À flor da pele
14 Laços que duram
Notas iniciais

Diana
– Me conta quem era...– A voz de Tyler interrompe meu adorável sonho com um mundo feito de algodão doce. - Vamos fofinha...– Sinto seus lábios tocarem minha bochecha.
É cedo, posso dizer pela luz que entra no quarto e o silêncio na rua. Abro meu olhos o máximo que o sono e preguiça me permitem. Me viro e acho Jane sentada na beira da cama e Tyler deitado atrás de mim, me encoxando. Felizmente por cima da coberta.
– Você tá de brincadeira, né? — Me sento, procurando o relógio. São sete da manhã. Não acordo nesse horário nem para trabalhar.
– Vamos, Di, minha gatinha manhosa... Conta, quem era ele?
Bem que estranhei Tyler me deixar em paz depois do banho ontem e não perguntar sobre meu encontro.
– Ninguém que seja da sua conta. — Eu digo. Encaro Jane. Ela parece mais feminina. Ah... já sei o porquê... Ela usa uma camisola minha. Uma rosa, cheia de babados e que eu nunca usei. E aposto que ela não encontrou a peça sozinha.
Decido ignorar, afinal, já estraguei as coisas com o irmão dela ontem. Estragar tudo com um Blake é o bastante para mim.
– Bom-dia! — Ela diz baixinho, como se estivesse com vergonha. Ela nunca me pareceu reservada assim antes, mas talvez porque nós nunca tenhamos passado tanto tempo assim juntas. Eu sei que quase não nos vemos, mas, se levar em consideração meu relacionamento com outras pessoas, que não seja Tyler, isso é bastante tempo ao lado de alguém.
Ela não tem aquela pintura forte nos olhos hoje. Até parece uma mulher normal. E bonita.
– Bom-dia! — Respondo a ela, animada. Mas não estou de verdade. Acho que a animação é resultado da culpa por ontem.
Theo não me mandou mensagem ontem à noite. Duvido que ele mande alguma de novo.
Eu pensei muito no que aconteceu. Muito mesmo, passei boa parte da noite acordada. Eu estraguei tudo. Agi feito uma criança. Eu tive que me controlar para não ligar para ele, implorando pelo seu perdão, mas, eu cheguei a uma conclusão:
Eu sou um problema.
– Você tem que se arrumar! — Tyler anuncia.
Encosto na cabeceira e percebo, tarde demais, que Tyler usa apenas uma boxer azul. O cabelo está arrumado. Cheio do que quer que ele use para fixar aquele topete. Isso é um pouco vergonhoso. Eu já o vi em roupas íntimas. Ele não tem pudor nenhum para andar dentro de casa, mas diante de Jane parece tão errado.
– Meu deus, Tyler, são sete da manhã, por que eu me arrumaria às sete da manhã de um domingo? Não sou devota de nada e não vou à igreja. Você tá maluco? É um ataque de ETs ou apocalipse zumbi? — Me sinto mal por falar tão despreocupadamente sobre temas que de ontem. É como se eu mantivesse fresco o estrago ao verbalizá-las.
Jane sorri e me lembra vagamente o sorriso do Theo.
– Isso é algo que Theo diria! Você se daria bem com ele. — E eu não sei?
– Pois é... — Tyler, cruza os braços. — Você por acaso não saiu com o Theo ontem, saiu?
O que fazer, o que fazer, o que fazer?
– Hein? — Tento parecer chocada. — Claro que não, quando no mundo que um cara lindo daqueles olharia para mim? Só com sua intervenção essas coisas acontecem, Tyler, e o resultado nunca é bom. — Explicação demais. E pior... Mentira! Desde quando eu minto para o Tyler?
Ele me estuda e então abre um sorriso.
– E você só sai com idiotas! — Ele acrescenta. — Com todos os defeitos que o Theo tem, ele conseguiu sair dessa categoria. — Ele não acreditou no que eu disse, só está fazendo cena para Jane agora.
– A maior prova sobre os idiotas, é que até hoje eu saio com você.
Jane estala a língua e começa a rir.
– Mas não de uma forma romântica. — Me apresso a dizer a ela.
– Você tá lesada essa manhã, Di.
Ty levanta e vai em direção à porta.
– Estamos saindo para comprar as fantasias. Se arrumem, peruas!
E então ele deixa o quarto e fecha a porta, com Jane e eu dentro.
Olho para a mulher de cabelos curtos e olhos grandes, usando minha roupa. Ela não desvia o olhar do meu. Isso é incômodo.
– Comprar fantasias às sete da manhã de um domingo?
Ela dá de ombros, e fica em pé.
– Ele disse que conhece um cara, que conhece outro cara e que conhece outro, ou outros caras. — Ela revira os olhos – E um desses caras, vai abrir a loja, antes de ir à igreja, para nós. A missa começa às 9 horas e ele pediu para chegarmos em meia hora para não se atrasar.
Meia hora?
***
– Puta que pariu, Diana! — Acordo com a voz irritada de Tyler. Cochilei sentada. — Levanta, sua maluca, estamos atrasados!
Tudo parece meio confuso por um momento. Estou na minha casa, no meu quarto, na minha cama. Mas, nada que meus olhos veem faz sentido, até meu cérebro acordar.
– Oh, me deixe dormir! Escolha algo para mim. — Digo, ainda tentando entender como funciona tudo a minha volta.
Me deito e cubro a cabeça.
– Não! — As cobertas são puxadas, me deixando apenas de pijama ali. Me encolho.
– É domingo, Ty!
O abusado está em cima de mim, tentando me pegar no colo.
– Exato, Diana infernal, não vamos conseguir ver isso durante a semana.
Luto com ele, tentando alcançar seu topete.
– Você não vai me deixar escolher nada mesmo, por que não vai sozinho traz algo a seu gosto? É uma ótima oferta!
Sua mão fria alcança a pele da minha barriga e ele me belisca.
– Seu insuportável! — Tento beliscá-lo também.
– O que é isso?
A voz de Jane nos faz congelar. Olhamos para ela, já com seu uniforme negro e a cara deformada. Ou maquiada, como ela deve, provavelmente, pensar.
Tyler a encara, então me olha e volta a tentar me erguer.
Reparo que ele está arrumado agora. Jeans escuros e camisa xadrez, preta e azul, com as mangas dobradas até o cotovelo.
– Maldito, Becker! — O idiota consegue se levantar comigo no ombro. — Eu vou comer seu cérebro!
– Manda ver, queridinha!
Fico tonta ao ver o chão acima da minha cabeça. Ou seria abaixo?
– Não se atreva a fazer isso! Eu preciso fazer xixi!
– Tyler! — Essa é a voz da estranhona, vem de algum ponto que não posso identificar. — Isso é demais. Deixa ela em paz.
– Calem a boca, agora, as duas. Vocês vão de qualquer jeito!
– Tyler! — Grito, ao mesmo tempo que Jane.
Ele para e me desce, me fazendo cair de bunda no chão.
– Eu odeio você! — Digo a ele. Jane me ajuda a levantar.
– Eu que odeio vocês! Odeio mulher. Bicho maldito, maluco, só serve pra comer!
– Oh... — Jane, em pé ao meu lado agora, cruza os braços. — Nem para isso mais, pode ter certeza!
– Olha, quanto drama! — Ele diz emburrado.
Troco olhares com Jane. Aposto que está pensando em como ele é que é o dramático. Finalmente alguém no mundo que me entende.
– Dormir? — Ela pergunta e concordo. Ela aponta para escada e começo a subir, ela vem logo atrás.
Tenho de morder o lábio para não rir tão abertamente da cara de tacho do Tyler. Quando estou quase no topo, eu olho para a mulher atrás de mim e a vejo se virar para ele e lhe oferecer o dedo do meio. Isso é demais, acabo rindo.
Vou para meu quarto e paro na porta.
Jane sombria para na minha frente.
– Você quer que eu vá embora? — Pergunta gentilmente.
Nego. Eu quero na verdade, mas ela foi muito legal agora.
– Não, você pode ficar à vontade.
Escutamos a porta de baixo bater com força. E lá se vai Tyler.
– Que bom, eu preciso dormir! — Ela diz – Ele acordou por volta das 5 horas da manhã e incomodou um milhão de gente pelo telefone, até ter esse acerto pronto. Claro que nesse tempo, eu não consegui dormir nada.
– Esse é o Tyler! Mais incômodo que cólica! — Eu comento e ela concorda.
Silêncio, um pouco desconfortável.
Jane começa a andar, continua pelo corredor e para na porta do quarto de hóspedes.
– Bom descanso. — Ela me deseja.
– Para você também. — Entro no meu quarto e fecho a porta. Minhas cobertas estão no pé da cama e eu preciso muito me aninhar nelas e dormir um bom par de horas.
Tiro a calça do pijama, que encostou no chão, e a lanço em qualquer ponto do chão. Nem paro para olhar, só me deixo cair na cama e puxo as cobertas.
***
Quando sinto o peso sobre minhas pernas, eu me obrigo a despertar para o próximo round.
– Sai, Tyler! — Digo sem olhar para ver quem é.
O peso muda e vejo meu melhor amigo se deitando ao meu lado. Ele ainda está vestido e pelo Sol que entra pela janela, se passaram algumas boas horas.
– Você está brava? — Ele pergunta. O topete ainda perfeito.
– Muito! — Me afasto um pouco. — Você vai me pedir desculpa?
Ele nega e sorri.
– Nunquinha mesmo. Mas admito que você poderia ter ficado dormindo. Eu trouxe uma fantasia linda. Assim que o cara abriu a loja, eu a vi e soube que ela precisava ser sua.
– Nova?
– Não, desculpe. Mas ele me garantiu que foi alugada apenas duas vezes. Eu vou deixar na lavanderia amanhã cedo.
A verdade é que nem estou mais zangada. Eu só consigo pensar em uma coisa quando não estou dormindo. No jantar que estraguei. As bobagens de Tyler são facilmente esquecidas quando me sinto culpada.
– Você conseguiu descansar? — Ele me pergunta. Parece calmo demais para ser ele.
– Sim. O que você tem?
Tiro minha mão direita de baixo da coberta e levo meus dedos a sua testa, para ver se ele está com febre. Não que eu saiba ver...
– Sono? — Ele sugere.
Rio. Claro que é sono. Taí alguém que fica pior que eu quando não dorme e pelo que Jane falou, ele acordou bem cedo.
Descanso minha mão sobre o travesseiro entre nós.
– Eu gostei da Jane. — Conto a ele. — Ela não parece mais tão estranha.
– “Tão” — Ele revira os olhos. — Ela é legal, Di. Só dê uma chance.
Concordo.
– Então, é sério entre vocês? — Por algum motivo, essa pergunta me parece realmente importante. Tyler nunca me apresentou nenhuma garota antes. Trazer em minha casa então...
– Oh, claro! — Ele diz debochadamente. — Tão sério quando eu possa ser.
Mas suas palavras não parecem certas. Eu acho que ele mente para si mesmo. Tenho acompanhado Jane entrar em sua vida. Primeiro como a irmã de um amigo. Depois como a irmã pegável do amigo. Nos últimos seis meses ela ganhou um nome e embora eu já o tenha o ouvido anos antes, em situações diversas, acho que nunca com tanta frequência e com a palavra “sexo” envolvida. Eu o vi evoluir no quesito envolvimento e relacionamento e ele parece nem se dar conta disso.
Machuca um pouco saber que algo que sempre foi seu, de repente, não é mais. E não digo isso como se eu fosse sua dona ou ele um objeto. É só que... Por anos foi apenas Ty e eu. Ele nunca trouxe seus romances para dentro de casa, depois daquela cena do Natal. E eu nunca fiz questão de mantê-lo realmente por dentro dos meus encontros e namoros. Só... Não parecia certo.
Nós nos adotamos como companheiros e isso foi levado muito a sério, por ambos os lados. Mas, de repente, essa sensação de que as coisas já não são mais as mesmas começa a surgir. Eu não acho que eu poderia apenas seguir minha vida e me esquecer de Tyler. Ele nunca será aquele amigo que fico anos sem falar e um belo dia reencontro e matamos a saudade relembrando as coisas antigas. Eu não acho que seja desse tipo para ele também.
Nós somos família.
Eu só me pergunto até onde esses sentimentos são realmente mútuos.
– Qual é a fantasia? — Pergunto ao perceber que estamos em silêncio, nos observando. Não é algo constrangedor. Acho que é mais normal do que qualquer outra coisa. Vira e mexe eu me vejo distraída o olhando, estudando seu rosto e percebendo a diferença que os anos causaram.
– É uma surpresa.
Estreito os olhos. Surpresa nunca é algo bom quando o Sr. Becker está envolvido.
– Não me diga que eu vou vestida de prostituta!
Ele ri.
– Não! Que péssima ideia você faz de mim, hein! É algo inocente e belo.
Sua mão vem para minha bochecha, a alisa lentamente.
– Eu preciso do convite. — O cobro e ele revira os olhos.
– Eu te dou o meu. Mas aquele lindo cartão a mão, vai ficar comigo.
Toco a sua mão na minha bochecha e belisco.
– É meu, foi dado para mim!
– Ele é meu agora queridinha! Ninguém mandou esquecer.
– O que você vai fazer com um convite, pessoal, não dado a você?
– Acho que vou copiar a letra dele... — Ele pisca. — Tem uma assinatura em baixo, posso roubar cheques dele e assinar.
Ele poderia mesmo. Me lembro de um caso assim, quando mais novos, mas a vítima foi um tio dele.
– Eu não vi assinatura nenhuma, porque eu não tive a chance de ler o convite todo.
– Já era, flor, contente-se.
– Pelo menos escaneia ele.
Ele se senta na cama.
– Isso eu posso pensar em fazer.
Meu amigo fica em pé e vai para perto da penteadeira, de frente para o espelho, alisa o topete, como se colocasse fios, imaginários, no lugar.
– Escuta, vou deixar Jane na casa dela e voltar para minha. Preciso lavar roupa, não devo ter nem cuecas limpas mais. — Ele se vira para mim. — Que tal me acompanhar e me ajudar? Minhas roupas nunca foram tão limpas desde que parou de lavá-las.
É, eu lavava as roupas de Tyler. Não voluntariamente. Ele costumava esconder peças sujas nas minhas, para que eu as lavasse sem perceber. Mas, quando eu me toquei desse fato, comecei a conferir peça por peça e deixar as dele de fora.
– Não mesmo!
– Amiga, cada dia você tá mais egoísta. — Ele se aproxima da porta e a abre. — Se mudar de ideia me liga, faço questão de vir pegá-la.
– Não vou mudar. Tchau!
– Tchau, maluquinha!
E com isso ele deixa o quarto. Fico escutando o movimento na casa, até que ele deixa o lugar.
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