À flor da pele
44 Quem é?
Notas iniciais
Diana
Meu celular me acorda de manhã. Não o alarme, uma ligação.
O pego. Estou tonta. Quase não consigo identificar o nome. Deve ser o remédio que Theo me deu. Deve dar sono.
Me concentro na identificação no celular. É Tyler.
Me surpreendo que esse maldito se lembre de mim. O que ele quer? Me desejar um bom feriado? Ou será que se arrependeu? Ou quem sabe, ainda, decidiu me contar que está vivendo com a Jane!
Maldito mentiroso!
– O que foi? — Respondo mal humorada, me sentando na cama.
– Oi, Diana... — Não é Tyler do outro lado, a voz é feminina.
– Jane?
– Sim, bom-dia! Olha, desculpa incomodar, mas eu queria agradecer pela passagem. O Ty fica dizendo que não preciso, mas estava me sentindo meio mal.
Agradecer? Parece mais que está esfregando na minha cara que sou substituível. Não respondo nada. Fico quieta. Nem acordei direito, não quero ter essa conversa.
– Bem, bom feriado para você e obrigada mesmo. Eu não vou esquecer o que fez, é realmente importante para mim.
Ela não parece mais tão maldosa agora. Só muito grata, o que me faz questionar... O que Tyler andou falando? Não me surpreendo se ela realmente achar que dei a passagem de bom grado, Tyler não presta, ele usa de artimanhas para conseguir o que quer e sair de bonzinho.
Eu estou com tanto ódio dele que poderia fazer uma cena. Arruinar esse romance que ele tem. Me sentiria melhor ao menos.
Tá, não me sentiria! No momento apenas, talvez, ficaria deprimida depois. E muito.
– De nada, divirta-se. — Digo e desligo.
Que vontade de gritar! Que ódio desse maldito melhor amigo da onça!
E odeio Jane! Odeio Tyler! Odeio, odeio, odeio! Malditos!
Olho o visor do celular para conferir às horas e entro em pânico. Já é quase onze! Como que eu perdi a hora desse jeito? O celular não despertou?
Meu deus!!
Levanto apressada e entro no banheiro, quase tropeçando em minhas próprias pernas.
Tudo tem que dar errado de uma vez mesmo!
Ligo o chuveiro e tomo um banho em menos de cinco minutos. Coloco um jeans. Me lembrando automaticamente de Theo.
Afasto a lembrança e pego uma camisa vermelha e um blazer preto. Saio apressada do quarto e vou para a lavanderia, então vasculho o lugar, atrás do meu salto vermelho. Usei-o semana retrasada e não o subi.
Começo a dar voltas, como uma barata tonta, e por fim o localizo. O calço e saio correndo, só parando para pegar minha bolsa no percurso.
Tento me acalmar. O dia começou péssimo, e nada que começa assim tende a melhorar. Não na minha vida, pelo menos.
Dirijo até o escritório, tento não correr, mas algumas vezes meu pé fica pesado e acho que passei em um sinal vermelho...
Quando chego ao escritório, luto por uma vaga. Esse é o porquê de chegar mais cedo.
Subo de elevador até o andar, depois de conseguir uma vaga. Já é mais de meio dia, estou atrasadíssima!
Ao abrir a porta, me surpreendo por ver o escritório fechado. Nós não fechamos para almoço.
Vasculho minha bolsa, atrás das chaves. As encontro e entro. Luzes apagadas, janelas fechadas, persianas abaixadas.
Será que errei o dia do feriado?
Vou para o escritório do Dony, vazio. Assim como o do Junior e dos outros designers. Então escuto um barulho na sala de reuniões e vou para lá. Encontro Terry cantando em voz alta uma música desconhecida.
– Terry! — Chamo ela que, distraída, não me percebe de imediato, mas quando o faz, é com um pulinho pelo susto.
– Hey você... O que está fazendo aqui? — Ela me pergunta surpresa e então baixa a papelada que estava estudando.
– Tô atrasada. Perdi a hora...
Ela sorri e revira os olhos.
– Você não viu seu e-mail também, não foi? Dony mandou um pro pessoal, disse que não precisávamos vir hoje, mas eu só vi a mensagem ao chegar aqui.
Respiro aliviada.
– Eu perdi totalmente a hora.
Me sento de frente para Terry.
– Quer ir almoçar? — Convido, já que estamos aqui. Agora que me sentei, percebo que estou com bastante fome. É o que dá pular o café da manhã!
– Claro! — Minha amiga me olha e sorri. — Ai você aproveita e conta o nome do vampiro que andou te mordendo!
Merda!
***
– Então? Eu devo começar chutando um nome? — Terry pergunta quando estamos no restaurante.
Ela foi gentil em esperar até nossa comida chegar para voltar ao assunto.
– Não quero falar sobre isso. — Tento.
– Como se eu fosse deixar você não falar. Desembucha! Foi o nosso ricaço favorito?
Puxo o cabelo para frente, para tentar cobrir meu pescoço. Assim que ela viu, lá no escritório, fui obrigada a desfazer o coque e tentar disfarçar. Me esqueci completamente de esconder isso hoje.
– Eu pensei que seu ricaço favorito fosse o Fabrício! — Provoco.
– Fabrício? Não era Patrick?
A encaro com descrença.
– Olha, graças a você, eu já não tenho a menor ideia de como o cara se chamava!
Ela ri.
– Nomes não são importantes se você não quer se apegar. Será que é por isso que você não me deu nenhum ainda?
Como Terry é chata às vezes. Eu não quero falar sobre isso. Não quero conversar sobre minha intimidade. Isso deveria ser privado e não o assunto do almoço.
– É muito vergonhoso falar sobre isso, Terry! Eu não sei onde enfiar a cara.
– Diana, para de enrolar. Esse papinho de vergonha não vai me distrair. Detalhes, agora! — Seus olhos brilhavam de empolgação.
Qual a graça de ouvir aventuras sexuais dos outros? Eu sempre odiei que Tyler me contasse.
– Foi o Theo...
Ela continua me estudando, não diz nada. Só espera, com um sorriso largo nos lábios.
– E só. — Completo.
– Como só? Vocês foram até o fim ou ele só tentou mastigar seu pescoço mesmo?
Até o fim? Oh, grande oportunidade!
– Só amassos. — Desvio o olhar, é horrível mentir olhando nos olhos das pessoas.
Brinco com meu prato, tentando formar um rosto sorridente com minha salada.
– Mentira deslavada, Diana! Sua putinha!
Abro a boca escandalizada e a encaro, toda vermelha, aposto. As minhas bochechas queimam.
– Não sou putinha, minha lista é bem curta! — Aponto pra mim. Ela gargalha.
– Ele foi gentil? — Me pergunta já mais controlada.
Concordo apenas.
– E qual foi a reação dele quando você contou que era virgem? Ele ficou assustado?
Lembro da tensão no corpo do Theo quando entrou em mim, e seu rosto surpreso logo depois disso.
– Não contei.
Uma batida forte na mesa me faz dar um pulinho pelo susto.
– Puta que pariu, Diana! — Terry tem a mão fechada sobre a mesa. — Ele poderia ter te machucado e muito, por essa omissão. Como é que aconteceu? Você estava molhada o bastante? Tá com dor?
– Nem minha ginecologista pergunta essas coisas, Terry!
– Sua ginecologista sabe que você é virgem, te garanto. Ou sabia, até o último encontro! Coisa que o Theo não fazia ideia!
Ponto pra ela. Que inferno!
– Qual é a grande coisa sobre isso? Nós já transamos, fim!
– Você se colocou em perigo, sua boba. E se ele tivesse chego todo duro e forte? Eu adoro sexo com pouca lubrificação, sabia?
– Não, Terry, eu não sabia! Por que estamos falando sobre isso mesmo?
– Bem, querida amiga, eu adoro a sensação de ser rasgada! E não só eu, Garry adora entrar assim!
Ai que nojo, que nojo, que nojo! Não imagine o que ela diz, Diana!
– Se Theo fosse um desses, você acabaria é no hospital, com uma hemorragia e uma dor dos infernos. — Ela completa.
– Oh, meu deus! Você está me dizendo que tem hemorragia após cada noite de sexo? Que nojo! Me mate, por favor, Terry!
Ela ri.
– Não boba, nós não fazíamos assim. Estávamos juntos por muito tempo, ele sabia como me tocar sem machucar. — Ela me conta, mas não tão animada como antes. As lembranças não parecem fazer bem ao seu coração quebrado. — O caso é, você precisa deixar de ser inocente desse jeito, Diana. Deveria ter contado a ele. Foi um risco desnecessário.
Ela tem razão. Eu acho.
– Eu pensei... — É difícil falar sobre esse tema. Fico olhando para todos os lados, menos para ela. — Achei que ele não ia me querer se soubesse.
Ela ri alto, chamando atenção de algumas pessoas.
– Querida, aquele homem te devora com os olhos. E você pode achar que eu sou boba, mas eu sei que já faz um tempo que rola algo entre vocês. Mais que amizade... Na quinta passada, na casa do Tyler, não deixei passar seus lábios inchados e ele te seguindo. Ele te adora e eu mal os vi juntos. Mas, nas vezes em que pude ver... Ele não teria ligado para isso. Mas teria sido muito cuidadoso, tenho certeza.
Rolando algo... Não tenho certeza sobre isso. E se estava, acho que estraguei.
– De qualquer forma, já passou. Não adianta me censurar agora.
– Está certa. Então vamos pensado no presente. E futuro... — Minha amiga pisca pra mim, e isso não pode significar coisa boa. — Vocês estão juntos agora?
Ai, caramba! Que pergunta horrível! Quer dizer, não tem nada demais, mas tem tudo de tudo. Eu estraguei as coisas ontem e não acho que Theo volte a me procurar. E eu realmente gostaria disso, e ao mesmo tempo não.
Como posso responder sobre o que eu não sei?
– Eu não faço ideia... — Sou sincera.
– Não me diga que ele te comeu e sumiu... — Seu sorriso morre e eu arfo pelo “comeu”. Tem vezes que Terry parece Tyler, não tem um pingo de consideração pela vergonha alheia.
– Não... — Olho para nossos pratos quase intocados. Ela mal comeu também. Mas, no caso dela, é pela empolgação. — Ele foi em casa ontem... Mas... Eu o espantei. Acho que estraguei tudo.
– E é isso que você quer? Que fique estragado?
Sim.
Não.
É o que eu preciso.
Mas não o que eu quero.
O que eu respondo? Não faço a menor ideia... Por que Terry continua fazendo perguntas difíceis?
– Diana, sua burrinha! — Minha amiga faz um gesto para o garçom. — Você deveria aproveitar sua folga e ligar para ele. Diga que quer vê-lo e pronto. Seu voo saí que horas mesmo?
Meu voo? Ah, Tyler! Faço um esforço para me lembrar para que horas era o voo...
– Às 20 horas, mas preciso estar lá às 19, no máximo.
Vou para o inferno por mentir desse jeito!
– Então, passarinha... — Ela olha para o relógio – Você tem 6 horas para fazer o homem perceber que está em um relacionamento. E tenho certeza que ele não vai achar ruim, ao julgar pela forma que te olha. Ligue para ele!
Começo a rir, é inevitável. Terry acha o quê? Que é diretora de algum filme de romance clichê?
– Você é hilária! Mas não, obrigada. Estou bem sozinha.
O garçom se aproxima e pedimos a conta.
– Ok, eu ligo então, e digo que você é uma vadia, que estava jogando com ele, só porque sua melhor amiga, euzinha, e rival no amor, está apaixonada por ele. Dessa forma, ele virá para mim e passaremos o feriado todo fazendo sexo quente e selvagem! E no fim, faremos um mini Blake, que me assegurará uma ótima vida. Para sempre!
Reviro os olhos, descrente que estou ouvindo isso.
– Você fala tanto em dar o golpe do baú, Terry, que estou começando a pensar que você está planejando algo.
Ela gargalha.
– Quem sabe, Di, quem sabe!
***
Não ligo para Theo, como Terry sugeriu, mas me vejo pensando nele por um longo tempo depois que volto para casa.
Nem mesmo troco de roupa, me deito no sofá, vestida para o trabalho e de salto. Me sinto fazendo algo errado, mas não ligo.
Só por um momento eu quero parar de me preocupar com tudo ao mesmo tempo e me concentrar em algo especifico. Ou talvez eu já esteja fazendo isso.
Droga! Não consigo me ver aqui em casa, sozinha, por tanto tempo. Eu vou pirar, fazer análises que não deveria, pensar demais! Talvez eu devesse ligar para Julie e dizer que mudei de ideia. Se eu sair agora, chego em Los Angeles por volta das 10 da noite, se tiver trânsito bom, é claro. O que certamente não terá. A cidade já está um caos, imagina as estradas...
Descarto a ideia, ela é terrível! Dirigir nunca foi algo que me agradou, e isso que só dirijo da casa pro trabalho e vice-versa, longas distâncias? Não mesmo! E Julie certamente ficaria brava por aparecer em cima da hora. Ela gosta de fingir que é organizada!
Droga de vida complicada!
E o celular toca. Só preciso esticar meus dedos, já que o deixei na mesa de centro, perto do sofá.
Olho o visor e sinto meu coração dar uma batida mais forte.
Theo!
Respiro fundo antes de atender, não quero parecer ansiosa.
– Alô! — Droga, ansiosa demais de qualquer maneira!
– Oi linda, pode falar agora?
Por que ele fica me chamando de linda? O que mudou depois do sexo? Antes disso era Dia pra cá, Dia pra lá...
– Posso, estou em casa já! — Por que contei isso? Ah, que droga!
– Oh... Isso é legal.
– Sim, ganhei uma folga... — Fico tensa.
De onde saiu todo esse constrangimento entre nós? Aliás, eu sei bem de onde! Da minha grosseria de ontem...
– Escuta, eu estarei fora até domingo. E... Bem... Você tem certeza que está ficando? Eu sei que já perguntei e você já me deu sua resposta, mas, me sinto mal por saber que vai ficar sozinha.
E as batidas ficam mais fortes e estou grata por não estar em pé, ou teria levado um tombo.
Eu quero ir. Quero dizer sim e não ficar sozinha! Eu quero muito e não sei de onde isso saiu.
– Eu vou ficar, Theo, obrigada. — Respondo, dessa vez sem grosseria. E me xingando mentalmente. Adoraria passar algum tempo com Theodor, mas não tenho certeza alguma do que fazer. Tenho medo de estragar tudo o deixando entrar. Talvez esses dias longe sejam bons para nós. Distância parece funcionar bem para algumas pessoas, ajuda a colocar a cabeça no lugar.
– Ok...– Ele diz, mas eu percebo a decepção em sua voz – Eu posso... Passar aí para me despedir?
Não!
– Por favor...
– Ótimo! - Ele parece mais animado. – Agora?
– Você que escolhe.
– Agora então, estou indo. Até, linda.
Me derreto ao ouvir o linda outra vez...
– Até.
***
O que eu fiz? Droga!
Por que eu cedo tanto quando se trata do Theo?
Me levanto, e estudo minha roupa. Tiro o blazer, para parecer mais relaxada. Mas... Talvez eu deveria colocar alguma roupa melhor... Um vestido talvez! Mas está frio. E Theo parece gostar de me ver em jeans...
Vou para o banheiro do meu quarto e escovo os dentes. Depois me olho no espelho, estudando meu rosto. Eu fui trabalhar hoje, então, é natural que tenha um pouco de maquiagem, certo? Nada a ver com passar para ele!
Isso! Continue repetindo e você vai se convencer!
Então, encontro meu estojo de maquiagem na penteadeira e passo sombra, lápis, e tudo mais que consigo pensar. Mas moderadamente, não quero que ao abrir a porta ele pense que está em um circo.
Coloco brincos e meu colar de concha. Eu não tive tempo de fazer isso quando saí.
E lembre-se Diana, não é para o Theo, é para você mesma! — Dou-me mais uma desculpa.
Me sinto ridícula por ter feito tudo isso. Talvez eu deva tirar. Mas estou tão bem...
Deixa pra lá. É importante uma pessoa se sentir bem consigo. Fim.
Volto para a sala e ligo a TV. Não costumo assistir nada quando estou sozinha, mas parece que isso será a minha distração pelos próximos dias. E compras na sexta! Definitivamente vou ir! Mesmo sem o traidor do Tyler. Quem precisa dele?
E uma buzina soa perto. Na frente de casa, eu acho. Me levanto, ansiosa, e vou para a porta. Assim que abro, me vejo sem ar com a visão de Theo saindo do carro. Jeans azul, camisa branca, cabelo bagunçado. Nem parece que foi ao trabalho... Mas será que ele foi? E se ele tiver me deixado para ir em um encontro, ontem?
Afasto o pensamento, enquanto ele abre o portão e entra. E em sua mão tem uma caixa grande de presente. Por favor que não seja outra peça de roupa íntima! Não saberei como lidar com isso!
– Uau! — Ele diz ao parar em minha frente, e acho que eu é que deveria dizer isso. Ele está de tirar o fôlego!
– Por favor... — Ele pega minha mão e a ergue, me fazendo girar desengonçadamente. — Perfeita!
O sorriso que dou não deveria ser visto, mas ele me apanha no flagra assim que meu meus lábios se alargam e o corresponde.
– Entra... — Digo, envergonhada, fato, mas relaxada.
Acho que fantasiei tanto que ele não iria querer me ver mais, que tê-lo aqui é realmente confortador. Eu não quero Theo. Mas não posso perdê-lo também. Por algum motivo, gosto demais de sua companhia. E, embora, não nos conheçamos tão bem, não quero, de forma alguma, perder isso. É bom não ter apenas Tyler como amigo, poder contar com outra pessoa e se sentir tão... Bem. E caramba, ele me viu nua, sem contar outras coisas... E continuo o querendo por perto. Mesmo não querendo!
Preciso parar de repetir isso para mim. Se eu já sei que o quero por perto, tenho que parar de pensar o oposto. Porque só me deixa ainda mais bagunçada.
Theo caminha para a sala e se acomoda no sofá maior. O nosso sofá...
– Você quer beber alguma coisa? — Ofereço.
– Não, estou bem. Obrigado!
– O que tem nessa caixa? Mais peças para minha gaveta de roupas íntimas? — Coro assim que acabo de falar. Péssima escolha de palavras.
Me sento ao seu lado, mantendo um lugar de distância.
– Na verdade, não é para você. — Ele sorri. — Espero que não fique chateada, mas eu tomei a liberdade... — Ele mesmo abre a caixa em seu colo. — Lembra quando estávamos... Tomando banho... — Ele me olha, com aquele sorrisinho malicioso que tanto gosto. Quando não estou com raiva.
– Eu me lembro. — Digo, sem desviar os olhos da caixa, mas muito envergonha só em pensar no momento.
– Eu te contei sobre a minha babá e os brinquedos.
– Certo...
– Eu precisava de algo ontem, algo que estava ainda embalado nas minhas caixas da mudança. Então, enquanto procurava, encontrei isso...
Ele tira um dinossauro de pescoço longo de dentro da caixa e depois outro, menor.
– Oh... São esses?
Ele concorda e então continha a tirar mais deles.
– Parecem novos. — Estudo eles, bem de perto.
– Não tive a chance de usá-los muito. E esse... — Ele pegou um boneco, de super-herói, ainda na embalagem. — É novo. Não poderia só dar coisas velhas, não é?
Pisco várias vezes, confusa.
– Eu estou achando que você está me dando brinquedos, exceto que você já disse que não são para mim. Então...?
Será que ele acha que estou grávida?
– Liam... Será que ele gostaria?
Meu coração se aperta. Como ele pode ser tão maravilhoso?
Não penso direito, tiro a caixa de seu colo, deixando na mesinha de centro, e me lanço sobre ele, abraçando-o com força.
– Obrigada! — Digo, ainda o prendendo em meus braços.
Theo corresponde minha demonstração de carinho, abraçando-me de volta, apertado. E é bom.
– Acho que isso é um sim...
– Sim! Ele certamente vai adorar!
Mas a emoção que me cerca não é pelo presente. É o gesto dele.
Liam é uma grande parte da minha vida e o interesse dele e carinho significam muito.
– Se tivesse descoberto mais cedo que esse é o caminho para fazê-la se grudar a mim...
Sorrio involuntariamente.
– E não é sempre? Conquiste a criança e terá o adulto?
– Oh, esse é o macete?
– É o que dizem...
Então seu nariz está em meu pescoço, acariciando.
– Senti sua falta noite passada.– Ele sussurra e um arrepio passa por meu corpo. Um dos bons, que desperta-me.
– Também senti a sua. — Claro que minha coragem em dizer essas palavras, se deve ao fato de não ter que olhar em seus olhos. — Sinto muito por estragar a noite...
– Não estragou, linda!
Theo quebra o abraço, me afasta o suficiente para me encarar, mas ainda tem um braço em volta da minha cintura.
Seus olhos castanhos tem um brilho diferente, e ele parece... Feliz.
– Eu vou beijá-la agora, tudo bem?
– Ok...
Mais que ok! Eu preciso disso. Desesperadamente.
A mão livre de Theo alcança meu rosto e percebo como senti falta disso. Temos ficado nessa dança maluca por um tempo, tocando, acariciando, beijando... Não pensei que sentiria falta. Achei que me sentiria era em paz. Grande engano!
Ele acaricia minha bochecha e então meus lábios com o polegar. Nossos olhos não deixam o do outro. E então seus lábios alcançam os meus.
Um selinho, então ele suga o lábio inferior, e o superior...
O primeiro beijo sempre é lento. Como se ele me esperasse estar sintonizada para continuar. Mas eu o alcanço rapidamente, e seus lábios se tornam mais exigentes, obrigam os meus a dar passagem para sua língua. E então a intensidade toma conta. Bocas coladas, corpos grudados, quase que querendo se fundir.
Eu não me lembro de querer tanto alguém em qualquer momento da minha vida. Ou de não querer. Não me recordo de ficar tão perdida assim.
Seu braço deixa minha cintura e sua mão meu rosto e segundos depois, tenho minha bunda apertada com força e isso me traz para a realidade.
Me separo dele, ofegante, e empurro suas mãos para longe, voltando para o meu lugar no sofá. Mas Theo me puxa de volta. Encostando meu rosto em seu peito, enquanto minhas pernas ficam sobre o estofado. Inclusive o sapato!
Farei faxina assim que ele partir, mas, no momento, aceito esses braços quentes e reconfortantes à minha volta.
Não falamos nada. Sinto que não há necessidade, na verdade. Ficamos nos olhando, trocando sorrisos e carícias. Toco seu rosto uma vez ou outra, sentindo os pelos da barba me cutucarem, ele segura minha mão e acaricia, ora a palma, ora as costas. Me faz até cafuné em certo momento. Estou no paraíso.
Me lembro de Terry mais cedo, falando aquelas coisas. Eu não quero estar em um relacionamento com Theodor, mas acho que isso já não importa mais. Meu desejo por sua companhia, minha admissão de quanto senti sua falta e o desejo de senti-lo me tocando, já tornaram o relacionamento real.
A grande dúvida agora é, como eu deveria agir? Não sei ser uma namorada. Ou uma amante. Ou até mesmo uma ficante. Mas eu posso ser uma boa amiga. Eu acho.
Será que aceitaria isso?
Agir como amigos, mas ter opções abertas para mais. Seria essa a descrição perfeita para nós?
Se bem que eu não faço a menor ideia se ele quer isso. Estou tirando todas as conclusões que meu cérebro surtado me deixa, mas não estou levando em consideração sua opinião, realmente.
– Você parou... — Olho para ele e então para nossas mãos entrelaçadas e às costas da minha erguida, virada para mim.
Os arranhões são antigos, as casquinhas já começam a cair. Quase uma semana sem cutucar essa parte do meu corpo. Um recorde.
– É... — Separo nossas mãos e ergo as minhas, deixando-as lado a lado e estudando.
– Isso é ótimo. — Ele se inclina, só um pouco, e toca minha testa com seus lábios. — Não está com frio?
Frio... Nem me lembro o que é isso. Tá, eu lembro. E conforme a tarde está seguindo, começo a sentir a queda de temperatura.
– Um pouco.
Ele me aperta mais.
– Você deveria colocar uma roupa mais quente.
– Em breve. — Não quero perder o momento.
– Eu preciso ir...
Ah! Não, não, não!
– Está bem...
– Mas eu não quero.
Eu o entendo. Não quero que ele vá. Está tão bom...
– Que horas é seu voo?
– Às 22 horas. Será que está reconsiderando o convite? — Seus olhos até brilham pela esperança.
Nego, e vejo a decepção voltar. Isso machuca. Não gosto de ver Theo menos que feliz. Se pudesse, o faria sorrir, o tempo todo. Mas não posso.
Não quero que ele se sinta responsável só porque dormimos juntos. E acho que ir com ele é fazer justo isso. Quero que ele vá embora e volte por saudade e não por responsabilidade. Não que isso seja o que ele está sentindo, mas eu suspeito que sim.
– Bem... Estarei de volta no domingo. Se possível, antes. — Ele deixa os lábios sobre minha testa por um momento. — Preciso ir agora, linda...
Me separo dele e sento ao seu lado, ele segura meu rosto entre suas mãos e encosta sua testa na minha. Me estuda sério, por um longo tempo, então me beija. E nada de ser gentil agora. Me beija com paixão, acendendo meu corpo todo, e então se afasta.
Está me torturando...
Ele fica em pé, alisa a roupa e me estende a mão.
Nós caminhos em silêncio até à porta. Ele tentando não demonstrar o quão chateado está em me deixar para trás, o que é muito querido, e eu tentando não passar por cima do que já decidi e segui-lo.
Mas no fim, minha decisão fica firme e após outro beijo, cheio de paixão e intensidade, ele me dá às costas e vai embora.
***
Termino de esfregar o sofá quando é quase sete da noite. Estou tão desanimada. Nem para fazer faxina estou servindo. Passei as duas últimas horas limpando só o sofá.
Rendimento zero!
Decido que estou cansada demais para continuar. Nem guardo os produtos, só deixo tudo na lavanderia, espalhado pelo chão.
Eu deveria ter ido com Theo. Sinto-me uma boba por não me aproveitar mais das oportunidades da vida. Teria sido ótimo passar um tempo com ele... No fim, nem mesmo perguntei para onde ele ia.
Tranco a porta da lavanderia e vou para cozinha. Estou com fome, mas sem coragem de cozinhar. Essa semana eu não fiz meus potinhos de comida. Eu deveria estar embarcando com Tyler agora, não aqui...
Pego uma maçã na geladeira e a devoro em minutos. Depois checo as janelas, pego o celular, minha garrafa de água e a caixa de presentes. Apago as luzes de baixo e vou para o segundo andar. Para meu quarto.
Deixo o celular e a garrafa na penteadeira e coloco a caixa no criado mudo, para que eu possa olhar um pouco mais depois. Tentar saber mais sobre Theo a partir de seus antigos pertences.
Vou pro banheiro, deixando o roupão caído no chão. Terei muito tempo para tirá-lo dali no feriado.
Retiro as peças íntimas e deixo no chão também. Acho que essa é a minha forma de ser cruel comigo mesma, já que eu me sabotei de ter um bom momento. Sofro para recolher as peças e deixar tudo em ordem, mas não o faço.
Deixo a água do chuveiro bem quente e entro embaixo. Eu deveria lavar o cabelo, depois fazer uma escova e passar todos os meus cremes apropriadamente. Mas não quero fazer isso agora. Tenho tempo . Nada programado para amanhã. Ou para o fim de semana. Ou para o próximo mês.
Muito tempo livre e ninguém para dividir. Porque Theo pode voltar no domingo e ter mudado de ideia sobre mim. O fato de eu ter negado estar com ele, pode ter aberto espaço para que ele estivesse com outra mulher. Ou outras. Acho que ele aguentaria facilmente mais de uma...
Desligo o chuveiro e me enxugo. Saio do banheiro e dispenso a toalha no chão mesmo, vestindo um camisão de manga comprida e uma calçola.
Estou confortável e isso, de certa forma, representa segurança. E solidão.
Acendo o abajur e apago a luz do quarto, então me enfio embaixo das cobertas. Está cedo, dormi bastante e não tenho sono. Mas o que mais há para fazer?
Não quero ficar só... Mas empurrei todos aqueles que poderiam estar comigo. O que isso diz sobre mim?
Que eu sou uma perdedora...
Pego o celular, tentada a dizer ao Theo que mudei de ideia, mas a coragem não vem, então apenas digito algo diferente.
“Animado com a viagem?”
Ele não responde de imediato. Deve estar saindo de casa, se já não saiu. Ele disse que era às 22 horas seu voo. São quase oito, de acordo com meu celular. Pego minha garrafa de água e dou um gole, depois a deixo no lugar e volto a fazer vigília em meu aparelho.
O celular apita e abro a mensagem imediatamente.
“Nem um pouco! Mas muito ansioso pelo retorno...”
O sorriso bobo que se abre em meu rosto deixa claro que eu estou apostando demais em Theodor. Esperando que ele cumpra todas as promessas não ditas, mas que pairam sobre essa pré-ralação, muito complicada.
Penso no que responder, mas outra mensagem chega.
“Você já está deitada. Ou será que saiu?”
Como ele sabe...?
“Você está aqui?”– Envio.
A resposta chega rapidamente..
“A caminho do aeroporto, acabei de passar na frente de sua casa. Tudo escuro...”
Ele não precisava passar aqui na frente, o aeroporto fica para o outro lado... E isso só faz meu coração dar pulinhos. Me sinto como uma boba.
Uma boba e feliz criança apaixonada.
Oh, deus! O que eu estou pensando? Apaixonada? Claro que não!
Encantada seria uma melhor definição.
“Já estou deitada. Dia cansativo.” – Envio. E me arrependo.
E se ele parar de falar comigo para me deixar descansar?
“Posso te ligar antes que durma?”
E ele precisa perguntar? É claro que precisa, Diana, você deixou bem claro ontem que a invasão dele não é bem-vinda!
“Eu gostaria...” – Respondo, com a ansiedade fazendo meu estômago embrulhar.
E o celular toca e o nome dele aparece no visor.
Atendo.
– Oi... — Minha voz soa rouca.
– Oi... Como você está?
– Bem... — Não tenho assunto. Minha ansiedade não me deixa pensar em algo decente para dizer. — E você?
– Ansioso para o fim de semana acabar logo.– Ele diz, quase repetindo suas palavras da mensagem. – Tem certeza que ainda está ficando?
Oh, céus! Que vontade de dizer que não quero ficar. Mas eu não posso fazer isso agora. Em cima da hora...
– Sim, ainda estou ficando.
Ele suspira do outro lado.
– Estou contando as horas para voltar... - Eu também...
Me dou conta de que nem mesmo sei para onde ele vai.
– Para onde você... — Paro de falar quando escuto um barulho alto no andar de baixo. Primeiro penso ser em casa, depois na rua. Então escuto de novo e, tenho certeza, é aqui mesmo.
– Dia? - Ele chama.
– Alguma coisa caiu no andar de baixo. — Digo a ele e empurro as cobertas das minhas pernas.
– Como assim alguma coisa caiu?
E de novo, mais alto dessa vez.
Muito barulho para ser um ladrão. Tyler não está mais aqui, seu voo já deve ter partido. Terry saiu da cidade depois do almoço, e de qualquer forma, nenhum deles tem a chave.
– Barulhos lá embaixo. Eu vou checar.
– Como assim checar?– Sua voz está tensa. Ele está bravo.
– Eu acho que é o maldito gato do vizinho de novo. — Digo, com muita certeza sobre isso. Eu fechei tudo lá embaixo, mas não olhei as janelas aqui de cima. O maldito pode ter entrado e decidido explorar minha casa.
– Dia, me escuta. Se tranca em algum lugar e me espera. Estou indo.
Sorrio pelo oferecimento. Me sinto quase uma donzela em perigo. Só que não tem perigo!
– Relaxa Theo, é o gato. Eu fechei tudo antes de subir. Um ladrão não faria tanto barulho!
Coloco minhas pantufas e abro a porta do quarto. Caminho pelo corredor, na ponta do pé.
– Diana! Por favor...
– Shiii – Digo a ele. — Você vai me fazer espantá-lo... Vou pegar esse bicho no pulo...
Vou em direção à luz que vem das escadas. Alcanço o fim do corredor e começo a descer os degraus, mas então paro, me lembrando de um importante detalhe.
Eu apaguei as luzes antes de subir.
– Theo...– Só consigo dizer isso quando um arrepio toma conta do meu corpo. Sinto-me gelar por dentro.
– Inferno, Diana!
E quando abro a boca para dizer a ele, então eu vejo meu invasor. Ele não tem quatro patas e definitivamente não é um dos meus amigos.
O homem parado nos pés da escada, usa uma calça desbotada, coturnos e uma jaqueta com capuz, que cobre parte de seu rosto.
– Ah, meu deus! — Deixo escapar, ainda com o celular no meu ouvido, escutando a voz do Theo do outro lado, mas sem conseguir entender suas palavras.
Me viro para correr e a escada nunca pareceu tão longa.
– Socorro! — Eu grito, tentando voltar para meu quarto, mas sinto uma mão grande se fechar em meu calcanhar, me puxando para baixo.
Caio sobre os degraus, sentindo uma dor forte em minha testa, seguida por uma vertigem forte, e minha voz falha ao tentar pedir ajuda.
O pânico toma conta de mim. O homem segura minhas pernas e me puxa para baixo. Tento chutá-lo e gritar, mas o som não sai. Já as lágrimas são outra coisa. Caem em abundância.
Não consigo me livrar dele. Não sei se está armado, ou qual sua intenção. Mas boa não deve ser, já que ele precisa me atacar dessa forma.
Eu não sei de onde isso sai, mas eu estou pronta a lutar pela minha vida sem importar o quê.
Ainda tenho o celular em minha mão e me viro para ele, acertando o aparelho em sua mão e então em seu rosto. O homem solta um urro e me deixa ir por tempo suficiente para que eu consiga ficar em pé. Taco o aparelho nele e corro para o quarto, tranco a porta e fico perdida.
O que eu faço?
Oh, meu deus, oh, meu deus!
Olho em volta. A janela. Eu posso gritar por ajuda, ou pular...
Mas então algo surreal acontece. Eu escuto a tranca voltar... E a maçaneta desce, lentamente, como se eu visse tudo em câmera lenta. Então a maldita porta está aberta, a janela é longe demais...
E eu vou morrer... Meu deus!
Corro para o banheiro, fecho a porta atrás de mim e uso meu peso para mantê-la fechada, uma vez que a fechadura não vai segurar nada. E o primeiro empurrão vem com tudo, quase derrubando a porta e eu junto, mas consigo apoiar meu pé na parede e usar meu corpo para segurar. E outro empurrão, ameaçando quebrar-me ao meio.
Empurro meus pés com força contra a parede do banheiro, agradecendo mentalmente pelo cômodo ser estreito, o que finalmente veio a calhar.
Junto todo autocontrole que eu não tenho. Lutando para ficar sã e não ceder. Ele não pode entrar!
Tantas casas nessa vizinhança maldita e tinha que ser justo a minha?
Então os empurrões param e eu quero acreditar que o homem foi embora.
Por favor, por favor...
Mas então a porta vem com força contra mim, me lançando para frente, quase chocando-me com a parede, e braços fortes me pegam por trás, impossibilitando-me de usar minhas mãos para me defender.
E o medo me governa.
Eu sei que estou perdida.

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