À flor da pele

43 Que bela noite!


Notas iniciais
Opa galerinha, olha que rápida que estou ultimamente, né XD Boa leitura!!

Diana

Não teve waffle para o café, estávamos mais atrasados do que imaginamos.

Amy esperava na frente de casa, para levar Theo ao trabalho. No fim, depois de muita insistência, coisa que nunca pensei em ver Theo fazer, eu acabei indo com eles.

Amy não falou nada o caminho todo. E isso me deixou apreensiva. Ela já me odiava, aparentemente, e agora tinha lhe dado um motivo de verdade para isso. As coisas não caminhavam nada bem.

Uma batida na porta me tira do meu momento de distração.

Estou na minha sala, no escritório, cheguei cinco minutos atrasada hoje. Janine nem disfarçou seu espanto. Mas, pelo menos Terry não viu isso, o que me livrou de ter que inventar uma desculpa.

Mentir para Janine é uma coisa, mentir para Terry é outra. Essa mulher parece sentir o cheiro da mentira de longe.

– Pode entrar. — Digo, incapaz de levantar. Ainda estou dolorida.

Theo me deu um comprimido de manhã. Ele disse que era para gripe e está ajudando com a dor também, mas ela continua lá, insistente.

Terry entra e sinto meu corpo gelar momentaneamente. Ela está com cara de poucos amigos. Mas não me preocupo isso, e sim com os olhos de águia dela, que pousam sobre mim.

– Adorei a roupa. — Ela diz.

Minha amiga fecha a porta, então senta de frente para mim.

Me sinto nervosa. Coloquei um vestido de inverno hoje, preto, gola alta, manga comprida, até a altura da metade das coxas, uma meia calça de lã e um casaco comprido e pesado por cima. Não é exatamente meu estilo para o trabalho, mas foi a peça que mais cobria meu pescoço. Estou tão feliz que amanhã será o último dia, ou teria que sair para fazer compras.

– O que foi? — Pergunto, me sentindo mais calma e sentando ereta. Terry não diz nada sobre o pescoço ou o atraso.

– Me sinto culpada. — Ela diz apenas.

Hoje Terry não colocou maquiagem e seu rosto está pálido. O terno branco que usa não ajuda a amenizar isso. É incrível como nosso estado de espírito fica mais que óbvio em nossa aparência. Roupas, maquiagem, tudo colabora.

– Você matou alguém? — Pergunto, tentando fazê-la sorrir. Mas não funciona.

– Aquele gordo maldito foi me procurar ontem. Eu me senti tão mal! Uma traidora por ter ficado com o Fabrício na festa.

– Patrick... — Corrijo, mas ela ignora. Ou será que era Fabrício mesmo e eu é que estou enganada?

– Ele me levou flores, disse que ainda me ama e sempre vai. Ele parece empenhado em consertar as coisas... E isso me deixa péssima!

– Você contou a ele?

Ela nega.

– Terry... — Penso bem em minhas palavras antes de soltá-las, não quero a magoar. Mas nem sempre dá pra passar o recado sem o fazer. — Ele te traiu... Você o deixou por isso. Não estão mais juntos. Por que a culpa agora? Estava tão radiante ontem...

– Ontem Garry não tinha ido até minha janela, caído de joelhos embaixo dela e pedido perdão.

Ai, que mulher difícil!

– E a sua mãe? O que ela achou disso?

Terry morde o lábio e então sorri.

– Ela jogou um balde de água fria nele, fiquei morrendo de dó, estava tão frio...

Tento não rir. Sem sucesso.

– Não me contou da reunião na casa do Harold. — Mudo de assunto, para não desabar em risos.

Ela sorri.

– Ele é simpático. O Junior cansou rapidinho de andar conosco, enquanto ele mostrava a propriedade, e acabou ficando para trás. Aproveitamos para conversar. Ele falou da ex. Estavam noivos há uma semana quando a pegou com o personal.

Ai!

– Então vocês passaram a manhã se lamentando um para o outro?

– Hey! Eu disse que ele falou sobre a ex! Tá! — Ela revira os olhos — Acabei falando do Garry também. E quer saber, descobri que sou ótima em escutar e dar conselhos amorosos. Só não consigo é fazer a coisa certa quando o assunto sou eu.

– E será que rola algo? — Ignoro a última parte de propósito. — Você estava animada antes. — Incentivo.

Ela nega.

– Só estávamos flertando, Dia. Um flerte amigável e quando ficamos sozinhos, ele nem rolou. Mas vamos tomar café depois do feriado. Ele parece ser um cara legal. É bom ter mais amigos.

Concordo com ela, mas, no fundo, estou torcendo para passar disso. Ela merece ser feliz.

– E você? Como foi a noite? Arrumou as malas para a viagem? Viu o gatão?

Droga! Pegou todos os pontos fracos de uma vez.

Eu acabei não pensando muito sobre Tyler. É difícil se concentrar nisso com essa sensação incomoda entre as pernas, que só me deixa lembrar do Theo. E não quero falar com ela sobre ele.

– É, já arrumei. Passei a noite verificando se não esqueci nada. — Mentira das grandes!

Eu não quero dizer a ela que levei um chute na bunda do meu melhor amigo. Contar que fui deixada para trás implica em muitas outras perguntas e uma delas é: Por que ele fez isso?

Essa não posso responder.

– Vai ser divertido. — Ela diz e então levanta. — Mamãe e eu vamos para um spa. Ela conseguiu isso de ultima hora. Acha que se eu ficar aqui cairei no feitiço do Garry de novo.

Acho que a mãe dela está certa!

– Depois nos falamos mais, preciso me atualizar no projeto do Hoen.

Terry ficará encarregada do projeto que estou lidando, uma vez que estarei de férias. Achei que ela seria uma boa substituição. Minha amiga tem bom gosto e talento, acho que pode agradar mais ao cliente chato do que eu. Especialmente porque esse lado flertador dela faz as pessoas ficarem mais relaxadas e isso faz as coisas fluírem melhor.

– Ok. Até mais tarde.

Ela sai, me deixando com algo para pensar. Tyler.

***

Eu procuro o cartão do tal Dr. Müller quando chego em casa. Não acho. Talvez isso seja um sinal, quando finalmente decido ligar, isso acontece.

Eu poderia ver naquele e-mail que Ty me mandou, mas não sei... Talvez seja realmente um sinal.

Decido que vou deixar isso para depois do feriado. Quando eu estiver destruída por passar tanto tempo só, e desesperada pelo meu amigo. Talvez chegar ao fundo do poço, como imagino que vá acontecer, seja um bom incentivo.

Me sento no sofá. Pensando no dia de hoje. A volta para casa foi estranha. Theo disse que me buscaria, mas ele não estava lá. Não ligou, não mandou mensagens e eu não o procurei também. Talvez esse seja seu jeito de dizer que já deu. Ele conseguiu o que queria e fim.

O que é ótimo, porque eu não estou atrás de um relacionamento.

Ou não deveria estar.

Decido esquecer tudo. Preciso me distrair.

Vou para lavanderia e tiro minhas roupas, deixando-as no cesto, visto um roupão e então presto atenção em uma colcha branca, que estava em minha cama ontem.

Ela está dobrada em cima da máquina e consigo ver uma macha clara em cima dela. Mínima, rosada, e eu sei exatamente o que é.

A vergonha me domina. Theo viu isso. E mais, ele tirou enquanto eu dormia e até tentou limpar...

Se ele tinha alguma dúvida sobre nossa noite...

Me afasto da colcha, lutando contra a vontade de levá-la para fora e colocar fogo. Nesse momento, esse pedaço de pano representa toda a vergonha que eu sinto. Como olhar para o Theo agora? Será que ele tirou foto?

Ele não seria capaz. Seria?

E o peito começa a doer. Estou hiperventilando.

Me sento no chão, com tudo girando. Tento me concentrar em respirar devagar, mas só consigo pensar no Theo.

O que ele deve achar de mim agora...

Ele nunca mais vai pisar aqui de novo. E isso me incomoda. Indevidamente.

A campainha toca, ecoando pela casa. Esse é um outro problema desse lugar. Ela funciona quando bem entende. E agora deveria ser o momento de colaborar e ficar em silêncio.

Me levanto e saio da lavanderia. Fecho bem o roupão e vou para a porta, onde abro só uma fresta e espio o portão.

Fico surpresa por ver Amy parada em frente à minha casa, com uma sacola na mão. Ela sorri e acena. Abre o portão e entra, sem convite.

– E aí? Você não me esperou!

Abro mais a porta e nem tenho tempo de convidá-la para entrar, ela passa por mim e estuda o corredor, então vira para a sala, como se estivesse em sua casa.

Fecho a porta, feliz por me livrar da corrente fria que entrava.

– Oi... — Digo, quando ela senta no meu sofá e tira os sapatos, os deixando de lado, e apoia os pés na minha mesa de centro.

O choque toma conta. Que modos são esses?

– Oi! Você deveria ter me esperado, só atrasei dez minutos! — Me cobra.

– Não sabia que devia esperar... — Me aproximo, sentando no sofá de frente para ela. A mulher bonita à minha frente ainda usa seu uniforme, no entanto, desabotoado na parte de cima. O cabelo loiro não está mais preso em um coque, está solto em volta do seu rosto, caindo, ondulado, por seus ombros.

Amy é bem bonita, e isso é um pouco intimidante. O que ela veio fazer aqui? Dizer para me afastar de Theo? Tão clichê!

A loira deixa a sacola a seu lado e se inclina, pegando o controle. Liga a TV e coloca em um canal de esportes.

Não bastasse essa atitude, ela mexe na sacola, que descubro guardar um fardo de cerveja. A garota tira uma e me oferece.

– Não, obrigada. — Digo gentilmente. A surpresa não me deixa ser grosseira.

Ela abre a cerveja, sem nem limpar a parte metálica de cima, e leva aos lábios.

Oh, céus! Que nojo!

– Onde... — Começo, cheia de incerteza. — Cadê o Theo?

– Em reunião. E estou sem as minhas chaves de casa, ficaram no carro que deixei pra ele. Posso ficar esperando aqui? — Ela finalmente se incomoda em perguntar.

– Claro. — Não! Vá embora aberração! Não acredito que ela não limpou a lata! E nem lavou a mão ao chegar da rua!

– Será que tem algo pra comer?

Oi? Meu deus, o que essa mulher quer? Ela nem me olha enquanto fala comigo, está vidrada na tela da TV.

– Pizza de ontem...

– Ótimo! — Ela diz, finalmente me encarando.

– Eu vou pegar... — Digo.

– Eu me viro. — Ela declara, ficando em pé. — Pode ir tomar seu banho, preparar o jantar, pentear o cabelo, sei lá! Finja que não estou aqui. — E finalmente me oferece um sorriso. E é bonitinho. Quase esqueço que ela bebeu direto da lata sem limpar. Mas não! Esse será um fato que sempre virá a minha mente quando me lembrar dela.

– Tá... — Fico em pé. — Vou tomar banho então. Fique à vontade. – Mas nem tanto...

– Valeu! — E com isso ela deixa a sala. Eu fico um minuto a mais, tentando me recuperar. Até que me movo e vou para cima. Meu feriado promete ser agitado. Vou limpar cada canto dessa casa. Me esquecer de Tyler e tirar com qualquer evidência que outra pessoa esteve aqui. Especialmente os pés de Amy em minha mesinha de centro.

Entro em meu quarto e encosto a porta. Então vou para o banheiro, querendo me limpar. Me sinto suja. Cada movimento que faço, e sinto o incômodo entre minhas pernas, só piora tudo. E me lembro da colcha.

Sinto-me um pouco fora do controle.

Respiro fundo, várias vezes, tentando me acalmar. Ligo o chuveiro e me enfio no box.

A água quente aquece meu corpo, mas não me livra da sensações ruins. Ela estão fixas em mim. Me controlando e desesperando.

Abro o frasco de sabão e despejo em minha mão, esfrego minha pele com vontade, para me livrar dessa sujeira invisível que me consome.

Me lembro de Theo mais cedo, e isso não ajuda. Só piora. Faz com que me sinta mais suja onde ele me tocou. Meu peito dói, minha mente está uma bagunça e estou tão cansada de sentir tudo isso.

Uma batida na porta me assusta. Nem tenho tempo de pensar antes que ela se abra e um dos motivos do meu desespero apareça. Theo abre o vidro que nos separa e me estuda. Tento me cobrir com as mãos, já que ele está tampando o local que a toalha se encontra.

– Oi, linda! — Ele diz sorrindo, mas tem algo diferente. O sorriso não alcança seus olhos. E minha raiva momentânea não me deixa perguntar.

– Oi.

Essa mania dele de ultrapassar os limites mínimos está me irritando. Qual o problema em bater na porta? Nós transamos, não casamos! Por que ele tem essa necessidade de ficar invadindo meu espaço?

– Você não parece bem. — Me diz. O que ele espera que eu responda? Nem tomar banho eu posso mais!

– Nem você.

Theo não olha para meu corpo, ele olha em meus olhos. E isso é a única coisa que não me deixa expulsá-lo daqui.

– Estou bem. — Ele diz — Sinto muito por não te buscar, a reunião demorou mais do que eu esperava.

Concordo e então ficamos em silêncio, apenas nos encarando.

Não sei mais o que dizer, não acho que ficar dessa forma seja legal... Está frio e isso é muito vergonhoso.

– Posso me juntar a você?

E minhas bochechas ficam quentes. Muito quentes.

Nego, sem realmente erguer a voz.

– Tudo bem... Muito rápido?

Concordo. E ele dá uma passo para trás, fechando o box.

– Tá... Vou usar o outro.

Será que Theo pretende dormir na minha casa de novo? Será que ele acha que vamos transar?

Espero ele sair do banheiro, então saio do box e tranco a porta. Mais ou menos... A fechadura está com defeito, um empurrão já a faria abrir, como se não tivesse empecilho algum. Mas o simples ato de, tentar, colocar barreiras entre nós, já me acalma.

Volto para baixo do chuveiro, escorregando para o chão e abraçando meus joelhos. Me deixo, por um momento, ser tomada por todos os sentimentos angustiantes que me rodeiam. E as lágrimas vêm, e a dor no peito se intensifica e então muda, o ar parece não chegar mais nos lugares certos e eu me sinto afogando dentro de mim mesma.

O desespero me abraça, como um reencontro entre amigos. E estou tão familiarizada com essas coisas. Tão acostumada que chega a ser... Normal. E é nesse ponto eu percebo algo importante.

Eu não estou bem.

***

Não sei quando tempo fico no chão do banheiro, só sei que quando finalmente decido levantar, meu corpo dói. Minhas pernas, o centro delas, meus braços, meus olhos, minha cabeça. Tudo está um caco. Estou destruída e tudo que desejo nesse momento é sair desse cômodo e perceber que estou sozinha em casa.

Eu só quero isso, ficar só. Ficar em paz e não me sentir mais dessa forma tão bagunçada. Não quero mais sentir vergonha e nem tamanho desespero.

Me seco, sem pressa e então me enrolo na toalha. Assim que deixo o quarto, me vejo em outro furacão de emoções.

Está bem frio e começo a tremer automaticamente. Mas isso só dura até a culpa tomar conta.

Em minha cama, agora arrumada com lençóis trocados, um grande buquê de rosas descansa.

As flores tem vários tons de rosa e, ao lado do bonito arranjo, há uma caixa grande, dourada, com fitas brancas.

Meu coração dói por um momento. Me sinto idiota por desejar tão solenemente que Theo se afaste. Eu o quero perto.

Mas não quero.

Ai, meu deus, que bagunça estou!

Vou até o guarda-roupa, querendo colocar algo e me aquecer antes de abrir o presente.

Na porta do móvel, tem um cabide, e nele uma camisa branca, do Theo. Grudado no tecido, um bilhete.

“Use-me”

Respiro fundo, completamente perdida com a situação. Eu não sei se devo entrar nesse jogo, se devo pedir que ele vá embora e não volte mais...

Eu estou com medo de me meter em algo grande demais, onde não haverá controle algum por minha parte. Me assusta depender de outra pessoa. Não de Tyler. Eu estava acostumada com ele, mas Theo... Parece-me uma dependência diferente. Algo não saudável para mim. Porque envolve muito. Envolve meu corpo, minha mente, meu tempo, meus sentimentos... Não sei se estou pronta. Mas também não sei se quero afastá-lo.

Decido dar uma chance, porque a verdade é que não tenho mais forças para afastá-lo hoje. Eu não quero ficar só, não quero ter tempo para me perder de novo.

Visto a camisa que ele deixou e ela é larga e comprida, tampa bem minha bunda e parte das coxas. E tem o cheiro dele... Será que é a que estava usando?

Levanto o braço, cheirando o tecido, não tem mal cheiro.

Respiro fundo, tentando entrar no jogo de Theo. Mas é difícil. Se ele tiver me feito colocar algo sujo...

Encontro uma calcinha branca e a visto, pego uma calça de moletom branco e coloco logo em seguida. Então vou até a cama e me sento. Toco as flores de variados tons cor de rosa, apenas com a ponta dos dedos. Um sorriso escapa.

Pego a caixa e deixo sobre meu colo, então puxo o laço e destampo. Um tecido fino e delicado cobre alguma coisa. O tiro do caminho e encontro algo vermelho. Retiro com cuidado, ficando muito constrangida.

A peça é parecida com anterior. E um corpete e há laços em um de vermelho mais escuro dos lados. Há uma calcinha também. Uma tanga fio dental.

Deixo tudo de lado. faço um coque no cabelo, coloco minhas pantufas e saio do quarto. Assim que chego no corredor que dá nas escadas, sinto o cheiro bom. Ele está cozinhando, aparentemente.

Desço as escadas, ouvindo a voz de Theo, o que me faz imaginar que Amy ainda está aqui, mas não. Já na cozinha, encontro na mesa um notebook aberto. Theo na frente do fogão, com uma chapa de waffles e em seu lado um prato, com alguns prontos.

– Não posso lidar com isso agora. — Ele diz irritado e percebo o celular em seu ouvido, apoiado entre a bochecha e o ombro. Ele mudou de roupa, usa uma calça jeans, que deixa sua bunda muito atraente, e uma camiseta preta. Nos pés apenas meia.

Me aproximo da mesa e puxo a cadeira ruidosamente, para que ele saiba que estou aqui.

– Preciso ir, voltaremos a ter essa conversa quando eu tiver tempo.

Ele pega o celular e desliga tão logo acaba de falar, coloca no bolso da calça. Tenho certeza que seja quem for, não teve tempo nem de responder.

Theo se vira para mim e me estuda por um momento. Então volta sua atenção para o fogão.

Fico o observando acabar os últimos Waffle, então ele se aproxima e coloca o prato no centro da mesa.

– Waffle, como prometido! — Me oferece um sorriso gentil, no entanto, ele ainda está chateado. Parece ainda mais agora, depois de usar o celular.

Theo fecha seu notebook e o pega, saindo da cozinha. Ele volta minutos depois, com um saco de papel, de onde tira um vidro de manteiga de amendoim. Eu parei de comprar isso porque estava me rendendo muitas calorias a mais.

– Quer conversar sobre o que te incomoda? — Pergunto.

– Nada me incomoda. A não ser a fome!

Theo vai até a pia e pega uma garrafa térmica, que eu nunca vi aqui em casa antes. Ele deposita do lado dos waffles e vai ao armário, pegando duas xícaras, pratos e depois talheres. Ele conhece minha cozinha...

Então, para de frente a geladeira e retira um frasco de chantili, coisa que eu também não comprei.

– Que bom, você fez minhas compras! — Digo sarcasticamente.

– Sabe como é, adoro ir ao mercado lotado após um longo e exaustivo dia de trabalho. Isso faz bem para a alma!

O encaro cinicamente.

– Tudo bem, eu não fui ao mercado, pedi para Amy. Melhor assim?

– Claro, agora me sinto muito menos culpada por comer café da manhã na hora do jantar.

– Hei! — Ele senta de frente para mim. — Eu estou com desejo, ok?

Não respondo, reviro os olhos pela gracinha dele.

Theo enche as duas xícaras com café e então enche de chantili uma delas e me passa. Mas noto que ele não colocou açúcar...

Ele me serve de um waffle bem dourado, mais do que deveria, e abre o pote de manteiga de amendoim, empurrando ele em minha direção.

– Obrigada.

Posso dizer que Theo não está tão mal no que diz respeito a cozinhar. A massa do waffle está saborosa. E quando passo manteiga de amendoim por cima... O paraíso!

– Está bom? — Ele pergunta, enquanto coloca uma camada bem generosa da pasta em cima do seu waffle.

– Sim. Você não cozinha tão mal.

– Obrigado! Embora, Amy é que fez a massa antes de sair.

Sorrio com sua confissão. E depois me preocupo. Será que ela lavou as mãos?

Deixo pra lá isso. Ou tento. A companhia está muito boa para acabar a noite por causa de um detalhe. Theo vale a pena.

E odeio pensar isso! Quando estou perto de Theo, não desejo que ele se afaste. Só quero ficar perto e aproveitar a companhia, mas quando ele está longe, necessito, pelo bem da minha sanidade, que não se aproxime mais. Eu não gosto de me sentir assim, sempre confusa em relação a ele.

– Escuta — Ele começa, animado. — Jane me ligou de manhã, ela me disse que conseguiu uma passagem de última hora e está indo com Tyler para casa dos pais dele. — Suas palavras soam como um tapa na minha cara.

Não acredito que Tyler fez isso...

– O lugar dela está disponível... — Ergo os olhos para os dele. Tentando entender o que ele está dizendo, mas fiquei presa em Tyler traindo nossa amizade.

– O quê? — Pergunto, completamente perdida.

– Você deveria vir comigo, no lugar dela. Pode ser divertido.

Viajar com ele? É isso que Theo está dizendo?

Como posso pensar em viajar agora que descobri que meu melhor amigo me deu um chute na bunda, literalmente, por causa de uma mulher! E eu pensando que ele se importa comigo.

– Não é apropriado. — Digo, desviando o olhar do dele, tentando ficar longe da borda da insanidade.

– Isso é bobagem. E além do mais, alguns amigos estão indo junto. Adoraria sua companhia.

– Não, Theo... Não vou aceitar. — Digo sem paciência — Obrigada.

Ele me encara, visivelmente chateado e isso me causa uma pontada de culpa. Mas não posso fazer isso. Estou uma bagunça tão grande e continuar empurrando com a barriga não vai melhorar.

Ele concorda e ficamos em silêncio, desfrutando da refeição. Até que seu celular toca.

Ele suspira e tira o aparelho do bolso, olha o visor e então desliga. Fico quieta, sem saber como chegamos a essa situação. Ou bem ciente, na verdade. A tensão entre nós é tão desconfortável. Eu sei que estraguei tudo e nem mesmo foi ao recusar tão grosseiramente sua oferta.

Estou me sentindo estranha. Tudo parece acontecer ao mesmo tempo na minha vida. E não consigo acreditar ainda que Tyler me trocou... Maldito traidor!

Eu sabia que era sério o que ele e Jane tinham, mas ainda assim, aquela pontada de dúvida sempre aparecia quando pensava neles. No fim é isso, ele está mais que sério. E eu estou sozinha agora.

Quando acabamos de comer, Theo pede licença e começa a recolher as coisas. Leva a louça suja para a pia e começa a lavar. Eu guardo os waffles que sobraram e termino meu café, tinha açúcar no final. Muito, na verdade.

Não digo a Theo para deixar a louça, saio de fininho do cômodo, enquanto ele trabalha nela, e vou para o meu quarto.

Me sento de frente para a penteadeira e solto meu cabelo molhado. Uso o secador neles para passar o tempo.

Eu estraguei a noite. Estamos íntimos agora. De uma forma que eu não queria estar. Me sinto ligada a Theodor e não quero estar. Mas também não quero não estar. É confuso demais.

Olho para a cama pelo espelho, as flores ainda lá junto com o presente. Ele é tão... Especial. O que um cara incrível como esse vê em alguém como eu? Não há nada de bom em mim. Nada.

– Diana... — Olho para porta, onde Theo está parado. Desligo o secador e o deixo de lado. — Posso entrar?

Concordo, e ele entra.

Pego um elástico em uma das gavetas e prendo o cabelo em um rabo de cavalo.

Ele senta na cama e olha para a caixa de presente.

– Eu exagerei, não foi? — Pergunta, chateado.

Não quero que ele fique assim, minha vontade é de me aproximar e tocar em seu rosto, abraçá-lo e dizer o quão maravilhoso ele é. Mas eu não posso. Eu não quero criar mais laços do que já fiz.

– Foi. — Concordo, o que não é mentira. Isso tudo é incrível, mas é... Demais.

Saio da penteadeira e me sento na cama, com uma boa distância entre nós.

– Mas ainda é uma peça linda. — Acrescento. — Obrigada.

Ele me oferece um sorriso falso e concorda.

– Eu comprei alguns dias atrás. Achei que combinaria.

Essa declaração não ajuda. Não sei como levar suas intenções. Tudo que me vem a mente é que Theo nunca quis uma amizade realmente. E isso não é motivo para ficar chateada, já que tudo que ele fazia demonstrava isso. Mas eu fico, mesmo assim.

– Preciso ir. Você vai ficar bem?

Ir... Não quero que ele vá. Eu desejo ficar sozinha, mas não quero ele longe. Que confusão, Diana!

– Ok... — Tento não mostrar-me chateada, mas a nota de decepção que sai em minha voz não engana.

– Eu realmente preciso, ou não iria. — Sua mão vem para meu rosto, acariciando-me. — A propósito, você está linda.

Coro por sua palavras.

– Qual é a da camisa? — Pergunto, realmente curiosa.

Theo sorri, e dessa vez é de verdade.

– Era isso ou urinar em você. – Ele sussurra.

E eu entendo o que ele quer dizer! E... Gosto.

– Obrigada por não marcar território mijando então, eu realmente não saberia como lidar com isso.

– Eu imaginei. Por nada!

E escuto o celular dele de novo. Mas não está com ele, o som vem abafado do andar baixo.

– Eu tenho que ir.

Theo fica em pé e caminha para fora do quarto, e eu o acompanho. Quando estamos no corredor, ele pega o celular do aparador e recusa a chamada, de novo. Calça os sapatos que estão perto da porta, assim como sua bolsa de ginástica e uma mochila, que imagino ser onde está o notebook que ele estava usando.

– Você deveria tirar a manhã para descansar, invés de correr. Eu não deixei passar essas fungadas que anda dando.

Ele tira do bolso uma cartela de comprimidos.

– Para gripe. Tome, ok?

Concordo. Então ele se inclina e beija minha testa. E só...

Sinto uma ligeira pontada de desapontamento.

– Boa-noite, linda!

– Boa-noite, Theo. Obrigada por... Tudo.

– Eu que agradeço. — Ele diz malicioso e pisca. — Amanhã nos falamos, linda.

Concordo, e então ele se vai.

E essa é a deixa para a angústia me dominar.

Estraguei tudo!

Notas finais
E no próximo capítulo... TAM TAM TAM... Não posso contar, mas ó... Não posso contar ahahahahahah XD Até lá o/ PS: os wafers/waffles do Theo: http://thumbs.dreamstime.com/t/waffle-com-manteiga-e-mel-de-amendoim-25284831.jpg Bj bjs