À flor da pele
13 Toc
Notas iniciais
Diana
Lavo o rosto e as mãos, depois me olho no espelho. Noto algumas gotas de vinho que caíram sobre o tecido do vestido. Alguns pontos estão mais escuros. O jeito é voltar para casa colocar o vestido para lavar e tentar salvá-lo.
Me seco e saio do banheiro. Atravesso a sala e vou para o arco que dá entrada à cozinha. O plano é ir embora o mais breve possível. Acho que essa noite está... Intensa demais. Projetando minha cabeça para dentro, não encontro Theo. Dou dois passos, tendo o campo de visão ampliado. As travessas continuam na mesa, mas os pratos, taças e vinho se foram.
– Theo? — Chamo, esperando que ele apareça por alguma porta secreta, como a de seu quarto, que se mistura a parede. Aquilo é muito esquisito...
– Aqui!
Olho para trás e não o vejo, então caminho para a sala perto da escada, que ele me mostrou mais cedo, e lá está ele. A TV enorme ligada e ele arrumando a mesa de centro com nossos pratos.
– Aquela cozinha pequena estava me matando. Acho que tenho claustrofobia.
Ele vem para junto da porta, onde ainda estou e me puxa pela mão.
– Você nunca come na cozinha, não é? — E não pergunto isso pela cozinha ser, de fato, pequena, mas porque ele não parece fazer esse tipo. O Theo que eu pensei que conhecia parecia adorar colocar a mesa principal para o jantar todas as noites. Mesmo que fosse só ele. Mas esse... Essa figura que estou conhecendo, que não parece conseguir ficar quieto em lugar nenhum... Definitivamente não é de se sentar à mesa sem um bom motivo.
– Desculpe por isso. Te incomoda? Nós podemos voltar para lá, eu posso aguentar por uma noite aquela caixa com paredes móveis que vão diminuindo minuto a minuto.
– Meus deus, você tem um dom para o drama. Já pensou em ser ator?
Ele nega sorrindo.
– Eu sou bom em tudo que faço...
Theo se senta no sofá mais largo e, ainda segurando minha mão, me puxa pra junto dele. Assim que consigo me sentar apropriadamente, tendo de empurrá-lo algumas vezes para ganhar espaço, solto seus dedos de minha mão e afasto-me um pouco mais. Dou um bom espaço, dá até para uma pessoa sentar entre nós. Mas, ele não parece precisar, ou apreciar. Diminui rapidamente, ficando colado ao meu lado.
– Você não disse que era claustrofóbico? Talvez precise de mais espaço? — Sugiro.
Ele dá de ombros.
– Mas assim eu não poderia aproveitar a sobremesa.
Deixo meus lábios se abrirem pela surpresa de suas palavras. O que ele pensa que está fazendo? Depois de ser agradável a noite toda ele resolveu mostrar as garras?
Ele se inclina e estou pronta a me defender se ele tentar algo. Mesmo que meu corpo traidor esteja à espera, de fato, de algo. Mas ele não me toca, se estica e puxa um prato com uma torta, coberta de morangos. Na pressa de me sentar, nem percebi a mesa de centro arrumadinha e com esse doce a mais a enfeitando.
– Não sei você, mas eu sou um péssimo cozinheiro e tirando a massa que foi a única coisa que deu certo, embora tenha dado errado, eu me recuso a comer essas coisas.
– Tão sincero... Mas eu gostei da comida e quero, sim, terminar.
Ele me estuda, duvidoso.
– O arroz está duro. O peixe parece ter sido cozido em sal puro, a salada ficou muito azeda e a massa... a massa estava ótima, admito, mas já acabou. Então, repito, você tem certeza que quer acabar? A opção número dois é esse delicioso, esplêndido e maravilhoso – Ele passa o prato bem perto do meu rosto – Cheesecake de morango. E claro, podemos pedir uma pizza para tampar os buracos do estômago, se for o caso.
De fato, a comida estava dessa forma descrita. Com exceção do arroz, que não tive oportunidade de provar. Mas, já que ele está avisando...
– Colocando dessa forma, eu prefiro a sobremesa! — Pego o prato de sua mão e espeto a torta bonita com um dos garfos. Quando levo a boca, percebo que ele acompanha o garfo com os olhos, mas quando o afasto dos lábios, os olhos dele permanecem ali. Imagina se eu derrubo, ou se não entra tudo. Ou pior, se decido falar de boca cheia! As pessoas não deveriam, nunca, olhar para a boca dos outros enquanto comem! — Também foi você que fez?
Ele nega.
– Eu passei em uma doceria depois do almoço. Por favor, Dia, algum defeito eu tinha que ter. Doces não são o meu ponto forte na cozinha.
– Nem os salgados... — Comento e recebo um olhar indignado, então ele puxa o prato de minha mão.
– Chega para você por hoje, queridinha!
– Ei, eu sou a visita! — Lhe ofereço meu melhor olhar indignado, que eu tenho treinado por anos com Tyler.
– Uma das piores! — Ele dá mais algumas garfadas antes de me passar o prato, mas fica com seu garfo extra.
Não consigo não pensar, por um momento, que o garfo dele tocou a torta, logo depois de ir a sua boca, e isso trouxe germes... Mas, eu consigo relevar isso... É, eu consigo sim.
Encho o garfo e olho para a TV. O volume está baixo, mas, as imagens que passam me deixam ter uma ideia do que estamos vendo.
– Theo, o que é isso que estamos assistindo? — Pergunto para ter certeza.
Theo se inclina, puxa minhas pernas para seu colo, me assustando tanto que a torta quase cai em meu vestido.
Com movimentos rápidos, ele tira minhas sapatilhas, as mandando para longe. Pega o controle e ergue o volume.
Isso é demais. Eu sei que não devo continuar nesse lugar. Não deveria nem ter entrado. Estou sozinha com um cara, na casa dele. É errado, imoral, e qualquer coisa negativa que possa ser relacionada. Puxo minhas pernas, mas ele as puxa de volta.
Estou desconfortável, totalmente assustada com esse gesto e incapaz de decidir se ele é amigo ou ameaça.
– Contatos extraterrestres. — Ele diz olhando para mim, ergue um tipo de saco de gel, que não faço a menor ideia de onde tirou e o direciona para minha canela roxa. Respiro fundo, o prato treme em minha mão e o abaixo, apoiando em meu colo. Olho para a TV e vejo fotos aleatórias de objetos no céu. O narrador fala sobre visitantes de outros mundos no planeta terra.
A bolsa de gel toca minha pele quente causando um encolhimento automático. Theo segura minhas pernas, quando as puxo para longe, e as mantém no lugar. Aos poucos vou relaxando e me acostumando à temperatura baixa da bolsa.
– Calma, não é tão assustador assim. E ETs não existem, Dia! — Ele diz sorrindo.
Meu coração bate rápido, palpitações fortes e juro que posso ouvi-las ao fundo.
Theo olha para a TV, interessado. Eu por outro lado só consigo olhar para meus pés apoiados no jeans dele e a bolsa branca de gel em cima. Isso é algo muito pessoal. Algo que Tyler e eu estamos habituados.
Theo tem uma mão descansada sobre a bolsa e a outra no braço do sofá. Respiro fundo, olho para a TV.
Um homem, de pele dourada e olhos puxados, diz que os fenômenos extraterrestres são reais. O narrador pergunta "Quais são os segredos por trás dos ovnis?".
– Você... — Minha voz falha, novamente, me deixando um pouco irritada. — Você acredita nisso? — Pergunto, agora com voz mais firme. Tento não pensar no fato de que estou com os pés sobre as pernas dele e de que isso é muito para um primeiro encontro.
– Você acredita? — Ele estende a mão e alcança o prato. Se serve de uma boa garfada da torta.
– Eu perguntei primeiro.
O narrador conta que na década de 50 os casos começaram a ser investigados e catalogados na América Latina e cita, então, um caso na Ilha da Trindade, no Brasil.
– Bem... — Theo me passa o prato. — O universo é imenso, não dá pra dizer que não existe nada lá fora.
– Mas você acredita que há algo lá fora, ou que “talvez” haja algo lá fora?
– O que você acredita? — Ele tenta de novo.
– Primeiro você. — Digo enchendo o garfo com um pedaço de torta e levando a boca. Theo me encara comer de novo. Odeio isso.
– Talvez... Não afirmo nada e nem nego. E você? — Ele faz questão de enfatizar o "E você?",
Ele se inclina, tocando sutilmente a minha coxa quando sua mão vai para meu lado para se apoiar, enquanto a outra tenta roubar o prato.
Levanto minha mão, levando a torta junto e ele me olha ameaçadoramente. Embora os lábios tenham um sorriso bobo. Me sinto mais relaxada agora, embora o contato de seu braço em minha pele acenda um certo... Fogo...
– Acho que concordo com você.
Ele tenta mais uma vez alcançar o prato e isso faz com que seu corpo se aproxime. Seu rosto está próximo e percebo que fiz uma péssima brincadeira. Até parece que o estou provocando.
Abaixo o braço e entrego o prato para ele, que o pega, mas ergue uma sobrancelha ao me encarar. Desvio o olhar e volto a prestar atenção na TV.
Theo é... Intenso. Intenso de uma forma muito confusa. Ele conseguiu, nessa única noite, em poucas horas, me levar de um extremo a outro. Me deixou nervosa, calma, envergonha e excitada. Eu nunca me senti dessa forma. Não ao mesmo tempo. O medo e a curiosidade andam de mãos dadas essa noite.
Concentro-me no narrador do programa. Ele descreve a simulação de uma cena. Onde crianças entraram em casa dizendo ter um ovni do lado de fora. A família não acredita, até que uma luz forte toma conta da casa pelas janelas. Eles vão para fora e veem algo pairando no céu. O pai se aproxima e fica embaixo da luz, até que ela some. Ele volta para a casa com dores no peito e muito frio. Quatro dias depois o homem morre e um órgão ligado a NASA aparece e pede o corpo para fazer testes. A família nega e enterra o homem. Algum tempo depois a família descobre que o corpo foi retirado do túmulo e ninguém nunca descobriu o que houve com ele.
– Será que foi mesmo a NASA? — Pergunto mais curiosa e animada do que gostaria.
– Talvez ele tenha virado um zumbi e levantado. Pode ser que esteja por ai comendo pessoas.
Mordo o lábio.
– Você dúvida sobre extraterrestres mas apoia que existam zumbis. — O provoco. — Isso está ficando melhor a cada minuto.
– Não apoio nada, só estou dizendo que não é impossível.
O encaro, estudando seu rosto sério, que logo se quebra com a gargalhada que ele dá.
Theo me estende o prato e nego, então ele deixa na mesa de centro. Me inclino sobre o sofá e relaxo ali, vendo o documentário. Theo alisa minha perna, pouco a cima de onde tenho o hematoma. Sinto o calor de suas mãos subindo lentamente abaixo de meu vestido, para o centro de minhas pernas. E não, ele não faz isso realmente. A mão continua no mesmo lugar, alisando aquele ponto inocente do meu corpo. Mas minhas mente... Ela vai para outros lugares.
Embora eu tenha tido relacionamentos, eu não posso me lembrar da última vez que alguém realmente me tocou e que eu tenha gostado do toque.
Trago lembranças ruins da adolescência, então, é algo que eu não me permiti ter ou sentir por muito tempo depois dessa fase. Talvez eu seja hipócrita. Eu assumo que o problema com meus namoros tenham a ver com o dedo podre de Tyler para homens ou com o fato dos caras não quererem nada sério, mas, talvez o problema seja comigo. Todos os muros que construí a minha volta. Todos os limites que impus a todo cara que tentou se aproximar. Esse pode ser o único obstáculo entre um relacionamento decente e eu.
Não consigo me lembrar de ter me sentindo bem ao lado de alguém que não fosse Tyler. E isso só depois que ele desistiu de investir em algo mais...
Lembro-me que meu amigo até levantou a hipótese de eu ser lésbica. Que o problema com os caras que saí era meramente o fato deles serem homens. Ele até me arrumou um encontro com uma garota e eu tive o meu primeiro, e único, beijo lésbico. Depois daquele encontro eu descobri que o problema não era minha orientação sexual. Eu não gostava de mulheres, a verdade é que foi tudo muito nojento para mim. Nada contra quem gosta, mas não funcionou comigo. Eu ainda achava caras bonitos e até me sentia atraída por eles, mas nunca consegui, de fato, ir ao finalmente.
Tem coisas que nos marcam por muito tempo. É como se fossem colocadas a ferro em você, para que nunca se livre ou supere. Mesmo que coisas boas aconteçam depois.
Eu havia acabado de completar 18 anos quando conheci Tyler, ele era companheiro de quarto de uma garota chamada Lisa, que foi vizinha da minha mãe quando era pequena. Ela me aceitou como companheira no apartamento por causa da minha mãe.
Eu lembro que fiquei toda embasbacada com Tyler. Ele sempre foi o modelo de cara bonito para mim. Só não batia muito bem...
Nós ficamos por quase 3 meses com aquele... Namorico ridículo. Ele tentava ser gentil e cavalheiro, coisas que não fazem parte de sua natureza. Um dia, Lisa dormiu fora e coisas rolaram naquele sofá velho e mofado, que me dava arrepios só de olhar. Mas, apesar de gostar do lugar que as coisas estavam se dirigindo, eu não pude continuar. Eu travei.
Eu gostava do Tyler, o esforço dele em me agradar era algo a se levar em conta, mas eu não estava preparada emocionalmente para algo daquele tipo.
Nós ficamos sem nos falar por algumas semanas. Ele levava garotas para casa de propósito, para me provocar. Especialmente quando sabia que Lisa não estaria em casa. Então, certo dia, sem mais nem menos, Lisa nos disse que estava indo morar com o namorado e que nós dois deveríamos sair do apartamento ou alugá-lo, porque ela já havia dito ao dono que estaria de mudança.
Se tinha uma coisa que eu não podia e não queria fazer naquele tempo, era voltar para casa. Não era longe da universidade, mas eu simplesmente não podia... Era... Terrível me imaginar de volta aquele pesadelo.
Tyler parecia ter opiniões semelhantes a respeito da casa dele. Nós nos obrigamos a entrar em um período de paz e consequentemente, fomos nos reaproximando. Mas dessa vez sem nada romântico envolvido. Nós éramos bons juntos. Ele conseguia me fazer querer ser melhor e acho que de certa forma eu o inspirei um pouco.
Tyler é, provavelmente, o cara que chegou mais perto das minhas roupas íntimas em todos esses anos. Tenho certas barreiras a derrubar antes de conseguir de fato, ir a algum lugar.
Me sentir relaxada com Theodor é algo bem grande para mim. Embora ainda sinta, admito, um pouco de medo, mas não estou tão assustada. Não a ponto de ter um ataque de pânico ou coisa do tipo. E sim, isso já aconteceu em encontros. Algumas vezes.
– Volto já. — Ele diz, levantando meus pés por um momento e os descansando no sofá, onde estava sentado antes. Ele ajeita a bolsa de gelo em minha canela e sai da sala.
Aproveito esse momento para me sentar o mais longe do lugar que ele estava. Deixo minha perna, com o pé roxo, dobrada sobre o sofá, enquanto o outro se encontra no tapete.
Tapete macio e bem propício, realmente, para fazer outras coisas. Será que Theo já trouxe alguém para o tapete...?
– Aqui... — Ouço a voz dele e tiro os olhos do item abaixo do meu pé.
Ele olha o tapete que eu encarava por um momento e então me estuda. Estreita os olhos por um momento e se aproxima. Perto demais.
Ele tem uma colcha na mão e a passa ao meu redor. Realmente, estava começando a ficar com frio e não trouxe casaco, mas o gesto bonito é ofuscado por todos os meus sentimentos conflitantes. Fico tensa pelo gesto. Imagina se ele faz isso para todas as garotas que traz para jantar aqui. Que não devem ser poucas, já que todas as revistas de fofoca sempre tem uma foto dele com alguma mulher diferente. Imagina quantos tipos de germes devem ter aqui. Quem sabe até fluídos humanos. Mas ao mesmo tempo, eu sei que não foi por mal. Ele apenas fez isso por ser alguém gentil. Mas é nojento, de qualquer forma!
– Diana – Ele me chama, sério. Percebo que encaro a coberta, então paro e o olho. — Eu já namorei uma mulher com TOC, eu estou familiarizado com os... Costumes. Não te daria algo de procedência duvidosa. — Então ele me oferece o mais doce dos sorrisos e isso teria me derretido e me feito cair em sua cama, certeza; Se não fosse um pequeno detalhe.
– Eu... — Empurro a coberta para o lugar vazio ao meu lado. — Eu não tenho TOC, Theodor.
Talvez tenha sido a forma como eu não pude chamá-lo de Theo que denunciou a minha raiva. Mas, o clima, antes agradável e divertido, acaba se tornando um campo minado, cheio de tensão. Só a espera do próximo passo para explodir tudo.
– Você não tem que fingir comigo, sério, não ligo para isso. — Ele diz calmamente, mas seus olhos denunciam o desconforto que há nele agora.
– Eu não tenho. — Digo firmemente.
– Oh...
Theo se senta no sofá, agora com um lugar de distância, por causa da coberta. Ele se inclina e pega sua taça da mesa de centro, a vira de uma vez e então pega a garrafa para encher.
– Mais vinho? — Ele me oferece, embora minha taça ainda esteja pela metade.
– Não, obrigada.
Fico imaginado se Tyler disse algo para ele ou se ele chegou a essa conclusão sozinho. Eu não acho que seja tão descontrolada a ponto de aparentar tal coisa...
– Você quer... — Ele começa.
– Tenho que voltar para casa. Está tarde. — O corto.
Ele não nega, fica apenas me estudando por um minuto e então concorda.
Me levanto, alisando meu vestido e dou a volta por trás do sofá, para não passar perto dele. Não é como se eu sentisse raiva. É só que a coisa chegou a um nível de desconforto tão grande que não acho que haja salvação. E provavelmente, não por causa dele. Ele parece bem, apesar de tudo. Sou eu.
Sempre sou eu.
***
Theo estaciona na frente da minha casa. No caminho de volta não falamos muito. Algumas palavras sobre como a vizinhança era calma e só.
– Obrigada pelo jantar, Theodor. — O nome escorre como um veneno pela minha boca. Eu não deveria fazer isso, mas não consigo evitar. Fico a espera de que ele vá me corrigir e talvez a coisa fique mais leve, mas ele não o faz.
– Eu que agradeço. Foi uma noite muito agradável. — Ele diz, me oferecendo um sorriso sincero. Tento sorrir para ele também, mas não consigo. Apenas concordo e saio do carro.
É bobagem me importar com algo tão pequeno. Foi só um engano dele. Uma comparação descabida por alguma coisa que eu possa ter feito que o lembre dessa tal ex. Mas isso me cutuca, me incomoda, me machuca por dentro. Eu não estou doente. Eu sei disso, e as pessoas à minha volta deveriam saber disso também.
Ouvir meu pai dizer algo semelhante, ou Ty, já é algo incômodo o bastante, mas ouvir alguém que mal me conhece fazer um julgamento desses...
Não há nada de errado comigo.
Abro o cadeado do portão e entro, o fechando. Dessa vez Theodor não espera que eu entre em casa, ele sai com o carro assim que fecho o cadeado.
Vou para a porta e destranco.
Assim que entro, percebo a luz da sala acessa e a TV ligada. Eu esqueci?
Tranco a porta. Se eu não a esqueci só pode ser Tyler.
Tiro a sapatilha e a deixo do lado da porta. O cheiro de água sanitária ainda está forte, mas é melhor isso que sujeira e odores fortes vindos dela.
Vou para a sala, torcendo para que seja Tyler e não apenas um esquecimento meu. Se bem que não liguei a TV hoje...
Preciso do meu amigo idiota nesse momento.
Entro no cômodo e deixo um gritinho escapar. Meu amigo está em casa, mas não sozinho.
No meu adorável e lindo sofá de couro, um Tyler sem camisa se agarra com uma Jane apenas de calcinha.
– Tyler Becker, seu maldito! — Eu digo muito, muito irritada e a maior parte da irritação não é nem por ele ou a cena.
Me viro e subo as escadas.
Como ele se atreve? Como eles se atrevem! Um me chama de doente e outro usa meu sofá para fazer pornografias. De novo.
– Oh, onde pensa que vai? — Escuto atrás de mim, antes que alcance o topo da escada.
Me viro para encará-lo. O seu cabelo escuro está uma bagunça só. Ele usa apenas jeans e tem os braços cruzados.
– Suponho que espera que eu participe da festa! — Grito, mas a intenção não era realmente fazer isso. Só acho que estou um pouco descontrolada.
– Onde você estava? Eu acordei com esse maldito cheiro de água sanitária e você em lugar nenhum. Te liguei um milhão de vezes e você não atendeu. Eu pensei que tivesse tido uma crise em algum canto da rua, sabia?
O observo dali. Analiso suas palavras e sinto só mais raiva.
– Acordou com o cheiro? Você estava aqui? — O quarto de hóspedes, o único lugar que não entrei, porque é o espaço do Tyler e não me atrevo a mexer.
– Claro, sua maluca! — Ele diz irritado e sobe alguns degraus. — Eu dormi aqui com a Jane.
Claro que dormiu. Com aquela criatura horrorosa que está praticamente nua no meu sofá. Mas a pior parte não é não perceber que sua casa estava sendo ocupada por outras pessoas. É o “maluca”. Porque é que as pessoas ficam repetindo isso?
Dou as costas para ele. Não posso lidar com isso agora.
– O quê? Acha que vai escapar assim?
Vou para meu quarto e ouço sua voz irritante e seus passos me seguirem.
Quando entro no cômodo, tento fechar a porta, mas, o estúpido a segura e me empurra, então fecha a porta atrás de si.
– Onde você estava? — Ele está bravo. São poucas às vezes que ele realmente fica. Essa parece ser uma delas.
– Isso não é da sua conta, Tyler! — Me aproximo e aponto meu dedo para seu rosto. — Eu tenho 25 anos, moro sozinha e não tenho que dar satisfação da minha vida a você ou qualquer outra pessoa.
– Oh, você tem sim! Quando a merda toda toma conta de você, sou eu que fico como um idiota correndo para todos os lado com uma maluca! Você me deve satisfações sim! Eu estava ficando doido aqui sem saber onde você estava!
– Oh, eu vi o quão doido você estava. Posso dizer que Jane partilhava da mesma preocupação que você!
Tiro a bolsa do ombro e a lanço na cama.
Ele respira fundo.
– Você está bem? — Me pergunta mais contido.
Bem? Essa é uma palavra que eu dificilmente consigo entender o significado.
– Estou ótima, Tyler! Estaria melhor se você não estivesse aqui!
– Ah, mas que inferno! Você saiu com alguém, não foi? — Ele se encosta na porta e fica me estudando. Me sinto nua diante dele. — Quem foi o idiota e o que ele fez?
– Não te interessa! — Odeio o fato de poder ser lida tão facilmente, isso torna o fato dele me chamar de doente, possivelmente, verdadeiro.
– Quem era? Não me diga que tá saindo com o idiota do Derek de novo! — Derek... Tenho que forçar a mente para me lembrar desse. Oh, sim, o babaca que ficava me mandando flores depois do Ty ter nos apresentado. Ele mandava bilhetinhos junto, me convidando para jantar. Sua gentileza me atraiu, mas quando aceitei jantar com ele, o idiota tentou tirar minha calcinha dentro do restaurante, por baixo da mesa. Esse eu só dei um belo tapa e deixei ali, sozinho. Nem me lembrava dele, pra ver quão insignificante foi.
– Tyler, saia daqui! — Vou em direção ao banheiro, precisando tirar a roupa e entrar embaixo do chuveiro. Me livrar da noite de hoje. Não toda ela. Tive momentos bons, mas o fim dela deve ter estragado todo o resto.
– O que há com você? O que esse idiota, seja ele quem for, fez?
Me viro para ele e me aproximo. Ficamos cara a cara.
– Eu posso ter saído com uma amiga. — Sugiro.
– Sua única amiga é a Terry. — Ele rebate. — E ela ligou tem umas duas horas perguntando se você queria sair para beber.
Não é algo que eu me orgulhe também, só ter Terry e Tyler como amigos. Mas eu sou uma pessoa muito reservada, oras...
– Fala comigo, Di.
Idiota! Homens malditos, telepatas!
– Foi um encontro legal... – Ele não vai me deixar em paz se eu não contar algo. Mas, não estou certa que seja uma boa ideia falar com quem foi. Se ele ainda não sabe é porque Theodor não fez questão de dividir e se ele não fez, quem sou eu para contar? — Mas no fim, eu acabei fazendo as mesmas coisas de sempre e o espantando. Acho que ele pensa que eu sou maluca.
Tyler sorri.
– Você é maluca, amiga! Vem cá. — Ele abre os braços e me captura em um abraço.
– Ah não, Tyler! — Consigo sentir o cheiro de Jane em seu peito. — Que nojo, você estava se pegando no meu sofá com aquela garota estranha. Me solta, você tá cheio de germes!
Meu amigo começa a rir e me segurar com força em seus braços.
– Tá vendo, maluca de pedra!
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