Água & Sal
3 III
Ele foi paciente, soube esperar e agradar. Seis meses de risos ao vento, toques gentis e sem pretensões. Ele a enxergava a conhecia, sabia quando a menor das preocupações cruzava seu rosto. De certa forma ela também o conhecia, mas não o suficiente. Ela havia entregado o seu eu um pouco cedo demais, ele jamais deixara uma mínima parte importante de si se apresentar. Não até uma certa e fatídica manhã na praia.
As tradições eram as mesmas entre os Filhos do Sol. O líder passava a responsabilidade para seu primeiro filho ou filha que guiaria o povo e os sustentaria desde então. Embora a autoridade fosse herdada, não era absoluta. Qualquer guerreiro era livre, para no dia da cerimônia, desafiar aquele que estaria recebendo a liderança. Era um duelo sem magia, onde a habilidade e força importavam. Nenhum daqueles guerreiros ou guerreiras havia conseguido vencer Nerissa em treino, sinal de que não conseguiriam em duelo. Entretanto ele vira nela aquele sentimento de insegurança e nervosismo. Uma inquietação que não dissipava. Viu uma brecha, uma ruptura para finalmente alcançar a vitória que desejava.
O fim da jornada pelo deserto terminou quando finalmente encontraram solo vermelho e seco, com fendas que formavam linhas desconexas que pareciam um labirinto. Ali haviam mais plantas rasteiras e árvores de pequeno porte oferecendo sombra as crianças. Por lá se abrigaram ao novamente erguerem tendas, as quais seriam fixas até o fim daquele ciclo. Dali até o mar eram poucos minutos de caminhada e não demorou para que a maioria deles corresse para as águas.
Nerissa observou de longe as crianças mais novas se aproximarem com cuidado, enquanto os mais velhos mergulhavam na água salgada. Ela sentiu leve receio. Demir fora quem os levara até o local, os tinha ensinado sobre a vida no deserto, era quem estava na linha de frente quando inimigos apareceram. Estaria ela pronta para isso também? Pensar que na manhã seguinte quando o sol nascesse ela receberia o legado fazia com que simplesmente se sentisse perdida, ainda que toda sua vida tivesse sido voltada aos ensinamentos para tal ocasião.
“Não se preocupe, ninguém vai desafiar você”, ele garantiu.
“Você o fez.”
E como sempre ele riu com a memória feliz, dessa vez ligeiramente sem jeito.
“E perdi as contas de quantas vezes falhei.”
Talvez fosse a única vez que o rapaz lhe fora sincero, ele realmente havia perdido as contas. Dia após dia procurava uma maneira de lhe vencer, de encontrar um ponto fraco, de ser melhor. Provavelmente alguém seria capaz de a atingir certeiramente em campo de batalha, mas ele tinha consciência de que esse alguém não era ele. Ao menos não onde ela tinha controle. Também fora sincero quanto a dizer que ninguém a desafiaria na próxima manhã.
A brecha não serviria para o campo de batalha.
Mesmo a lembrando de que era uma oponente formidável, ela continuou olhando as pessoas na água com ansiedade. Ele segurou sua mão.
“Vem, acho que tem alguns corais por ali.”
Nerissa o seguiu e se afastaram de onde as pessoas estavam reunidas. Como era de costume ficaram praticamente escondidos dos demais. Dessa vez seguros pela proteção das rochas que se erguiam da areia úmida e seguiam da parte rasa da água até um nível maior de profundidade. Pedras disformes e coloridas, entre algumas conchas, decoravam a areia clara. Chegaram perto da água, molhando os pés, e ela suspirou sentindo os salpicos do mar. Fechou os olhos repousando a cabeça no ombro do rapaz. Estava à vontade, vulnerável. Afinal ela sabia que amar resultava em mostrar seu lado sensível. Infelizmente, ele também.
Quando ele sugeriu que entrassem na água, apenas o aguardou. Embora tivesse hesitado em mergulhar no mar com os outros, usava roupas de banho. O pano marrom cobria a parte superior de seu corpo, embora boa fração de seu corpo estivesse exposta, assim como havia um pedaço do tecido amarrado a sua cintura. Ele tinha motivos para estar usando vestes comuns, por isso se afastou enquanto ela o aguardava.
Falam que seus olhos recolhiam raios de sol e aquele curto momento de espera fora a última vez que acolheram mais alguns. Ele retornou a ela, a abraçando por trás.
“Continua preocupada, não precisa pensar muito no amanhã.”
“É fácil falar.”
“Não confia em mim?”
“Confio.”
Era a primeira vez em seis meses que não inventava algo para que Nerissa acreditasse. Se ela ao menos tivesse refletido sobre aquelas palavras um pouco mais, se tivesse se questionado suas razões para confiar... não teria ficado tão surpresa quando aconteceu. Ele se afastou pouco, deslizando os dedos por suas curvas e ela sentiu um arrepio. Não ousou virar para trás, não quando sentia o rosto subitamente quente. Era o momento perfeito para o primeiro beijo, quem sabe, talvez ela estivesse esperando por isso. E quando aquela faca que ele havia trago escondida finalmente tocou sua pele, ela não compreendeu bem. Um arfar escapou por seus lábios quando a lâmina afiada rasgou sua pele. Aquilo aprofundou-se e o aço parecia queimar entre a dor aguda que se formava.
Ele puxou a faca sem cuidado algum em um movimento rápido. Ela emitiu um som estranho, confusa, mas não houvera tempo para pensar em nada ou entender. Sentiu novamente a queimação em sua carne quando a lâmina a tocou novamente, na parte baixa de suas costas exatamente no mesmo lugar de antes. A surpresa havia tornado seus reflexos lentos. Foram incontáveis as vezes que sua pele encontrou a lâmina prateada, enquanto dava passos pequenos para tentar se afastar, até que caiu sobre as pedras e conchas coloridas machadas pelo líquido rubro.
O silêncio dele deixou sua respiração pesada se tornar audível, unindo-se ao quebrar das ondas. Dizem que nos últimos suspiros ela reuniu alguma força, com o coração quebrado, virando-se para ele. Não trocaram palavras e ele avançou uma última vez. Quando estava perto o suficiente, mesmo ofegante, conseguiu o empurrar para o lado e continuou rastejando até estar submersa em água e sal.
Fale com o autor