Meu parente divino

Eu acordei com um barulho de murmúrios. Estava deitada em uma cama de molas. Quando abri os olhos, vi que estava em um quarto que me lembrava um cômodo de uma sede de fazenda. Percebi que não estava só. Havia três pessoas perto da porta (dois adolescentes e uma menina) que me olhavam com expressões cautelosas, e algumas outras dezenas de adolescentes do lado de fora do quarto, espiando com curiosidade por cima dos ombros daqueles três.

Ouvi um barulho como um ploc ao meu lado, e quando olhei, vi, com arco e flecha nas costas, uma criatura enorme parada no leito da minha cama: da cintura pra cima, homem; da cintura pra baixo, um cavalo branco. Um centauro.

Um nome veio à minha cabeça... Quíron vai lhe contar tudo...

— Você é Quíron. O instrutor de heróis. disse para o centauro.

Ouvi um barulho, e um dos adolescentes à porta, de repente, estava apontando seu arco e flecha pra mim.

— Abaixe a arma, Blaise. disse Quíron.

-Mas... Mestre, nenhum meio-sangue chega ao acampamento sabendo quem você é! Todos são descrentes e ignorantes... Ela pode ser um monstro disfarçado!

Todos os demais prenderam a respiração. Mas o mestre apenas respondeu:

— Você já viu algum monstro chegar em meio à um feixe de luz dourada? Nossas fronteiras nunca estiveram tão fortes como agora. Então ele olhou pra mim, e mais suavemente, falou: — Sim, eu sou Quíron. E você, pequena, quem é?

Quase automaticamente respondi:

— Ariadne. Meu nome é Ariadne.

— E você sabe que lugar é esse? indagou o mestre.

— Se não estou muito enganada... O Acampamento Meio-Sangue.

— Sim. disse Quíron. E como você sabe disso, pequena?

Não gostei muito de ser chamada de pequena, ainda mais sendo reincidente. Eu nem ao menos era baixa! Mas, tinha certeza de que se me levantasse e me comparasse à Quíron, pareceria muito baixinha.

— Eu... Bem, para começar, li muito sobre esse lugar nos livros de Percy Jackson... Respondi. — É claro que nunca tinha acreditado nisso, mas, depois de ser perseguida por uma quimera, e me deparar com um centauro... Bem, apenas digamos que eu não tenho sonhos tão criativos assim.

— Uma quimera? Uau! exclamou a menina à porta. Ela tinha cabelos loiros da cor-de-mel e olhos cinzentos.

Então contei-lhes a minha história de como fui parar ali, incluindo o meu encontro com o Homem de Terno.

Quíron apenas franzia a testa enquanto eu lhe contava tudo, e depois simplesmente anunciou para os demais jovens:

— Bem, heróis, temos uma nova campista! Indeterminada, mas se os deuses cumprirem a sua promessa, não será por muito tempo.

-Quíron, será que poderíamos conversar por um minuto? Perguntei ao mestre.

— Ah, sim. Eu realmente te devo algumas respostas. Por favor, campistas, todos para o refeitório.

Quando todos os campistas se dispersaram, o centauro se virou para mim.

— Por onde você quer começar, Ariadne?

— Você disse que eu sou uma nova campista. E isso significa que... Eu disse.

— Você é uma semideusa. Interrompeu-me ele. Filha de uma deusa ou um deus grego.

— E se eu sou indeterminada... comecei a formar uma ideia na minha cabeça.

— Significa que não sabemos quem é o seu parente divino. completou o instrutor.

— Mas, Quíron, como eu posso ser filho de um deus se eu tenho ambos os pais.

— Você tem ambos os pais? Pai e mãe? ele indagou surpreso.

— Sim. Os dois.

— Bem, por enquanto isso é um mistério. Mas, tenho certeza de que será esclarecido em breve. Por hora, devemos esvaziar a cabeça desse tipo de confusões, ou podemos acabar enlouquecendo, e Dionísio não está aqui hoje para ajudar com os problemas de loucura.

— Só mais uma coisa, Quíron. Você disse alguma coisa a respeito de eu ter aparecido em meio a um feixe de luz dourada...

— Ah, sim. Bem, estávamos todos à caminho do refeitório para o jantar, quando vimos uma luz dourada muito forte sair pela janela de um dos quartos da casa grande. Pedi aos campistas que permanecem lá enquanto eu verificava, mas é claro que eles não me obedeceram e vieram junto. Quando chegamos aqui, encontramos você, deitada na cama. Desacordada. Mas, você logo acordou.

— Curioso isso, não é? Comentei.

Ele apenas riu e disse:

— Venha, devem estar apenas nos esperando para começar o jantar.

Então, o centauro me guiou para fora, e eu pude constatar que o quarto que eu estivera realmente fazia parte da casa-grande do acampamento. Segui Quíron para um pavilhão que, instantaneamente, percebi ser o refeitório: colunas gregas, sem teto, inúmeras mesas de piquenique enfileiradas e entupidas de um misto de crianças e adolescentes, além de um delicioso cheiro de comida.

Quando todos já estavam sentados nos seus devidos lugares, Quíron se virou para mim e disse:

— Então, Ariadne... Se você ainda é indeterminada, deveria ficar no Chalé 11. Hermes com certeza te acolherá muito bem. Logo depois do jantar, teremos a Caça à Bandeira, se você não quiser participar, tudo bem. Mas, se quiser interagir é só pedir à algum de seus colegas.

Então, ele me levou à mesa de Hermes e eu me juntei a eles. Foram muito simpáticos comigo, e me instruíram a jogar um pouco do meu jantar na fogueira, em oferecimento aos deuses. Eu joguei e disse em voz baixa: seja quem for você, meu parente divino, mostre-se. Mas, nada aconteceu. Voltei à mesa e comi meu jantar. Que aparecia magicamente no prato, assim como a bebida no cálice. Minha cabeça estava fervilhando.

Meus colegas disseram que seria ótimo se eu participasse do jogo depois do jantar.

Eu aceitei. Recebi uma armadura, um elmo vermelho e uma espada, todos de bronze celestial. Mas algum deles estavam empenados. No caminho para a floresta, Cody Müller, o líder do chalé de Hermes, me contou sobre a estratégia.

— Então, Ariadne... começou Cody. Nosso chalé fez alianças com Atena e Ares. Somos muitos em número e também em habilidades. O chalé de Hermes é ótimo com armadilhas, e temos uma grande quantidade de campistas. Atena tem bons guerreiros e ótimos estrategistas, e eles conhecem muito bem o campo. E as crianças de Ares nasceram para a guerra! Temos ótimas chances de vencer!

— Espere, aí! disse eu. Guerra? Você disse guerra? Pensei que isso era um jogo!

— Não. Isso é uma competição. E não há muitas diferenças entre uma competição e uma guerra. Mas, não se preocupe, linda, não vai te acontecer nada. Você vai estar comigo, protegendo a bandeira.

Chegamos a uns 15 metros da margem de um riacho, e a nossa bandeira (a vermelha) estava fincada numa rocha. Ficamos lá, de guarda, mas não houve movimentação alguma. Durante alguns minutos, ficamos quietos, então Cody quebrou o silêncio.

— Nossa! Como está escura a noite...

— Sério? Eu não acho... Ainda consigo enxergar muita coisa...

Cody olhou pra mim meio surpreso, mas então mudou de assunto.

— Sabe, eu acho que você não é filha de Hermes.

— Acha, é? perguntei.

-Acho. Com certeza não é de Dionísio, nem de Ares, também. Nem Deméter, nem Afrodite. Creio que você não seja filha de Zeus, senão teria olhos azuis. Nem de Poseidon, pois teria que ter olhos verdes. Mas, acho que pode ser de Atena. Você não tem cabelos loiros como as demais, mas tem olhos cinzas. Essa é uma característica dos filhos dessas deusas.

— Atena, é? Pode ser. Sempre fui boa estudante. Gosto de estudar estratégias, e admiro muito arquitetura. Mas, só admiro mesmo, pois nunca fui muito boa com as ciências exatas, e sou um desastre em geometria. Com certeza não dou pra ser arquiteta.

— Mas, alguns filhos de Atena, por mais que sejam apenas poucos deles, seguem outras carreiras. Como por exemplo: contabilidade, computação, direito, engenharia...

— Espere aí, você disse... Direito? Interrompi-o.

-Sim, Atena era a juíza dos deuses. Ela é sinônimo de justiça. Isso seria uma pena para o Tommy... Ele ficou interessado em você, e se você for uma filha de Atena... Bem, ele não pode namorar uma meia-irmã...

— Isso seria interessante! Quero dizer, a respeito da profissão! Acrescentei rapidamente ao ver a sua expressão. — Eu sempre quis estudar Direito! Será que eu sou mesmo uma filha de Atena?

Mas, neste momento, uma movimentação na floresta nos fez desviar do nosso assunto, e voltar a prestar atenção na proteção da bandeira. Eu ouvi um leve farfalhar de folhas, vinda do meio das árvores, e pude distinguir um vulto que se aproximava sorrateiramente de nós.

— Ali! No lado esquerdo! Tem alguém ali detrás daquele arbusto! Eu gritei.

O vulto se ergueu e se virou para dentro da floresta novamente. Provavelmente para avisar aos seus aliados sobre a localização da nossa bandeira e trazer reforços.

— Ah, não! Você não vai! disse Cody com fúria enquanto corria atrás do inimigo.

Assim que ele se distanciou, me deixando sozinha na guarda, empunhei logo a minha espada. Fiquei muito alerta. Mas, estava tudo muito quieto novamente.

De repente, escutei um leve barulho logo atrás de mim, e me virei abruptamente. Quando dei por mim, estava com a ponta da minha espada na garganta de um garoto com elmo azul, ou seja, um inimigo.

— Wow! Você é rápida, novata! espantou-se ele. Mas não será páreo para mim. ele disse rindo.

O garoto bateu a sua espada na minha, desviando-a, num piscar de olhos. Sem pausa, ele avançou para mim com a espada empunhada em direção à minha garganta, na intenção de me imobilizar, mas eu me defendi.

A nossa batalha persistiu, por mais que eu não soubesse como eu estava conseguindo dar aqueles golpes se eu nunca tinha praticado esgrima antes.

Mas, por mais que eu estivesse me saindo bem, o garoto era bom demais. Quando percebeu que eu não ia me deixar vencer, ele começou a pressionar, e eu tive de recuar. E fui recuando cada vez mais, enquanto lutávamos. Até que o meu pé encostou em alguma coisa molhada.

Eu havia encostado na areia molhada à margem do rio. E eu percebi que o garoto sorria, enquanto me pressionava cada vez mais. E nesse momento, um pensamento passou de relance pela minha cabeça.

Desviei-me de mais um golpe, fiz que ia atacá-lo por baixo, mas na verdade ataquei por cima. Bati com a parte chata da minha espada no elmo dele, arrancando-o.

O garoto paralisou de surpresa por uns três segundos. Tempo suficiente para que eu visse o seu rosto. Cabelos negros escorriam pela sua pele alva. E olhos verdes vivo decoravam sua face.

Um Filho de Poseidon.

Com a sorte que eu tenho, era de se esperar que na minha primeira batalha eu enfrentasse logo um exímio esgrimista, não era? Ele estava me massacrando em terra seca, imagine se ele puser seu pé na água! Eu estaria perdida. E ele estava a 30 cm do riacho.

Eu não podia perder. Essa é uma palavra que não existe no meu dicionário. Raiva subiu pelo meu corpo, e quando chegou à cabeça, o mundo explodiu.

Quero dizer, não literalmente. Não foi o mundo que explodiu. Foi o chão. Abriu-se uma fissura entre nós. Que foi se alargando cada vez mais. Aproveitei o estado de choque dele, pulei a fissura, e bati com a parte chata da minha espada no peito dele, e ele caiu no chão. A minha espada encostada em sua garganta.

Ouvi aplausos.

Eu não tinha me dado conta, mas havia uma plateia enorme assistindo à nossa batalha. Nós já havíamos vencido o jogo há muito tempo.

Quando olhei pra trás, a fissura estava se fechando. De repente, houve uma tensão. Todos prenderam a respiração. Havia uma luz emanando de mim. Mais especificamente da minha cabeça. Olhei para o alto, esperando ver algum holograma do símbolo do meu parente divino. Mas não havia nada lá.

Encaixado entre os meus cabelos, estava um objeto que brilhava, o qual eu peguei com delicadeza.

Era uma tiara. Uma linda tiara de princesa. Feita de um material prateado, e encravada com pedras pretas, que de alguma forma, eu sabia que eram ouro e branco e diamante negro, respectivamente.

Então, coloquei a tiara de volta na minha cabeça; senti que era importante que ela estivesse lá. A luz cessou.

Quíron se virou para os campistas e anunciou:

— Viva Ariadne! Filha de Hades. Deus do mundo inferior. Senhor dos mortos. Lorde das riquezas subterrâneas.

Notas finais
Em breve mais...
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.