Águas Claras
5 Você não consegue explicar, mas sente - Renato Russo
Notas iniciais
Mais uma semana se passou, mas desta vez tinha sido uma semana diferente, eu havia ficado doente, e consequentemente, passei aquela semana inteira sem ir para a escola. A unica alegria do meu dia era que assim que Nathan chegava em casa, o mesmo entrava no chat e perguntava como estava sendo o meu dia e se eu já estava melhor, ele era um amor de pessoa, sempre se importava comigo, apesar de praticamente sermos completos "estranhos" um para o outro.
Mas mesmo assim, ao decorrer da semana eu percebia que Nathan ficava cada vez mais distante, enquanto que Grace, da mesma forma, também ficava. Eu percebia que ambos ficavam cada vez mais próximos, descobriam coisas em comum, e isso me deixava triste, eu me sentia rejeitada por eles dois algumas vezes, e outras vezes era como se nem estivesse lá. As vezes me culpo por ter aberto mão dele para não abalar a minha amizade e a de Grace, mas também penso que foi uma escolha que eu me decidir fazer, mesmo sabendo de todos os riscos e consequências, e ainda mais, o pior de tudo, eu não imaginava que a dor de fingir não me importar era tão imensa assim.
Eram exatamente 10:20 da manhã de uma quinta-feira, era também o primeiro dia em que eu comparecia a rotina normal de aula depois de uma semana e três dias sem dar as caras. Apesar de que era para ser algo bom eu finalmente rever meus amigos, eu estava totalmente impaciente.
A manhã passou-se toda assim, desde às 07:20 daquele dia, Nathan não parava de me encarar nem por um misero segundo sequer, até no intervalo, enquanto o mesmo jogava ping-pong, não parava de fitar-me da cabeça aos pés, aquilo já estava me deixando impaciente.
A professora começava a rabiscar qualquer coisa na losa, que eu mesma não estava prestando atenção, e aposto que Nathan também não.
— Qual é o seu problema? — As palavras escorregaram de minha garganta até serem emitidas por minhas cordas vocais.
Quando me dei conta do que acidentalmente havia falado já era um pouco tarde. Grace, Nathan e Jason já olhavam para mim esperando que eu continuasse com o que iria falar.
Não vi outra escolha, afinal, eu não era daquele tipo que fala algo e fica por isso mesmo:
— Por que não para de encarar? — Continuei enquanto os três continuavam me olhando atentos. — Se tem algum problema comigo é só me dizer ok?
Nathan, mesmo ao perceber que eu estava falando com ele, permaneceu calado e virou-se para copiar o que a professora estava escrevendo.
Eu sinceramente, por um lado, preferi mesmo que ele não tivesse respondido nada, talvez por medo ou insegurança, mas por outro lado, eu queria mesmo saber e todos que nos observavam sabiam que por me conhecer o bastante, isso não ficaria por aquilo mesmo, em hipótese alguma.
— Nathan, se você não percebeu, eu estou falando com você! — Cruzei os braços.
De repente, o mesmo se virou em um único movimento bufou e retrucou:
— E se você não percebeu, senhorita Annie, eu gosto de você! — Seu olhar me fuzilava, o que me fez ter um calafrio desde a espinha.
Desta vez, eu mesma opinei deixar o orgulho de lado e apenas ficar calada, fingindo copiar o que quer que seja.
— Você não vai falar nada? — Ele falou depois de alguns segundos em silêncio.
— E tem alguma coisa para falar? — Retruquei, logo fazendo a expressão de garota nojentinha, que eu odiava, mas sabia que funcionaria para que aquilo acabasse.
— Cara... — Ele fez o que eu menos esperava. Continuou a falar. — Eu dou a maior bola pra você, reparo em você o tempo todo, sou atencioso e você nunca faz nada mesmo quando talvez você queira fazer. Que droga é essa?!
Então a sala toda se silenciou, até mesmo a professora de inglês.
— Vai continuar sem falar nada? — Mesmo com todos olhando ele continuava a falar.
— Sim. — Respondi na cara dura.
Ele apenas balançou a cabeça em sinal de negação, bufou e fez uma expressão de repugnância, como quem diz "Que garota idiota!".
Sim eu era uma completa idiota, mas pelo ao menos isso foi o que eu queria, que ele me achasse uma idiota, talvez depois dessa ele não venha mais atrás de mim, complicando ainda mais as coisas.
Mais uma semana se passou e todas as manhãs sinceramente estavam ficando insuportáveis, eu já não tinha mais vontade de estudar ou conversar, meu dia se resumia em ver Grace babando e dando em cima do Nathan e ouvir ela passar 2 horas das nossas tardes livres apenas comentando sobre como cada milimetro do rosto dele era cautelosamente perfeito.
Mas por fim no meio da semana Violet resolveu dar as caras, então tudo foi melhorando, a não ser pelo fato de Nathan querer fazer amizade com ela, estava tudo ok.
Isso já estava me irritando ele só conhecia ela a um dia e achava que já tinha intimidade o suficiente pra falar da vida pessoal dele pra ela e até comentar sobre a de outras pessoas, além me irritar, ela ainda ficava indignada com a audácia com que ele abordava certos temas, isso é que nós chamamos de invadir totalmente a linha de privacidade social de uma pessoa.
Então depois desses dois dias Violet viajou com os pais para fora do estado e então aquela rotina chata e exaustante voltava a parear sobre todos nós, desta vez Grace deixava bem claro que seus sentimentos por Nathan estavam cada vez mais fortes, e disso eu não tinha duvida.
Era uma sexta-feira, estávamos todos nos preparando para mais uma sexta livre de provas parciais, estávamos todos nos redirecionando ao auditório, para uma palestra sobre segurança na internet. Sentei ao lado de Grace na antepenúltima fileira do fundo, nos sentamos e ficamos observando os alunos se sentarem, quando dei por mim, Nathan estava bem atrás de Grace, na penúltima fila me fitando, como sempre.
A palestra foi longa, eu não podia deixar de perceber que por alguns momentos Grace percebia que Nathan ficava me olhando e por algumas vezes deixava bem claro seu ar de frustração.
O dia foi longo, todas as pessoas de nossa classe estavam aguardando insanamente pela aula de educação física e o nosso horário vago.
Em plena aula de português, a aula que todo mundo usava como "segundo intervalo" — mas eu pessoalmente gostava -, Grace continuava falando em como estava sofrendo por Nathan nunca nota-la e que isso sempre acontecia com a mesma, sempre o garoto não queria ser nada mais do que seu amigo, ou um irmão.
Confesso que fiquei meio surpresa por Nathan não ter guardado magoas do que havia acontecido semana passada, ele estaria mesmo disposto a seguir em frente, e eu estava mais ainda disposta a seguir com a minha decisão.
— O que vocês tanto cochicham ai? — Uma pergunta repentina soou da boca de Nathan.
— Coisas... — Grace respondeu.
— Que tipo de coisas? — Ele arqueou uma sobrancelha.
— Coisas de meninas. — Disse esperando ter dado a jogada de mestre.
— Podem compartilhar comigo, apesar de ser menino, posso dar conselhos ou conversar sobre garotos tão bem quanto uma menina, afinal, eu "entendo" de garotos. — Cheque mate.
Nathan tirou as palavras da minha boca, vez ou outra parecia que ele estava jogando da mesma forma que eu... Mas em algumas ocasiões ele parecia me derrubar completamente sem mesmo nem perceber.
Grace logo se empolgou e fez mistério, daí a pouco começou a cantar uma musica que falava sobre segredos, e logo pisou no meu pé, dali a pouco, ambas estávamos cantando tal musica feito loucas em plena aula.
"Segredos,
Todo mundo tem,
Alguns até contamos,
Outros pra ninguém,
Mentimos,
Só quando convém.
E por mais que eu te engane, engana-me também."
A aula passou e nossa turma já estava atravessando a rua em direção a quadra, que era em outro prédio, em frente a escola.
Nathan não parou de nos perguntar por um segundo sobre o que estávamos falando, comecei a achar que ele estava usando isso para puxar assunto, mas até que enfim, Grace disse que iria contar tudo no final da aula de educação física.
O que não me deixou tão preocupada de cara, mas assim que me toquei que ela iria contar tudo para ele fiquei um pouco aflita. Apesar de todos os meus sentimentos serem bem claros naquele momento eu fazia de tudo para me conter, eu não podia atrapalhar em nada, mas devia.
Conforme a aula ia passando mais eu tentava convencer Grace de que aquilo seria tolice, que seria pior para ela, e que ela não poderia fazer aquilo.
Eu não queria fazer isso, mas algo dentro de mim estava totalmente relutante, eu não queria, mas impulsos o faziam. Eu apenas pensava na hipótese de que Nathan esquecesse de mim, não queria nem imaginar que aquilo pudesse acontecer. E como seria? Será que ele ainda falaria comigo da mesma forma? Será que ainda continuaríamos amigos? Ou será que eu apenas não queria perder de forma alguma a sua atenção? Eu estava completamente confusa, mas minhas escolhas sendo ou não certas, eu deveria de aceitar.
A aula terminou e eu e Grace estávamos sentadas na arquibancada que dava para a quadra de futsal, os garotos de nossa turma saiam ofegantes da quadra, todos com a pele brilhando de suor.
Então Nathan vinha correndo em nossa direção, suas mechas de cabelo molhadas e grudadas uma na outra quicavam em sua cabeça conforme o mesmo ia dando passos mais firmes, a luz se projetava automaticamente em seu rosto refletindo em seus olhos e os deixando ainda mais chamativos.
A blusa fina que usava, estava banhada de suor e totalmente pregada em seu corpo detalhando todo seu abdômen, minhas pernas começavam a ficar bambas e meu estomago embrulhar, conforme ele ia se aproximando minha boca queimava e eu desejava parar de existir.
— E então? — Sua fala ainda estava um pouco afetada, sua respiração ofegante e seu peito se estufava conforme ele ia falando.
Nathan nos cumprimentou com um beijo na bochecha, apesar de ter sido molhado pelo suor em seu rosto, confesso que não pude evitar em ceder um pouco aquela fachada de durona para aceitar o beijo. Assim que seus lábios tocaram a superfície de meu rosto enrubesci, e minha bochecha começou a queimar e formigar, era algo inexplicável, tão torturante e ao mesmo tempo tão bom.
— Sobre o que estavam cochichando mais cedo? — Ele parecia empolgado.
— Era sobre... — Grace parecia ter travado. — Sobre...
Dei um breve chute em sua canela, e a mesma respirou fundo e disse:
— Sobre o garoto que eu gosto. — Ela parecia ter uma expressão aliviada e um tanto preocupada.
Nesse exato momento meus sentidos gelaram. E se ela falasse realmente que era ele? E se ele se interessasse por ela depois que ela falasse isso...
— E quem é o felizardo da vez? — Ele estava ainda mais empolgado.
— Ah, isso eu acho que vou ter que te contar depois... — Ela falou enquanto me puxava para que saíssemos dali.
Logo após a aula terminar, fui direto pra casa. A tarde passou feito um furacão e eu simplesmente nunca imaginei que pudesse ter acontecido o que aconteceu naquela mesma noite.
Como de costume Nathan entrou no bate-papo de noite, mas dessa vez, ele não veio falar comigo... e eu estranhei.
Nathan está Online
Annie(Online): Oi
Ele demorou algum tempo para responder, confesso que fiquei meio tensa, e decidi falar algo mais, quem sabe ele veria de novo e falaria comigo dessa vez.
Annie(Online): Eaí?
Nathan(Online): Oii!!!
Annie(Online): Nossa que felicidade
Nathan(Online): É estou mesmo feliz, e você nem acredita o por que...
Annie(Online): Vou acreditar quando você me falar ;)
Confesso que tive que ser sarcástica e ao mesmo tempo bolar uma pitada de arrogância na frase, caso ao contrário, ele pensaria que eu estaria brincando com ele de, alguma forma, quando estamos fora do mundo virtual.
Nathan(Online): O garoto que a Grace falou que gostava, na verdade era eu!
Annie(Online): Ah... Legal :)
Nathan(Online): Você já sabia?! Por que não me contou??
Annie(Online): Relaxa Nathan, ela deve ser só mais uma das meninas que está gostando de você.
Nathan(Online): Claro que não! Estamos namorando!
O que?? Como assim eles estavam namorando? Ela mal tinha falado que gostava dele, e um dia antes ele havia dito que gostava de mim... Era muita informação para um dia só.
Depois de alguns minutos processando a informação e remoendo todas minhas mágoas interiores, decidir finalmente voltar a das as caras pelo chat. Nathan estava tão empolgado sobre a ideia que acabou me contando tudo.
Depois de saber que ele começou a namorar com ela no mesmo dia em que disse que estava começando a gostar da mesma eu me desiludi totalmente. Talvez Nathan não era quem eu realmente pensava que fosse, talvez ele apenas tivesse usado todas aquelas artimanhas para se ocupar por enquanto que nada mais favorável aparecia. Foi então que eu vi o quão infantil ele era.
Meia hora depois, quando eu já estava me derramando no Skype com a Violet, Grace deu a notícia de que o "namoro" havia terminado, e que ela confundiu apenas acha-lo bonito com gostar dele. Eu realmente senti ódio, mais ao mesmo tempo raiva, raiva de mim mesma por ter sido tão burra a ponto de ter trocá-lo por uma pouca amizade como aquela.
Por outro lado eu até fiquei feliz, por que conforme ela ia me explicando toda a situação pela qual eles haviam terminado de verdade eu simplesmente ia me desencantando ainda mais. Vi que na verdade a culpa não foi só dele, tinha uma certa porcentagem de culpa minha também, por não ter procurado conhece-lo melhor e criado em minha cabeça um personagem fictício no qual a aparência dele e meus pensamentos entravam em nexo.
Mas também não nego que esqueci aquilo tão rápido, chorei bastante, não só naquela noite mais em outras muitas, Nathan tinha me machucado, mas além de tudo eu me iludi, mantive esperanças em aparências superficiais que na verdade, o príncipe era sapo e a plebeia continuou sendo a mesma.
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