Notas iniciais
Oie! Aqui está a segunda parte do capítulo de ontem. Boa leitura!

Diana

– Você está bem? — Terry me pergunta, quando estamos descendo para a garagem do prédio, no final do dia.

– Estou... - Não estou, mas não vou dizer a ela. Essa é uma amizade cheia de limites e eu não pretendo quebrá-los. — Eu preciso ir... — Meu deus, como isso é difícil! Me sinto indo para a forca e não para o médico.

Não me sinto assim com a Dra. Lana.

Passo pela ginecologista a cada nove meses para checar meu implante anticoncepcional no braço, mas não me sinto nervosa. Claro que, a ginecologista é tipo um milagre para mim, quase uma deusa que merece adoração. O implante que ela me sugeriu, e agora uso por 2 anos, não me deixa menstruar e essa é a melhor parte da minha vida. Então... Acho que sou suspeita por usar isso como parâmetro de comparação. Mas eu adoraria me sentir relaxada na consulta de hoje. Seriam tão simples se eu pudesse ver o tal de Dr. Müller, que Tyler marcou, como a minha médica ginecologista.

– Eu tenho um compromisso agora. — Me obrigo a ser firme, coisa que na realidade está bem longe do meu atual estado. — Eu te vejo mais tarde.

Entrego a chave de casa e a do meu carro para ela.

– Eu te levo e espero. — Ela diz e isso me causa um pequeno ataque momentâneo. Se ela vier vai saber. Não quero dividir isso com ninguém.

É vergonhoso...

– Não... — Ela fica me olhando, a espera de algo a mais. — É aqui perto. Não há necessidade.

– Você tem um encontro? — Ela sorri maliciosamente.

Um encontro com a morte, só se for. Pelo menos é dessa forma que eu me sinto.

– É... Ginecologista... — Digo sem desculpa melhor. Acho que isso e aceitável, certo? É médico também... Então, eu tecnicamente não menti...

– Você está grávida? — Ela se encosta no carro e cruza os braços. Não posso nem me imaginar grávida. É algo totalmente não natural para mim.

– Não! É só exame de rotina. Você já fez esse ano?

Ela nega.

– Bem, te darei o número da minha médica depois. Você tem que ir, é importante.

Ela sorri.

Ok, mãe!

Nos despedimos e sigo para fora. Hoje está friozinho, minha escolha de roupa foi boa, mas eu bem que poderia ter pego um casaquinho mais quente.

Ando as cinco quadras que separam o tal consultório do meu trabalho. A cada passo a ansiedade vai aumentando mais e minha mente pensando seriamente em deixar Tyler partir e seguir sua vida.

Que pensamento horrível!

Até mesmo eu, tenho limites. E abrir mão do Ty por algo tão estúpido está fora dos deles. Por enquanto...

Paro na frente do prédio e entro. Tem um segurança e um porteiro. O senhor mais velho, que está na recepção, prontamente me olha.

– Boa-tarde! — Ele diz sorridente. É um homem de meia-idade, careca, mas em forma. Usa óculos grandes e uniforme cinza. Eu sempre quis viver em um prédio. Um que houvesse um segurança, ou porteiro, uniformizado e que todas as manhãs ele abrisse a porta para mim, me oferecesse um sorriso gentil e então eu lhe perguntaria sobre sua família.

Como nos filmes, sabe? Mas a verdade é que isso não é para mim. Não posso me imaginar apertando botões de elevadores, que todo mundo aperta, diariamente. No trabalho, geralmente há um senhor nos elevadores que faz isso.

– Tenho consulta com Dr. Müller.

O porteiro pede minha identidade e nome. Faz um crachá "descartável" e me entrega. Imagino quantas pessoas não devem ter tocado nesse material... Duvido que seja realmente descartável, aposto que reaproveitam.

Tudo se reaproveita nesse mundo hoje em dia.

Coloco no bolso o pedaço de plástico e vou para o elevador, lamentando não ter alguém lá para apertar os números.

Me concentro em respirar devagar. Me manter calma. Não é fácil seguir em frente.

Eu posso fazer isso.

Posso fazer isso e depois esfregar na cara do Tyler.

Ouço o celular tocar quando a porta do elevador abre. Deve ser Tyler para checar. Não acredito que terei de pegar meu celular dentro da bolsa depois de apertar o botão do elevador... Contaminar meus pertences...

Mas o faço, só porque esse bobão precisa morder a língua!

Alcanço o celular, ao mesmo tempo em que, entro na sala. A mulher da recepção me encara e oferece um sorriso. Faço-lhe um gesto com o celular, para avisar que só vou atender antes, e fico na porta.

Não reconheço o número. Deve ser quem ligou mais cedo.

– Alô? — Digo, um pouquinho ansiosa demais.

– Diana?

Tem aqueles momentos na vida da gente, em que contamos uma mentira e pensamos que vamos sair ilesos. Para sempre. Mas, um belo dia, aquela mentira volta com tudo e bate à sua porta. Te pegando totalmente desprevenido, e te dando aquele choque, que torna impossível negar sua mentira. Seu semblante te denúncia, sua voz te denúncia, seu corpo te denúncia. O universo conspira contra você!

Eu me sinto dessa exata forma ao ouvir a voz de minha mãe do outro lado da linha.

– Eleonor, como vai? — Minha mãe nunca gostou de ser chamada de "mãe". Isso a faz se sentir velha. E faz eu me sentir feia. Ela é uma mulher tão bonita que me sinto acabada ao seu lado. Claro que, no caso dela, é resultado de muitos tratamentos que a deixam melhor que qualquer mocinha da minha idade.

– Escute, por que não atendeu ao telefone mais cedo? — Ela pergunta. Sua voz é sempre tão dura e áspera.

– Estava em uma reunião. — Saio da porta da sala e vou para o corredor.

– E não tem assistente? Diana, quantas vezes eu preciso repetir? Consiga seu espaço! Você tem talento, precisa de voz. Ter autoridade e dizer o que você quer é fundamental na vida. — Seu tom fica mais pesado. Ela está brava. Mas não é como se eu pudesse exigir uma assistente só para atender as ligações dela... Em que mundo ela vive? — Nós, mulheres, precisamos lutar pelo nosso espaço. Será que não consegui te ensinar nada sobre isso em todos esses anos?

Oh, meu deus! Aí está ela! Isso é tão intimidante. Eu me sinto com 15 anos de novo, pronta a levar uma varada na mão se responder de forma errada.

– Desculpe, Eleonor, você tem razão. Terei isso em mente.

Foi difícil aprender certas coisas com ela, quando qualquer passo em falso dava direito a um tapa estrondoso e dolorido, ou palmadas e outras ideias que ela tinha de castigo, prestar atenção na lição se torna secundário.

Eu não posso dizer que minha mãe é ruim realmente. Acho que ela é um reflexo da educação que teve. Assim como eu, mas no meu caso, acho que aprendi mais a mentir que a fazer qualquer outra coisa. Fingir estar bem para não levar outra...

– Ótimo. — Ela suspira. Parece entediada. — Escute, eu estou ligando para informar da minha agenda. Estarei passando o Natal contigo. Julie e Liam irão comigo, precisamos apenas nos organizar com as passagens e então lhe aviso o dia e horário que precisa nos buscar.

Reparo que isso não é um pedido. Ela nunca pergunta, ou sugere, ou qualquer coisa que não seja apenas dar uma ordem.

– Isso é ótimo! — Isso é péssimo! Sinto vontade de chorar. Eu a vi no feriado de Páscoa, pensei que demoraria mais tempo até o próximo encontro.

Minha família não é próxima. Já fiquei por quase um ano sem ver minha mãe, apenas nos falamos, uma ou duas vezes ao ano, por telefone. No ano passado eu soube que ela havia se casado de novo porque vi sua foto em uma revista. A verdade é que, eu nem sei qual o sobrenome que ela usa agora. E não fiquei nem um pouco chateada por não ter sido convidada para o casamento, ou informada. Casar já não é algo especial para ela, é meramente um produto que ela negocia.

– Perfeito, podemos fazer uma viagem, talvez. Aproveitar suas férias.

Como é que ela sabe das minhas férias? Meu deus! Ela deve ter ligado para empresa...

– Oh... — Vacilo por um momento. — Eu pensei justamente em te ligar de noite, para contar das férias, só fiquei sabendo ontem. Sabia que ia gostar.

Eu não ia contar, de jeito nenhum! Seria um segredo que iria comigo para o túmulo, em relação a ela.

– É mesmo? — Diz com desdém, nenhum um pouco disfarçado. — Eu descobri por mim mesma e estou feliz do mesmo jeito. Finalmente um tempo para passarmos juntas.

– É... — Sinto aquele lanche de mais cedo se agitar em meu estômago. Acho que ele está começando a voltar... — Será ótimo...

– Como você está?

Isso é estranho! Como eu estou? Quem é você e o que fez com minha mãe?

Eleonor tem duas épocas distintas na sua vida. Com meu pai e sem Ren.

Com meu pai as coisas eram mais normais, no entanto, todo esse... Controle, sempre esteve presente. Nesse tempo, de fato, ela perguntava como estávamos e até ganhei alguns beijos algumas vezes. Depois do Ren? Nada! Era como se a sua alma tivesse sido sugada de seu corpo. Seu alto controle estava lá, mas seus sentimentos pareciam ter sido enterrados com o falecido marido. É por isso que evito julgá-la.

Apesar da infância difícil que tive, eu sei que muita coisa que aconteceu foi inspirada por sua perda. Eu tento ser gentil a respeito disso, ser centrada e não deixar a raiva e mágoa me dominar.

– Bem, obrigada... E você...

– Era só isso. Manterei contato. Passe bem, Diana. — Ela desliga.

E é isso. Essa é Eleonor, minha querida mãe.

Desligo o celular e olho para a sala. A moça da recepção tem a bolsa no balcão. Ela está no telefone. Provavelmente só me esperando entrar e dizer o que quero.

No dia em que minha mãe decidiu ser mais presente em minha vida, as coisas mudaram drasticamente. Ser educada à sua maneira dura, no tempo do meu pai, não foi fácil. Mas foi muito pior depois de sua perda. Ter alguém, que não se deixa sentir coisas, disposta a tomar suas dores e resolver seus problemas, tomar as rédeas da situação... Bem, foi um pouco traumático.

Lembro que eu estava na minha terceira consulta com o meu terapeuta, Eleonor invadiu a sala em que eu estava. Ela ficou tão zangada que eu estivesse ali. Eu admito que a culpa foi minha também. Meu pai me levou ao médico, sem que eu precisasse, e eu deixei e mantive segredo disso. Aposto que foi Julie quem contou, mas ela nunca admitiu... E sinceramente? Eu não precisava de um, estava bem, muito bem na verdade. Mas depois desse episódio...

Eu nunca vou esquecer quando apontou para mim e disse “Filha minha não é doente, não precisa de médico. Você não tem nada!" — Ela me arrastou para fora do consultório e me curou. À sua maneira, é claro.

Segundo ela o meu problema era falta de vergonha na cara..

Ela fez da vida do meu pai, que me mandou para o médico em primeiro lugar, um inferno. Ela sempre teve essa opinião de que homens se escondem atrás de tudo. E que foi o que ele fez. Assumiu que eu estava doente, para não ter que agir como pai, preferiu me mandar para terceiros.

Quando você cresce tendo uma visão tão negativa do sexo masculino, é difícil conseguir fazer amigos e mantê-los. Eu havia acabado de conhecer Tyler e ele ficava repetindo que tinha algo errado comigo. Meu pai dizia o mesmo. E o namorado de Julie...

Um mundo de homens, onde só eles estão corretos e tudo que pensam é certo e tudo que fazem é perfeito. — Ela repetia, dia após dia, como parte de seu próprio tratamento para mim. Surpreendo-me até hoje que minha amizade com Tyler conseguiu se desenvolver nesse cenário...

O que minha mãe diria se soubesse que eu estou aqui agora? Diria que eu fui dominada pelo sexo frágil, que se acha o forte? Que eu só preciso passar uma temporada com ela?

Domínio sobre sua vida, domínio sobre quem você é. Essa foi a lição mais importante que ela me ensinou. Pelo menos é o que ela diz sempre que pode.

Talvez Tyler esteja certo. Eu posso entender um pouco do seu lado. Mas se atravessar essa sala agora, eu posso estar a caminho de começar uma guerra com a única pessoa no mundo, que eu não quero que fique tempo o bastante para isso.

Dou meia volta e entro no elevador. Sinto minha bochecha aquecer e uma lágrima fria escorrer por ela. Passo a ponta do dedo, apagando seu rastro.

A pior parte? Eu sei que Tyler não blefou e que eu colherei o que estou plantando. Mas, assim como Terry, eu estou atada a laços fortes. Mais fortes e destrutíveis do que um amigo com raiva e magoado pode entender. Com o tempo, talvez ele possa me perdoar. Mas nesse momento, eu não tenho forças para ir contra a correnteza.

Eu prefiro decepcioná-lo agora, que dar um motivo a ela de ficar em minha vida. Porque ai sim, eu estarei destruída.

Notas finais
E ai, meninas, já foram ao ginecologista esse ano? É muito importante ir ao menos uma vez ao ano, viu? E para quem não conhece esse método anticoncepcional que a Dia citou, é o implante subdérmico. É uma hastezinha que é colocada por baixo da pele e dura 3 anos. Depois de um tempo com ele, as regras param, mas, de vez em quando há um escorrimento. Mas isso já é melhor que o normal, né? XD Próximo capítulo, adivinhem o que terá... Bj bjs