no que? Em conquistar a Sam? Por favor, Bradley! Não existe oponente em uma luta que já está ganha. Será até injusto da minha parte te deixar tentar. — O herdeiro da Past Waters também decide pôr-se de pé, o que ele o faz rudemente, sem perder sua pose apesar de tudo.

— É melhor você calar essa boca.

— Oh, é mesmo? E por que eu deveria?

— Eu estou lhe avisando, Benson. Não quero fazer uma coisa da qual eu possa me arrepender.

— Oh, mas que medo! Veja, minhas pernas já estão até tremendo! E eu estou lhe fazendo um favor, Connor. Te impedindo de de investir em algo que eu tenho certeza de que não vai pra frente.

— Chega, não adianta mais discutir com você! Você se gaba tanto do fato de você e a Sam terem vivido um amor recíproco, mas se esquece do fato de que não existe apenas um amor na vida de uma pessoa!

— Não seja estúpido! Existe apenas um grande amor na vida de alguém, um amor eterno.

O amor pode ser eterno, mas isso não significa que o relacionamento vá durar para sempre. E você precisa aceitar que isso. Precisa seguir e frente, e permitir que a Sam faça o mesmo.

— Você não vai tirá-la de mim.

— Não, isso você já fez sozinho. Eu vou apenas fazê-la te esquecer.

— Então, que assim seja, capitão! Boa sorte com isso... Mas, antes de você de tentar, eu só gostaria de saber uma coisa: como vai fazer com que a Sam me esqueça? Roubando um beijo dela outra vez? — Tomado de desespero, Connor abre e fecha inúmeras vez, sem conseguir dizer uma única palavra em nenhuma delas. — Não não, nem perca seu tempo tentando revidar. Porque não importa o que você tente, ou o quanto você tente. Sam e eu temos uma história, e você nunca vai conseguir apagar isso. Então se você se contenta em estar com alguém que ama outra pessoa, parece que essa é a sua grande chance. Mas, quando estiver pensando em roubar outro beijo dela, apenas se lembre de uma coisa: ela me beijou primeiro. — Em um acesso espontâneo de fúria, a chaleira de Bradley finalmente ferve, quando o mesmo desfere um soco no rosto de Fredward. Diante de uma chance nula de esboçar qualquer defesa, o engenheiro simplesmente curva seu corpo sobre o balcão em resposta ao impacto, levando uma mão em direção a boca ao sentir seus lábios úmidos, e quentes.

A school boy's dream,
(O sonho de um garoto do colegial)
You act so shy
(Você se finge de tímida)
Your very first kiss,
(O seu primeiro beijo)
Was your first kiss goodbye
(Foi seu beijo de despedida)

— Se sente melhor agora, campeão?! Cai dentro, Connor! Quero te apresentar meu gancho de direita! — Com um brilho louco no olhos, como alguém que havia alcançado seu objetivo, e estava buscando por mais, Freddie implora por uma briga, ignorando completamente o fato de que que toda a atenção do bar estava agora concentrada nos jovens herdeiros.

— Eu juro que eu podia quebrar a tua cara com muito prazer, mas isso iria me prejudicar no lance com a Sam.

— Mas esse lance entre vocês não existe! Aliás, essa é a parte engraçada. Só não é mais engraçado que o fato de você achar que poderia me quebrar. Mas, o que vale é a intenção. Ao menos serviria pra mostrar quem você realmente é.

— Quem eu realmente sou? Eu sempre fui transparente quanto a pessoa que sou, mas você está muito longe de ser o escoteiro de quem tanto ouvi falar!

— Um escoteiro? Sim, realmente. Eu já segui esse coceito muito á risca. Sendo alguém muito generoso, que sempre se colocava não em segundo, mas em décimo lugar... Se fosse em outros tempos, aliás, eu provavelmente deixaria que você levasse a melhor, por achar que eu não teria chance. Mas esse dia não é hoje.

— E isso te dá o direito de se tornar um alguém detestável?

— Detestável, eu? Não... Eu apenas aprendi que tenho o direito de, pra variar, me colocar em primeiro lugar.

— Obrigado, Fredward! Você chegou exatamente no ponto que eu queria: a Sam precisa de alguém que se importe verdadeiramente com ela, e não apenas com si próprio.

— Meu chapa, eu não sei se você sabe, mas a Sam não precisa de ninguém. Ela sabe muito bem se virar sozinha. Na verdade, ela sempre soube. Então se ela tiver alguém, é exclusivamente porque ela quer, e não porque ela depende disso. Isso só prova o quanto você não conhece essa mulher... E quando eu digo que finalmente aprendi a me colocar em primeiro lugar, significa apenas que percebi que eu mereço ser essa pessoa que a Sam quer ter ao lado dela... — O ex-escoteiro batia a mão sobre o peito repetidas vezes, como se isso fosse, de alguma forma, aumentar seu mérito próprio.

— Palmas... Muitas palmas! Pessoal, esse homem merece aplausos! — Brad virou-se para a multidão que estava observando toda a algazarra e os envolveu diretamente no conflito, um verdadeira pláteia para o show que estava ali sendo sendo desenrolado. — Eu confesso que quase me comovi, Benson. Mas além de engenheiro, você é um excelente ator. Tem certeza de que nunca pensou em seguir uma carreira cênica? Eu não vou facilitar pra você, apenas porque o seu remorso e a sua vaidade estão implorando por isso.

— Agora você quer falar de vaidade? Tem mesmo certeza de que eu sou o egoísta? Foi você quem recebeu o não como resposta, e não eu! Você não respeitou a decisão dela, enquanto eu apenas me recuso a desistir tão facilmente.

— Eu respeito a Sam, jamais ouse dizer o contrário! Sou um homem de honra, Benson. Respeito a decisão dela, e respeito o espaço dela. Mas assim como você, não estou disposto a desistir tão facilmente.

— Não! Você é apenas um filhinho de papai frustrado que não conseguiu cumprir nenhuma das expectativas que seu papaizinho esperava, por isso vive tentando frustrar as expectativas de outras pessoas! — Esbrevejando com toda a força de seus pulmões, os gritos de Freddie se faziam estéreo diante de um silêncio absoluto que pairou sobre o local. De início, o herdeiro de Michael não respondeu. Apenas levou seu olhar para baixo, e cruzou os braços acima de seu peito, que subia e descia muito mais rápido que o normal como decorrência de uma respitação descompassada. Mas então, levantando a cabeça e com ela todo o seu orgulho ferido, ele começa a falar pausadamente, em um tom que apenas Fredward poderia ouvir:

— Parece que todo aquele amor compartilhado pelo porto e o respeito mútuo desapareceram, não é mesmo? Eu te admirava, Freddie Benson. Quando soube que você e a Sam já haviam namorado, fiquei um tempo me perguntando porque vocês haviam terminado. Pareciam ser duas pessoas incríveis que mereciam ficar juntas. E como eu disse, eu sou um homem honrado. Se vocês estivesse juntos hoje, eu jamais tentaria iria atrapalhar isso. Mas vocês estão separados, então eu também tenho o direito de tentar. Principalmente agora. A diferença é que agora eu sei porque vocês terminaram. Para alguém tão inteligente, você realmente não sabe como dosar as palavras. Você acha que para dar o devido valor a si próprio, precisa diminuir as outras pessoas...

— Eu não me importo com o que você pensa sobre mim, você não sabe quem eu sou.

— Nem faço questão de saber. E sinceramente, até me assusta a ideia de saber mais... Agora se me der licença, tenho uma mulher especial para conquistar.

— Não é você que decide com quem a Sam vai ficar! — O unigênito de Leonard em segurar o braço de seu rival, ao notar que o comandante realmente estava indo embora.

— Muito menos você! — O capião revida, segurando de volta o braço de Freddie até a altura de seu cotovelo.

— Essa decisão não pertence a nenhum dos dois! — E então, para o assombro de todos, uma voz feminina imrrompe em fúria, revelando uma expectadora na pláteia que com certeza não deveria estar lá.

— Sam?! — Boquiabertos, o rapazes exclamam em uníssono.

— A quanto tempo está aí?

— Tempo o suficiente pra ver os dois palhaços brincando de soco-soco, bate-bate! Lamento dizer, mas isso não vai ajudá-los a ficar mais bonitos. — Samantha esforçava-se o máximo para segurar o riso, ainda encarando as empressões assustadas dos dois bocós.

— Sam, na-não é nada do que você está pensando! — O nerd tenta se aproximar, mas acaba tropeçando em suas próprias palavras, e em suas próprias pernas.

— Vocês estão bêbados?! — Varrendo os olhos pelo balcão, a sommelier se aproxima da bancada e começa a averiguar as bebidas, encontrando justamente aquilo que ela mais temia. — Vodca? Jura, Benson? Você sabe muito bem como fica quando bebe além da conta!

— Sam, e-eu posso explicar!

— E você fica caladinho aí! Eu já esperava isso do bocó aqui. Mas você, Brad? Não é possível que eu seja rodeada de patetas o tempo inteiro!

— Eu não sou como esse imbecíl!

— Tem certeza? Você se sentiria honrado!

— Calem a boca antes que eu mesma faça uma cirurgia plástica sem anestesia em vocês! — Os rapazes abaixam a cabeça e ficam apenas escutando, como duas crianças sendo repreendidas por sua mãe furiosa. — Quem os bocós acham que são pra decidirem com quem eu devo ficar? Vocês já pararam pra pensar que eu tenho vontade e opinião própria?

— É claro que sim! Eu respeito você, Sam!

— Não, eu respeito mais! Eu a conheço a mais tempo!

— Isso não pode ser sério! Será que vocês podem parar de chamar atenção? O bar inteiro está nos encarando!

— Deixem que encarem, Sam! Assim todos podem presenciar que eu sou o homem certo pra você!

— Ela odeia clichês, gênio!

— Com licença, eu não estou vendo você tentando... Aliás, continua assim, é a melhor coisa que você faz! Calado você é um poeta, Benson.

— Já ouviu falar de um belo poema chamado "meu muro na sua cara"? Não não, tentarei melhor. "A dança do nocaute!" Que eu não sei se você sabe, provavelmente não, mas foi a Sam que me ensinou.

— Como é? Te ensinei testando na sua cara, só se for! — Ela faz questão de corrigi-lo rapidamente.

— Ha! Booom! — Brad comemora de maneira infame, para o completo horror do engenheiro.

— Ficou louco, cara? Esse bordão é meu!

— Eu só posso estar presa em um pesadelo duplo, não é possível... — Desistindo de tentar dialogar, Sam simplesmente se esforça para apaziguar a situação em uma tentativa de diminuir o vexame que havia sido ali instalado. — Freddie... — Ela o chama de forma leniente.

— Oh! E quando foi que condecoraram o senhor como regente de todos os bordões da terra? Já não basta querer tudo para si, e agora isso?

— Brad... — Ela tenta novamente, mas os herdeiros não parecem dispostos a lhe dar ouvidos.

— Pelo menos eu seria qualificado pra isso, diferente do senhor pirata contemporâneo!

— Deus me ajude, até os nomes soam parecidos... Será que é assim que vou pagar todos os meus pecados? Acho que eu não deveria ter zoado metade do povo da Ridgeway... — Samantha começa a resmungar consigo mesma, caindo em uma inevitável epifania. No entanto, ela também logo percebe que não havia tempo para isso.

— Oh chefia, trás mais uma garrafa aqui, essa já acabou faz tempo! — Para o desespero da loira de pavio curto, Freddie chama um barman afim de iniciar mais uma rodada.

— Nâo, não, não, já chega! Nenhum dos dois vai beber mais essa noite!

— Qual é, Sam! Você, a Carly e o Griffin vivem reclamando que eu nunca saio. E quando isso acontece, você quer impedir!

— Benson, eu não vou discutir com você agora. Principalmente porque você fez a pior combinação de bebidas possível, e a sua ressaca vai ser fantástica!

— Mas Saaam... — Novamente, Fredward curva todo o seu corpo. Mas dessa vez, ele o faz sobre sobre o corpo de Sam, encostando seu queixo no ombro dela como se estivesse brevemente adormecido.

— Ora ora, mas quem diria... Aonde foi parar o Benson que era um leão a alguns minutos atrás? Parece que vira um gatinho perto dela...

— Cala a boca, Connor. É melhor calar essa boca se não quiser que eu devolva aquele soco.

— Aliás, Fredward. O que você está fazendo aqui ainda? Sam e eu estamos aqui para ter um encontro. E embora seja óbvio que você esteja aqui pra atrapalhar, eu sugiro que dê o fora daqui.

— Chega, fiquem quietos vocês dois! Não esqueçam que eu presenciei todo o circo que os manés armaram aqui.

— Fala pra ele, Sam. Fala pra esse egoísta que ele está atrapalhando o nosso encontro!

— E depois eu que sou o "gatinho"...

— Espera aí, encontro? — A consultora mostra-se confusa, já temendo por antecipação estar no meio de outro mal entendido.

— Sim. Você aceitou encontrar comigo. Logo, estamos em um encontro. — Ele concluiu, resolvendo a problemática de forma quase infantil.

— Brad, nós, nós... Nós já conversamos sobre isso... Até estamos em um encontro, mas não do jeito que você pensa.

— Ha! Booom! É assim que se faz! — Eis aqui um homem verdadeiramente satisfeito por recuperar o seu bordão.

— E você está comemorando o que, nerd? Por que eu posso até ter conversado com ele uma vez. Mas nós já conversamos sobre isso muitas e muitas vezes. E ainda assim, você parece não entender...

— Mas...

— Não, sem mas! Vocês acham o que? Acham que eu sou alguma espécie de troféu que vocês podem disputar?

— Não, de forma alguma! É só que...

— Calado aí, capitão. Daqui a pouco eu me resolvo com você! — E então, ele entendeu. Balançando a cabeça em compreensão, Bradley não pronunciou mais uma única palavra... — O que você veio fazer aqui, Benson? Por que você está aqui? Aliás, como você sabia que eu estaria aqui?

— Foi só uma coincidência, Sam. Eu já estava aqui quando o indivíduo aí resolveu aparecer.

— E também foi uma coincidência eu encontrar vocês dois bêbados e se socando, como se estivessem em um filme faroeste dos anos quarenta?

— Em minha defesa, foi ele que começou!

— Isso não importa, Freddie! Nós conversamos e concordamos que iríamos deixar o tempo resolver as coisas. E isso inclui não brigar com qualquer um que queira se aproximar de mim! O nerd que eu conheci a anos atrás jamais faria uma coisa dessas...

— E a Sam que eu conheci, digo, que eu conheço, jamais iria ter alguma coisa com um cara como eu esse. Eu sei que você não retribui essa ilusão sem sentido que o outro fica alimentando!

— Mas isso não é você quem decide! Aliás, quem disse que eu preciso escolher entre os dois? Se eu quiser eu nem preciso escolher!

— Não, não precisa. Mas não faz sentido você querer ficar com alguém que não ama!

— Novamente, Benson, nós já conversamos sobre isso...

— Vai negar? Vai dizer que é mentira?

— Não, Freddie. Pelo amor de Deus! Você quer que eu diga na frente do Brad? É isso o que você quer, ou melhor, é isso o que você precisa para provar ao mundo que você tem razão? Pois bem, eu não nego. Ele sabe que... Que você é o único cara que eu já amei... — Enfim, o nomeado pôde sentir seu ansiado gosto de vitória. — Mas sabe de outra coisa que eu também não nego, mas você sim? O fato de que você mudou!

— Ah não, Sam. Isso de novo não! Eu já te disse que eu não mudei, eu ainda sou o mesmo cara que sempre carrega uma câmera na mão!

— Oh, então vai dizer que você sempre foi ridiculamente ciumento?

— Não é ciúmes, é só que...

— É só que... ?

— É só que, nós não deveríamos estar com outras pessoas.

— E isso por acaso te impediu de flertar com a Lexie?

— Sabemos que o nome dela nem era Lexie.

— O nome não importa, superman! O fato é que você não era assim!

— Eu não era como, Sam? Eu não era alguém que dava valor a mim mesmo? Que sempre me colocava em segundo lugar? Porque se for isso, você com certeza tem toda a razão!

— Jura? Vai se fazer de vítima, agora?

— Não, Puckett. Eu não estou me vitimizando. Eu sei que eu errei, várias e várias vezes, inclusive agora. Mas eu não vou levar toda a culpa sozinho de novo. Não dessa vez!

— Eu não estou culpando você.

— Defendendo é que não está!

— Tudo bem, Benson. Já chega, você já deu muito show por hoje.

— Não, agora é a minha vez de falar. Eu não vou ficar calado dessa vez!

— E desde quando você fica calado? Os problemas começam justamente com você decide abrir a boca! Além do mais, é a bebida quem está falando por você. Já passamos por isso antes, então não vou me dar nem o trabalho de levar em consideração...

— Ótimo, melhor ainda...

— Ótimo?

— Sim, ótimo! Sempre disseram que o álcool é praticamente um soro da verdade, não é? Pois bem, eu também tenho umas verdades a dizer. — Mesmo sem estar muito seguro da precisão de seus movimentos, Freddie faz questão de ficar frente a frente com sua ex-namorada, encarando-a olho no olho para garantir que ela ouviria o que ele tem a dizer. — Você sempre faz questão de dizer que eu mudei, que eu não sou mais a mesma pessoa. E quer saber, meu amor? É verdade. Eu fui obrigado a mudar, e você é a culpada... Você também sempre diz que eu não sou a pessoa que você conheceu, que preferia o nerd que eu era antes, quando éramos um pouco mais novos. Mas você só diz isso porque quer de volta aquele imbecil que sempre sofria calado mas nunca fazia nada a respeito, por mais que você constantemente me magoasse física e mentalmente! Foram anos, Sam. Você passou anos me batendo, quebrando minha coisas, mandando elas pra outros países, e até sabotando diversas oportunidades que você sabia que eram importantes pro meu futuro. Mas ainda assim, eu perdoei você em todas as vezes.

— Não parece que você tenha perdoado... — Samantha engole em seco, visivelmente compungida.

— Eu não tenho amnésia, Sam. Mas eu te perdoava simplesmente porque eu te amava, até mesmo antes de me dar conta disso. Mesmo na época em que eu achava que te odiava, de quando eu estava certo de que você me odiava também. Eu sempre odiei as coisas que você fazia comigo. Mas ainda assim, eu não conseguia odiar você. E olhando bem para o passado, eu só percebo cada vez mais que você sempre tirou proveito disso...

— Freddie, i-isso não é verdade...

— Não? Por que não é o que me parece, Sam! Foram anos para que eu finalmente acordasse e percebesse todas as coisas que você fazia comigo. Principalmente na forma como você sempre me humilhava na primeira oportunidade que tinha, sem esquecer do fato de que eu sequer podia opinar sobre qualquer coisa enquanto estávamos namorando! E então nós terminávamos, e você me culpava por tudo de errado que havia acontecido no nosso relacionamento. E o que eu fazia? Isso mesmo. Eu aceitava em todas as vezes, mesmo quando minha mãe era contra a nossa relação.

— Você sabe que a senhora Benson sempre foi um exagero ambulante!

— Miami inteira sabe disso! Mas não muda o fato de que mesmo de um jeito muito torto, ela tinha razão... Eu cansei, Sam. Cansei de ser aquele que sempre perdoa, de ser aquele que sempre se anula por você. Sinto muito por não ter avisado antes, eu devo ter esquecido de te notificar sobre o enterro. Mas aquele Freddie Benson que você conhecia, já veio a óbito há muito tempo.

— Tudo bem, Benson... Mas se é realmente isso você pensa, por que ainda insiste em lutar por mim? — Sam indaga em um único fôlego, com sua voz soando um pouco mais fina e alterada do que a mesma gostaria. Por isso, ela insiste em um olhar transversal que fitava o nada, afim de disfarçar seu estado dolente.

— Essa é uma boa pergunta, Sam. Na verdade, é uma dúvida que já venho cultivando faz algum tempo. Então muito obrigado por me ajudar a encontrar a resposta, talvez eu tenha finalmente quebrado minhas correntes.— Aproximando-se ainda mais da loira, Freddie Benson toma uma atitude inesperada ao segurar o rosto de Sam com as duas mãos, e depositar um beijo de despedida no topo de sua cabeça, deslizando brevemente sua mão pelo braço dela antes de sair. — Vejo você amanhã, Puckett. Parece que essa é uma luta que nenhum de nós jamais será capaz de ganhar...— E ao dizer isso, ele sai andando em passos largos, ainda que aos tropeços, em direção a porta, sem em nenhum momento olhar para trás... Já Samantha permanece ali, completamente estupefata, sem saber ao certo se deveria dizer alguma coisa, ou se permitia que a música que estava tocando ao fundo do bar continuasse falando por ela...

Shot through the heart
(Baleado no coração)
And you're to blame!
(E a culpa é sua!)
You give love a bad name (bad name)
(Você dá ao amor um má reputação)
I play my part,
(Eu faço a minha parte)
And you play your game,
(E você joga o seu jogo)
You give love a bad name (bad name)
(Você dá ao amor uma má reputação (má reputação)
You give love, a bad name...
(Você dá ao amor, uma má reputação...)

Notas finais
E aí, meu povo e minha pova? Gostaram? Odiaram? Amaram? Querem o próximo capítulo para ontem?! Bem, pra ontem eu não prometo KSKSKS Mas eu espero REALMENTE conseguir atualizar no próximo mês. Qualquer coisa, me chamem no privado. Entrarei na conta pelo menos uma vez por semana, então podem estar certos(as) de que irei responder. E o mesmo vale para os comentários, viu? Podem comentar a vontade, eu vou AMAR ler todos eles, e responde-los. (Inclusive, irei responder os do capítulo anterior, não estou esquecida U.U) Até o próximo capítulo, pessoal. E que a força esteja com vocês! :D
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.