São Paulo, 16 de dezembro de 2016

Até cogitar conversar com Arthur novamente, eu não tinha pensado em como me sentia a respeito do nosso beijo. Meu primeiro beijo.

Eu e Julieta, desde muito novas, já imaginávamos como seriam nossos primeiros beijos: num típico cenário digno de comédias românticas, a mocinha e o rapaz enfim concretizariam um dos maiores atos de bravura que o relacionamento silencioso de ambos, caracterizado por olhares e desvios mútuos, além dos cochichos com amigos, requeria: o famigerado selo marcado pelo encontro de seus lábios.

Tudo muito lindo, cor de rosa e repleto de glitter. Mas na vida real não foi bem assim. No cenário, apesar de não ser embaixo de uma pitangueira, tocava uma música de que gosto, além de no dia eu me sentir bonita. Mas o rapaz não era bem um príncipe, e a única coisa que senti, quando devia sentir fogos de artifício e borboletas no estômago, foi dor e desespero. Arthur mordeu meus lábios tanto que eles quase sangraram.

Olhando por alto, de certo modo somente o primeiro beijo de Julieta seguiu nossos moldes infantis: ela e o Gustavo já eram “namoradinhos” (se é que andar de mãos dadas desde os 6 anos de idade pode ser considerado isso) quando tudo aconteceu. Foi no aniversário de 10 anos dela, quando todos estávamos brincando de pique esconde, que os dois se esconderam embaixo da mesa do bolo e ali deram seu primeiro beijo. Segundo ela, foi naquele momento que ele a pediu em namoro, e, mesmo sendo “coisa de criança” os dois continuaram juntos por oito anos, ainda que ele tenha mudado de escola há 3 anos. O que os separou foi uma briga feia que tiveram quando ela foi pra Frankfurt.

Ao ligar no número anotado no papel, senti minhas bochechas corarem. Depois de chamar duas vezes, pude ouvir a voz dele:

— Alô, quem fala?

— Éééé a Liz... – eu disse, nervosa.

— Nossa, que bom que você ligou! Eu estava agora mesmo me perguntando como faria pra conseguir me comunicar contigo.

— Hoje é domingo! Pergunta se ele quer sair. — sussurrou minha irmã, que, desde quando eu digitei os números, não saía do meu lado, querendo escutar tudo.

— Nossa, que coincidência! O que você queria falar comigo? — falei, ignorando o que Bel dizia.

— Eu ia te perguntar se você está livre hoje. Ontem estreou um filme que estou louco pra ver! O que você acha de vermos juntos?

Sem rodeios, topei na hora. Combinamos de nos encontrar no shopping, em frente ao cinema.

Animada, Isabel queria escolher minha roupa para o que ela chamava de meu “primeiro encontro”. Dizia que eu deveria me mostrar feminina e encantadora. Maquiagem discreta e levemente puxando para o rosa, nos olhos. Para mim aquilo tudo era uma bobagem sem tamanho, era só um passeio e outra: só uso vestido em casos extremos. Por fim, fui com meus shorts preferidos, uma blusa lisa e uma sandália de salto. A última, assim como a maquiagem, foram exatamente como Bel queria, para ela parar de encher o meu saco. Mas confesso: eu me sentia uma palhaça daquelas que animam festas infantis.

De todas as poucas vezes que fui ao shopping, nunca tinhas me sentido tão ansiosa. Meu coração parecia saltar pela boca, e meus lábios estavam secos. Tudo confusão e expectativas, até que o vi. Ele tinha o olhar mais assustado que eu já vira. Os olhos dele tinham um brilho diferente, algo como um mistério. Parecia desconfiar de tudo e todos. Como um raio- X, pareciam entrar sob a minha pele, me analisar, fazendo com que eu me sentisse desconfortavelmente nua.

—Vejo que você conheceu meu melhor amigo, André. Ele vai ver o filme com a gente. – falou Arthur, ao chegar do banheiro e dando um beijo em minha bochecha. Maravilha! A iludida aqui pensando num encontro quando na verdade era só mais um passeio entre amigos. Burra, burra, burra! — Você atrasou um pouco, então já comprei seu ingresso.

— E qual é o filme? – perguntei.

— “Rogue One: Uma história Star Wars”- disse ele, todo animado.

Que beleza! Esse “encontro” se parecia cada vez mais com uma intrometida invadindo a programação de domingo de dois amigos. Eu não deveria estar aqui!

Quando começamos a subir a escada da sala de cinema, minha inabilidade com sapatos de salto foi revelada: tropecei num degrau e caí. Ao contrário de André, que não expressou sequer nenhuma reação, Arthur, nos primeiros 5 segundos, riu. Depois me ajudou a levantar e ficou perguntado se eu estava sóbria, fazendo piada da situação.

Nos sentamos com Arthur entre eu e André e, assim que os trailers terminaram, senti uma mão em cima de minha coxa.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.