À flor da pele
12 Sabores
Notas iniciais
Diana
Com os dedos entrelaçados, e sentindo arrepios pelo corpo, sou guiada para o segundo andar. Ele não corre, respeita meus limites, mas sobe rápido. Isso causa um certo incômodo em minha canela.
— Mais devagar, estou ferida! — O lembro, exagerando, é claro!
Ele alivia o aperto da minha mão.
— Desculpe. Devo pegá-la no colo?
Sugo o ar e esqueço, por um momento, de soltá-lo.
— Não se atreva! — Digo por fim, quando ele para no meio da escadaria.
Acabamos de subir e encontro uma terceira sala. O único sofá, em formato de L, está de costas para a parede de vidro, tem um tapete logo à frente. Os desenhos imitam a pele de uma onça. Acho que é de pele de verdade. Atrás dele há um outro ambiente, com sofá também.
Solto a minha mão da de Theo, que me estuda em silêncio. Caminho para o canto mais afastado, onde portas largas estão abertas. Do lado de fora tem um deque e em seu centro um ofurô. Espreguiçadeiras, pedras brancas e folhagens completam esse ambiente.
— São muitas salas... — Comento. Para uma mulher é até aceitável. Conheci, certa vez, uma cliente de Terry, minha colega de trabalho, que pediu o planejamento da casa nova com quatro salas. Segundo ela, era uma sala para visitas, uma para interação dos mais íntimos, uma de TV e uma para as crianças. Aposto que ela nunca usou mais que duas.
— Vem. — Ele diz, como se eu não tivesse dito nada.
Ele me leva para o parapeito e aponta para depois do parque que há entre nossos lares.
— Sua casa! — De fato, minha casa. Mas só o telhado, as árvores do parque tampam a maior parte de tudo. Mas, está de noite, talvez vendo essa paisagem com a luz do dia, eu consiga perceber outras coisas. Como meu jardim. Nunca mais irei tomar Sol de biquíni lá...
— Então você tem espionado meu telhado?
— O telhado... — Ele sorri e pega minha mão, me puxa, lentamente. Ele parece estar gostado de me puxar de um canto a outro, é a única coisa que ele faz desde que chegamos. Nem mesmo a bolsa tirei do ombro.
Theo caminha para um corredor tão largo que poderia caber outro... Oh, lá está ele. Um sofá!
Bem no meio do corredor, como o de um consultório, para as pessoas esperarem sua vez. Há também vários quadros. Esses são apenas molduras que rodeiam pele de animais. Como o tapete de antes. Parece ser real, o que o faz ser terrivelmente feio e de mau gosto.
No fim do corredor há uma janela imensa de vidro. As cortinas são em tons pastéis e estão abertas, revelando as luzes da cidade. Sou levada perto da janela e então Theo se vira, abrindo portas duplas que pareciam parte da parede. Eu nunca iria adivinhar que ali tinha um quarto, nem maçaneta tem...
Estou prestes a fazer uma observação não muito gentil sobre os tapetes e quadros e como a natureza é muito infeliz pelo gosto dele, mas sou calada. A janela que se encontra entre as paredes do cômodo é imensa e a parte de cima é oval. A cama em minha frente cabe Theo e umas quatro pessoas facilmente. Mas o que mais chama atenção é o armário aberto, dividido em prateleiras grandes. Até parece uma biblioteca, mas invés dos livros há roupas. Com exceção das cores nos móveis e roupa de cama, que são de tons escuros, assim como a sala de TV, nada aqui se parece com ele. A disposição dos cômodos é uma bagunça e se tem uma coisa que Theodor Blake não é, é bagunceiro. Pelo menos é o que ele passa com seu jeito calmo e controlado de sempre.
— Nada disso combina com você. — Lhe digo, sem encará-lo. Ainda olho o armário exposto e gigantesco.
— Exato! — Sua voz soa próxima e mais uma vez sei que se me virar vou dar de cara com ele. O calor que seu corpo emana, tão perto do meu, me causa... coisas. Eu não gosto de sentir esse tipo de... coisa? Sinto-me desconfortável. Descontrolada até. Meu corpo não me obedece direito. Odeio isso. E no entanto, é agradável também.
— Por isso te trouxe aqui. — Ele acrescenta.
Suas palavras me alcançam como um tapa. Os flertes, aparentemente, são apenas coisas da minha cabeça.
— Você me trouxe aqui a negócios, então? — Digo calmamente, dando dois passos para frente e então me virando para encará-lo, mas ele também acompanhou meus passos, porque continua perto demais. Me afasto um pouco mais e ofereço um sorriso. Tento não parecer desapontada, mas é fato, estou. Embora não seja nenhuma beldade, ainda sou mulher e como tal, quero ser apreciada, paparicada, me sentir desejada e todas essas coisas que levantam a moral. Mas não me sinto assim agora. Acho que porque era claro que Theodor Blake é muita areia para meu pobre caminhãozinho.
— Mais ou menos... — Ele diz mordendo o lábio. — Eu te convidei para jantar porque gosto da sua companhia. E te trouxe em minha casa porque realmente adorei o que fez na sua. Tyler começou a me ajudar aqui, como você viu na sala de TV. — Ele se afasta e se senta na enorme cama, me estudando dali. — Mas, ele mal acabou a sala e disse que estava cansado de pensar e desenhar e não podia mais ouvir a palavra “Medida”.
Sorrio, esse é Tyler. Ele tem um enorme talento, teria sido grande se tivesse continuado na área, mas a preguiça sempre o dominou.
— Vamos falar sobre isso em outro momento, você conhece minha casa, falta só alguns cômodos. Conhece um pouco sobre mim, tenho certeza que pode me sugerir algo bacana, mas não hoje.
Ele levanta. Tenho a impressão que ele só sentou na cama para que eu tivesse uma boa imagem dele ali. Provocador! Mal sabe ele que minha mente não precisava disso. Ela já começava a imaginar ele ali e de formas bem diferentes.
Oh senhor, Diana, controle-se!
Passado o choque de ter um encontro de negócios, consigo relaxar um pouco.
Theodor segura minha mão, mais uma vez, e me guia para fora do quarto. Ele abre rapidamente uma outra porta, tão escondida como a anterior, revelando o que deveria ser um escritório, mas há caixas e mais caixas amontoadas em cima de uma escrivaninha e em volta. Antes que eu possa realmente capturar todos os detalhes, ele está abrindo outra porta, me empurrando para dentro de um cômodo vazio e enorme. Em seguida sou puxada, entre risos silenciosos dele. Ele está adorando me empurrar de um lado para o outro, fazer nossos quadris se baterem e quase tropeçarmos nas pernas um do outro. E sinceramente? Eu também estou.
— Tem mais dois quartos, vazios também, mas chega, cansei de ver isso. Vamos descer, você precisa preparar o jantar ainda.
— O quê? — Pergunto perdida entre o choque e a diversão desse passeio apressado.
— O jantar, mulher! — Ele me olha como se eu fosse um ser de outro mundo. — Eu não sabia o que você gostava, então deixei para você fazer.
Ele não sorri dessa vez. Me leva para baixo sem rir uma única vez. O que me leva a ter certeza que não é uma brincadeira.
— Theo, você fez isso mesmo?
Ele me lança um olhar sério, mas logo começa a rir.
— Não! Que deselegante, Dia! — Ele diz com um fingido e exagerado desconcerto. — Bem, então, jantar?
Theodor Blake é, definitivamente, uma figura!
— Jantar! — Confirmo, animada pela companhia um pouco... Excêntrica.— Mas espere, onde é o toilet?
Ele me olha com uma expressão divertida.
— O banheiro fica logo ali. — Ele aponta para uma porta não muito distante.
— Obrigada. — Me afasto e deixo minha bolsa no sofá antes de ir para o lugar indicado.
Assim que entro, me lanço na frente do espelho. Estou vermelha. Quase tanto quanto as flores estampadas em meu vestido azul. Abro a torneira e jogo um pouco do líquido frio em minhas bochechas. Theo é uma figura desconcertante, me surpreende não ter tido um ataque de pânico ao lado de uma personalidade dessas. Acho que a convivência com Ty me deixou treinada para pessoas... Excêntricas? Embora ele não pareça exatamente excêntrico, na verdade, apenas ansioso e um pouco nervoso. Meu pai tende a ficar bem animadinho para disfarçar a ansiedade. Seria esse o caso do Theo?
Desligo a torneira e me seco com toalhas de papel que saem de um suporte. Adorei o fato de não ser toalhas de pano. Provavelmente usaria o meu vestido para me secar, se fosse o caso. Nunca se sabe quem usou a toalha de pano, quando usou e se, de fato, as mãos estavam limpas ao usar.
Saio do banheiro e volto para a sala principal. Não vejo Theo, então me aproximo da porta francesa aberta e assisto ao show que as luzes da cidade proporcionam. Eu poderia viver nesse lugar. Acho que passaria muito tempo apenas observando tamanha beleza.
— Pronta? — Escuto Theo e me viro. Ele está perto de um arco grande, do outro lado da sala. Não visitei aquele cômodo, deve ser a cozinha.
— Sim.
Ele vem em minha direção e não me movo para encontrá-lo. Apenas o vejo se aproximar com esse seu jeito todo... Másculo. Ele me lembra a exata descrição dos livros sobre cowboys. Eles deveriam ser assim, confiantes e charmosos.
Quando estamos perto um do outro, ele me oferece o braço e sou guiada para uma cozinha relativamente pequena, em comparação com os outros cômodos do duplex imenso.
Há armários e uma geladeira em tons metálicos. Do lado um forno adaptado para a cozinha toda planejada. A pia fica em um balcão no meio da cozinha e do lado direito uma mesa de quatro lugares, com cadeiras vermelhas que eu amei!
A mesa está arrumada. Pratos grandes, brancos, ovais, estão colocados de frente um para o outro. Os talheres do lado. Duas taças descansam ao lado de cada um dos pratos. As menores têm água e as maiores estão vazias. Uma garrafa de vinho dá um charme e me traz lembranças ruins da última noite. Embora a dor de cabeça tenha passado, a lembrança dela ainda me causa calafrios.
Bem no centro da mesa uma vela apoiada em um arranjo bonito de rosas brancas.
— Por favor... — Ele se aproxima da cadeira e a puxa. Me posiciono e ele a empurra, para que me ajeite. Não me canso do seu cavalheirismo.
— Espero que não se importe em jantar na cozinha. — Ele diz enquanto pega uma luva térmica de uma gaveta e abre o forno. A forma que ele tira está tampada com papel alumínio, mas o cheiro que escapa é divino. Ele o coloca no meio da mesa, ao lado do arranjo — Aquela mesa da sala de jantar parecia-me grande demais. — Indo até a geladeira, ele tira duas travessas e as junta na mesa. — Você come peixe? Diga que sim, por favor!
— Na verdade eu não como nenhum tipo de carne... — Ele estreita os olhos.
— Mentirosa, eu lembro-me claramente de te passar um belo pedaço de carne ontem.
Dou de ombros.
— Não custava tentar!
— Você não consegue me enganar, Diana. É muito transparente.
Isso me incomoda. Transparente é uma palavra que eu nunca imaginei sendo ligada a mim. Sempre achei que escondia bem as coisas.
— Pronto. — Ele diz colocando ao lado do meu prato uma mini panelinha com arroz e uma ao lado dele. Eu adoro essas louças em miniatura, são charmosas. Mas não digo isso em voz alta. Não que seja preciso, ele já deve ter percebido. Afinal, eu sou transparente!
— Vê, essa mesa menor é muito melhor. Não queria ficar longe. Se importa? — Seus joelhos roçam nos meus quando ele vem para frente com a cadeira. Joelho a joelho. Como se ele não tivesse planejado isso. Ou pelo menos meu interior gostaria que assim fosse.
— Não, é perfeito.
Ele sorri. Aliás, ele está bem risonho hoje.
Com um movimento rápido, ele pega a garrafa e serve as duas taças vazias.
— Espero que aprove e o vinho. Cabernet Sauvignon e merlot.
Hum... certo! O que ele acabou de dizer?
— Sabe – Mordo meu lábio de leve antes de continuar. — Entendo tanto de vinho quanto de carros.
Ele revira os olhos.
— Eu sei, você é uma menininha. Bebe café de menininha. Tem um emprego de menininha. E pelo que vi na sua garagem, dirige um carro de menininha. E como toda menininha, você não saberia algo assim! — Ele cruza os braços.
— Isso foi muito — Gesticulo com as mãos para dar ênfase — Muito, mesmo, machista!
— Oh, por favor, ser homem é ser machista. Especialmente se vocês, mulheres, querem um cavalheiro. Não tem como ser um se você tem que concorrer com a dama que quer impressionar.
— Você não pode estar falando sério. — Pela primeira vez na noite, eu começo a achar que suas brincadeiras eram, na verdade, sua real opinião. Isso me incomoda demais.
Ele suspira.
— É claro que eu não estou falando sério. Minha avó me mataria se eu estivesse! Mas... Olha, faz muito sentido o que eu disse. Talvez eu possa ser um machista secreto.
— Não, por favor. Isso seria horrível.
— Bem, você não tem reclamado sobre meu lado machista por toda a noite. Está impressionada demais.
— Oh, meu bom deus! Convencido é algo muito sutil para te descrever. — Ele pisca para mim pelo comentário. — E não estou impressionada, menino!
— Mas vai ficar... — Ele se inclina e tira a o alumínio da travessa, revelando filés de peixe com batatas e aspargos. As travessas que ele tirou da geladeira tem salada e a outra uma espécie de massa com um creme e vegetais.
— Como eu dizia, Cabernet Sauvignon e merlot são uvas. — Ele me conta. — Encontradas em regiões francesas. Dizem que elas têm um gosto muito distinto e peculiar. O vinho feito delas é fantástico pelo menos, mas há aquela coisa em torno delas... Sobre saboreá-las. São pequenas, macias, sempre tive vontade de sugá-las, morde-las chupar seu interior... Infelizmente, não tive a oportunidade, ainda, mas isso será resolvido em breve. — Ele ergue sua taça. Pego a minha e toco na sua. — Às uvas... perfeitas. — A maldita rouquidão está de volta, minhas coxas apertadas entre si e uma droga de gemido ameaçando escapar por meus lábios.
Quem diria que uvas podem ser tão... sexys.
Theo mexe comigo de formas que eu nunca pensei ser possíveis. Pensei que eu estava fechada para esse tipo de coisa. Mas eu gosto. Gosto de flertar com ele, de me sentir como uma mulher de fato. Desejada. Bonita. Eu gosto muito disso.
— Às... uvas. — Minha maldita voz falha. Dou um gole no vinho, encarando Theo, que tem seus malditos joelhos, inquietos, roçando nos meus. — Fantástico. — Digo ao saborear a bebida.
Deixo a taça de lado e observo o jantar.
— O cheiro e aparência são divinos.
— Eu sei! — Diz com alegria. Ele é tão convencido.
— Por acaso foi você que fez tudo isso?
— Aham! Olha, bacalhau assado com o molho da vovó. É segredo o que vai nele. Inclusive, nem mesmo eu sei, então... Pode não estar muito bom...
Como não se divertir com ele?
Ele me serve uma porção grande do peixe e depois coloca um menor para si mesmo. No entanto, a tal massa vai quase toda para o seu prato.
Depois de servidos, eu provo a massa primeiro. O sabor é delicioso, derrete na boca. O bacalhau dele ficou um pouco salgado, mas está ótimo. Ok, bem salgado...
— Você venceu, menininho... — Digo depois de engolir o peixe e tomar um bom gole de água. — Estou impressionada.
— Eu não disse?
— Como seu ego cabe em você?
— Não cabe, eu tenho um cômodo só para ele. Um dia posso te levar lá.
— Eu certamente morreria assim que você abrisse a porta. Seria esmagada por ele.
Ele olha para o teto, pensativo.
— Isso é... Bem possível.
Como outro pedaço da massa.
— Como se chama esse prato? — Pergunto e o vejo morder o lábio, estreitar os olhos e pegar fôlego para falar, mas fica quieto. Então ele começa a gesticular com a mão, totalmente perdido.
— Bem... Olha é... como você chamaria?
— O quê? Está dizendo que inventou isso? — Provoco.
— Na verdade, era para ser um perohe, uma massa polonesa. Mas ela não quis ficar como o da foto da internet e tão pouco consegui rechear igual. Estourou tudo. Já estava desistindo quando errei a panela e joguei o molho do peixe na massa. Eu fiquei curioso sobre como pareceria e provei.
— É isso? Um acidente?
— Exatamente isso, um acidente.
— Eu adorei!
Ele concorda.
— As melhores coisas sempre começam como um acidente. — Diz um pouco sério.
— Como as batatas fritas?
— E cookies!
— Microondas! — Tento me lembrar de mais alguma coisa útil descoberta sem querer.
— Picolé! — Theo diz. Disso eu não sabia.
— Penicilina! — Digo, orgulhosa por ainda me lembrar sobre algo assim. Meus tempos de escola passaram há muito tempo.
— Viagra!
— Theo!
— O quê?
— As melhores coisas?
Ele revisa os olhos.
— Tem muitas mulheres que concordariam com isso. Você mesma, cara Dia, pode concordar em algum momento de sua vida. É só dar tempo ao tempo.
Dou um longo gole no vinho antes de voltar para a conversa.
— Obrigada por prever que acabarei com um homem impotente! — Outro gole no vinho. Melhor ir devagar, acho bom me lembrar da noite de hoje ao acordar amanhã.
— Você está vendo pelo lado negativo da coisa, Dia. O que eu previ aqui foi... Uma união duradoura. — Vendo por esse ângulo... Ergo a taça em um brinde silencioso e levo a taça aos lábios. — Duradoura o bastante para a pipa do vovô não subir mais.
Oh, deus!
O vinho escapa da minha boca, em uma cena terrivelmente feia e memorável. Pego o guardanapo do colo e levo aos lábios, enquanto escuto a gargalhada de Theodor. Me levanto, lhe lançando um olhar que deveria ser zangado. Mas não acho que consegui cumprir.
Vou para o banheiro e respiro aliviada. Aquela cozinha parecia muito pequena com a presença de Theo. Não que o banheiro seja maior, mas me deixa menos pressionada.
Que noite!
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