À flor da pele
67 Sem controle
Notas iniciais
Amy
Theodor e eu temos uma longa história. Ela é repleta de drama e muita amizade. Eu sempre pensei nele como meu parceiro. Não sexual. Acho que nunca estive tão em sintonia com alguém.
E mesmo assim, o sexo nunca esteve envolvido em nossa história. Nem mesmo quando aconteceu. Minha primeira vez foi o momento mais estranho da minha vida. Nós percebemos que não tínhamos futuro como casal. A verdade é que percebemos isso antes mesmo de fazer, mas não queríamos ser os virgens do nosso grupo.
Vê-lo com Diana, a primeira namorada decente, em anos, fez algo para meu coração. Não algo ruim. No primeiro momento senti um pouco de ciúmes, porque percebi que perderia meu cúmplice de todos os momentos. Mas não foi assim. É divertido levá-lo para o trabalho e escutar cada detalhe dessa relação meio bizarra deles. Eu não quero nem estar perto quando ele contar que estava a espionando por um tempo. E ele vai contar. Deixar isso de lado apenas não é como Theodor é. Ele gosta de honestidade, embora seja o cara mais sacana que eu já conheci.
Mas, seus inimigos não podem dizer que não mereceram as rasteiras que ele andava distribuindo até um ano atrás.
Theo é foda!
Saber que ele está machucado me fere profundamente. Mais do que eu imaginei. Especialmente porque eu deveria mantê-lo seguro. E isso é mais que pelo meu trabalho. Me sinto ligada ao Theo e tenho uma forte necessidade de protegê-lo. Ele é como meu irmão mais novo, embora seja mais velho.
Até nossos aniversários são próximos. Uma semana de diferença é o que nos separa. Costumávamos comemorar juntos e dizíamos na escola que éramos gêmeos. A cor do nosso cabelo ajudava a convencer.
– Acabei de receber. — Simon interrompe meus devaneios, me passando um tablet.
Diana está sentada na sala de espera, quieta. Eu liguei para Jane e avisei o que aconteceu, ela disse que estaria aqui em breve com Tyler. E eu espero que sim! Não faço a menor ideia se o silêncio da Diana é algo bom ou não. Tyler ao menos a entende bem.
Eu tenho estado com Theodor em suas missões de espião por tempo suficiente para saber que ela se parece mais com Tessa do que eu gostaria. Mas felizmente não é na personalidade.
Afasto-me de Diana e fico na entrada da sala de espera. Conecto o fone que Simon me dá e coloco no ouvido. Então dou Play no vídeo congelado. Vejo um Theodor todo despreocupado sair do elevador e ir para a parte mais distante da garagem. Ele vasculha cada bolso que tem e aposto que procura a chave do carro.
Ele nunca lembra onde a colocou.
Então ele a encontra e está tão avoado que não percebe o cara saindo de trás do carro do lado e indo em sua direção. O homem, que usa um capuz e luvas, se aproxima por trás e ergue o taco. Preciso lutar para não desviar os olhos. Theo percebe tarde demais o que está acontecendo. Quando ele se vira, o taco acerta em cheio seu braço. Ele cai no chão e o cara dá outro golpe, que pega nas costelas. Então ele levanta a cabeça e corre, deixando o maldito bastão no chão, ao lado do corpo imóvel de Theodor.
Vejo alguém aparecendo, que foi o que provavelmente espantou o sujeito.
– Cadê a imagem do cara se escondendo?
Simon começa a negar.
– Não acharam ainda.
Repasso o vídeo, aumentando o áudio, tentando escutar algo, mas não tem nada ali, a não ser o grito de dor do meu amigo.
Mas tem uma coisa em especial que me chama atenção.
– Eu já vi esse capuz antes. — Começo a vasculhar em minha mente onde isso aconteceu e sinto-me enjoada quando lembro. — Na casa da Diana, no dia que persegui o cara que invadiu. Ele também usava luvas pretas.
Simon suspira irritado.
– Não foi uma tentativa de roubo então. Em nenhuma da vezes.
– Acredito que não. — Raiva inflama em mim. — Diana provavelmente foi atacada por alguém que queria dar um recado a Theodor. E como ele não ouviu...
– Tem alguém em mente?
Esse era o grande problema. Quando se trata de Theodor, qualquer um poderia querer sacaneá-lo. Ele é um filho da puta com qualquer um que o ofendesse e por causa de toda sua história, muitas pessoas o ofenderam...
– Você sabe, tanto quanto eu, que qualquer um pode ter feito isso. Theo não tem exatamente um fã clube. É mais como o oposto.
Simon conhece Theo e eu por uns cinco anos. Tempo suficiente para saber que o patrão não é flor que se cheire e que tem uma longa lista de pessoas que não gostam dele.
– Eu preciso que coloque uma equipe com a mãe e a irmã. Você fica com a Diana. É melhor que ela não saiba de nada por enquanto, vou falar quando tiver certeza do que está acontecendo.
Ele concorda.
Eu sou, tecnicamente, a chefe de segurança de Theodor. Embora prefira atuar mais como guarda-costas. Ficar atrás de uma mesa, planejando como cuidar dele, não é o meu negócio.
Entrego o tablet para Simon e me aproximo de Diana, me sentando ao lado dela. Seu rosto ainda tem um leve roxeado do ataque. Na pressa em chegar ao hospital, ela nem deve ter percebido que esqueceu de esconder com maquiagem.
– Você está bem?
Ela leva um tempo para me olhar, seus olhos estão inchados e vermelhos. É certo que ela gosta de Theo. Isso é algo novo para ele. Embora seja uma boa companhia, o seu dinheiro é sempre o que chama atenção primeiro. Aparentemente, menos nesse caso.
– Como alguém consegue entrar em um prédio cheio de seguranças para assaltar as pessoas?
Eu disse a ela que foi uma tentativa de assalto. O que seriamente duvido agora. O homem do vídeo não tentou pegar a carteira de Theodor, ou as chaves do carro. Depois do primeiro golpe, teria tempo suficiente para isso, mas ele bateu de novo. A intenção era machucar.
– Aparentemente o segurança gosta de tirar cochilos na hora do trabalho. — Digo, tentando parecer engraçada, mas ela parece a beira de lágrimas depois que solto isso. — Ele vai ficar bem. A enfermeira já disse que não foi nada muito grave. — Tento a tranquilizar.
Bem nesse momento o médico entra na sala de espera.
– Estão com Theodor Blake? — O homem alto e careca pergunta.
– Sim. Ele vai sobreviver? — Pergunto, de novo, tentando soar engraçada. E consigo um som estrangulado de Diana e Simon dessa vez.
Melhor guardar as piadas!
– Ele está bem. Teve uma costela fraturada e um braço deslocado pela pancada. Não precisou de cirurgia. E definitivamente... — O médico sorri para mim. — Vai sobreviver!
– Podemos vê-lo? — Pergunto.
– Sim. Mas ele pode estar um pouco grogue pelos remédios.
Uma enfermeira aparece um momento depois e diz que vai nos levar até o quarto. Peço a Simon que fique na sala de espera, caso algum familiar apareça. Eu só trouxe Diana comigo porque estava do outro lado da rua, tentando manter os paparazzi longe por ordens do Theo. Quando recebi a ligação, meu primeiro impulso foi pegá-la e vir até ele. Os demais não me incomodei tanto. Só liguei para Jane, nem para a mãe fiz questão.
Diana entra no quarto e sua reação não é diferente da minha ao ver um galo em sua testa. Eu tive a impressão de que o bastão não tinha acertado seu rosto no primeiro golpe, mas parece que me enganei.
Ele tem os olhos fechados, o braço esquerdo está em uma tipoia. Aposto que deve ter bandagens em suas costelas também, mas a roupa hospitalar esconde isso.
É difícil ver um cara como Theo assim. Manter as coisas sob controle é quase uma obsessão. Posso dizer que nesse momento, as coisas parecem bem sem controle.
Ele abre os olhos, confusão estampado neles, mas no momento em que ele vê Diana, é como se ele mudasse completamente.
Theodor abre um sorriso, estende a mão livre para ela, o que causa dor nele, pelo semblante.
Diana se aproxima da cama, sentando na ponta do colchão e segurando sua mão.
– Estou bem, amor. — Ele a olha com tanta adoração que me sinto sobrando no quarto.
Eu já o tinha ouvido a chamar de linda e querida, mas de amor foi a primeira vez. E percebo que não é da boca para fora. Nada que diz respeito a Diana tem sido.
Theo pode ser bem intenso em tudo que faz. Seja nas amizades, ou se vingando de alguém. Estava ansiosa para saber como seria ver um Theodor apaixonado. Se ele manteria toda a sua intensidade.
E o desgraçado lutou para que eu não visse isso! Vou dar esse ponto a ele.
Mas no final, minha curiosidade foi saciada. Theodor Blake apaixonado é ainda mas intenso.
Diana
A sensação de impotência é horrível. Ver alguém que você ama ferido e não poder fazer nada, é desconcertante. Me sinto inútil e até culpada por não estar lá por ele.
Seu rosto está tão abatido. Tão diferente de hoje de manhã, quando ele me sorria tão satisfeito.
– Estou bem, amor. — Ele repete, apertando minha mão com a sua e sinto-o tremer levemente.
Eu concordo, evitando falar, para não cair em lágrimas.
Odeio hospitais. Passei um longo tempo dentro de um quando Ren se acidentou. Ele morreu na hora, o médico disse. Mas fomos levamos até o hospital e esperamos por horas até que a notícia chegasse. Eu revivi esse pesadelo de novo hoje, esperando por notícias de Theodor. Não gosto de me sentir assim. Todas essas emoções me lançam para a borda e não posso perder a compostura aqui.
– Hey... — Ouço a voz de Jane atrás de mim e me viro.
Amy a abraça e cumprimenta um Tyler abatido, que se aproxima de nós.
– Oh, meu deus! Você esta horrível! — Tyler solta ao ver o roxo no rosto do Theo.
– Cale a boca, Tyler! — Jane repreende, beijando a testa do irmão. — Que bom que você está bem. — Ela completa, com os olhos marejados.
– Oh, por favor! Eu estou ótimo, não comecem com esse drama todo. — Theo reclama.
Tyler se aproxima de mim e beija minha testa, ele me olha e sorri, mas então fica sério e toca meu rosto.
– Mas que diabos! Amy, você disse que ela não estava junto!
Ele ergue meu rosto e então me dou conta do que está vendo. Ele afunda o dedo em minha pele ferida e causa uma leve irritação, então empurro sua mão.
– Para! — Reclamo.
– Ela não estava. — Amy responde e então fica quieta.
Eu não escondi o ataque do Ty de propósito. Só sabia que ele iria se culpar e era desnecessário.
– Eu vou... Ali fora. — Amy diz atrás de mim e foge.
– Diana? — Tyler pergunta.
Droga! Me vejo obrigada a contar para ele.
– Foi na véspera de ação de graças...
Ele tem uma carranca feia.
– Entraram na minha casa e...
– Puta que pariu!
Sou apertada em seus braços e vejo por cima de seu ombro Theo e Jane nos observarem.
– Eu sinto muito. — Meu amigo diz e sua voz é tão cheia de culpa que me corta o coração.
É exatamente por isso que não queria contar. Ele nem me deixou terminar a história e já está se culpando.
– Eu não acredito que eu te deixei para trás! É minha culpa, anjo, sinto muito. Eles te tocaram?
Toco seu rosto o obrigando a me olhar nos olhos.
– Foi um cara só. Ele entrou em casa quando eu estava falando com o Theo no telefone. Theodor estava por perto e ele veio em meu socorro a tempo.
– Não tão a tempo... — Ele toca meu rosto.
– Eu caí na escada quando tentei fugir.
Seu rosto fica pálido.
– Tentou fugir? Ele não estava armado? Meu deus, Diana! Não se tenta fugir de bandidos armados em sua casa! Você poderia estar morta!
– Calma, Tyler. — É Jane quem fala agora. Ela tem a mão no ombro do meu amigo, que finalmente me solta e a abraça.
Um silêncio constrangedor toma conta do quarto.
Theo não diz nada em nenhum momento. Eu acho que ele está pensando naquela noite de novo. Arrumando motivos para se culpar, que nem o Tyler. Como se eles pudessem prever o futuro!
Os olhos de Theodor se levantam por um momento e olho para Tyler, que o encara. Percebo quando os lábios do meu amigo disparam um silencioso "Obrigado".
Então o silêncio desconfortável reina na sala.
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