À flor da pele

38 Distraia-me


Notas iniciais
Oi oie =) Quem ai tinha pedido mais Theo e Dia? XD Boa leitura!

Theodor

– Você realmente sabe a definição de guarda-costas? — Amy retrucou no banco do motorista. Ela me lança olhares de ódio pelo espelho sempre que possível.

– Você está me deixando em um lugar e vai buscar depois. O que mais você quer?

– Oi? — Ela usa sua voz afetada, a que sempre significa “Agora você me irritou!”.

– Eu estou bem, Amy! Só vou passar a noite fora. — Assim espero.

– E eu preciso fazer a sua maleta. Eu não sou empregadinha doméstica, ok? Eu deveria cuidar de você e não da sua casa. Vazia. Por que não usa um dos seus bilhões e contrata alguém para fazer essas coisas.

– Você vai ter a noite de folga, por que reclama tanto?

– Folga? Que folga? Você me dispensou de segurança para ser doméstica!

Ela para o carro com mais brusquidão do que necessário.

– Hoje tem jogo! Puta que pariu, Theodor, a mulher mexeu com todos seus miolos! O que aconteceu com a nossa noite dos caras?

– É só um amistoso, Amy, larga de drama!

– Drama? Você diz isso porque a sua noite vai ser boa!

Já vejo a irritação.

Me solto do cinto de segurança e me inclino sobre o banco da frente, ficando com meu rosto ao lado do dela.

– Eu juro que mando mensagem para o Thomas não pegar no seu pé!

Ela grunhi. Sério, ela faz isso. Como um animal enjaulado.

Thomas e Amy nunca se deram bem. Na nossa adolescência, quando a convidei para a noite de jogo, foi o único a reclamar e o tem feito até hoje. Ele não se conforma de eu ter levado uma garota para a noite dos caras. Claro que, isso deve ser um péssimo sinal no que diz respeito à cabeça dele. Quem em sã consciência veria Amy como uma mulher? Ela tira meleca do nariz na frente dos outros, come com a mão, é praticamente um homem das cavernas. Imagino a reação da Diana se chegar a conhecê-la tão bem quanto eu. Ficaria, no mínimo, horrorizada.

– Patrick defenderá sua honra, eu juro! E você ainda pode dormir na minha cama.

Ela morde o lábio, segurando o sorriso.

– Sua cama é grande... Gosto dela...

E gosta mesmo. Ela reclama que a cama dela é pequena e sempre deixa seu apartamento, embaixo do meu, para invadir meu quarto. Mas não temos nada. É estritamente fraternal nossa relação. Geralmente quando ela está lá, os caras também aparecem. Qualquer coisa é motivo para comemorar, e como eu sou o único que vive sozinho é o meu apartamento que é usado. Eles estão sempre aparecendo sem serem convidados. Bagunçando tudo e causando caos na minha vida. No dia que levei Diana até meu apartamento, tive que fazer arranjos para que não aparecessem de surpresa.

– Mas deixem as coisas arrumadas. — Aviso. — Sério, quero minha sala limpa, Amy!

Ela ergue o dedão, dando-me um joia.

Me inclino mais e lhe dou um beijo estalado na bochecha.

– E traga minha roupa!

A vejo revirar os olhos no espelho.

– Sim, mestre!

Saio do carro e pego o saco de papel com algumas coisas que comprei no mercado. Estamos na frente do parque que fica perto de casa, mas do lado oposto que moro.

Atravesso a rua e vou em direção ao sobrado que Diana mora. As janelas ainda estão fechadas, mas pelo horário ela já deve ter chego.

Me sinto abusado por vir assim, sem avisar. E ainda mais por pretender ficar sem um convite. Talvez a coisa funcione, ou ela pode se sentir ofendida, quem sabe nem está em casa. Mas não posso mais esperar. Estava ansioso, elétrico, olhava o tempo todo para o celular. Não gosto de me sentir assim. Aliás, isso não acontece com frequência nenhuma. O que só aumenta minha curiosidade a respeito dela.

Me sinto atraído. Muito. E quero saber até onde isso pode ir.

Quando me aproximo do portão, percebo que ele está apenas encostado, assim como a porta, que tem uma fresta. O carro está na garagem, ela chegou. Mas a porta semiaberta... Algo dispara dentro de mim.

Empurro o portão e entro, escancaro a porta sem pensar duas vezes. Será um assalto?

– Diana?

Deixo o saco de papel cair e caminho pelo corredor. Quando estou próximo à sala, ela aparece. Com os olhos grandes, provavelmente surpresa. E pelo choro. As bochechas coradas e o rosto molhado me fazem pensar o pior.

– Está ferida? — Estendo minha mão até seus ombros e a puxo de encontro a meu corpo, olho em volta, a espera de alguém armado. Dúvida se gruda à minha mente. Se eu correr com ela e tiver alguém por perto, pode atacar. Mas se eu ficar e essa for a única oportunidade?

– O que faz aqui? — Ela me pergunta, mas não me olha, sinto seus braços rodearem meu corpo e me apertar em um abraço.

– Está machucada? — Pergunto de novo, mais baixo dessa vez, próximo a sua orelha, mas sempre olhando ao redor.

– Estou bem, o que faz aqui, Theo? — Sua voz está baixa, parece calma, mas não está.

– Tem alguém aqui? Te assaltaram? — Tento puxá-la para fora da casa.

– Theo! — Ela me empurra, mas não a solto. — Estou bem, acabei de chegar do trabalho, o que está acontecendo? Quem assaltou quem?

Deixo-me relaxar ao perceber que posso ter me equivocado.

– O portão estava aberto, a porta também e você está chorando. Tem certeza que não tem ninguém aqui? — Sussurro a última parte.

Ela não tenta me empurrar de novo, invés disso volta a me abraçar, me aperta com força.

– O Tyler deve ter deixado aberta, ele saiu há poucos minutos. Não o viu?

Suspiro, menos tenso. Não vi ele saindo, e prefiro assim.

– Ele machucou você?

Ela nega, fazendo cócegas em meu nariz com seu cabelo.

– Nós brigamos, só estou chateada. O que faz aqui?

Típico daquele idiota fazer mulheres chorarem.

– Queria te ver. — Admito, me sentindo um pouco tenso de novo. — Eu devia ter ligado antes...

– Tudo bem. — Ela responde de imediato, me cortando.

A abraço com mais força, encostando minha boca em sua testa e depositando um beijo. Sua pele está quente. Me lembro no mesmo instante de Amy me contando que ela tomou chuva. Será que ficou doente?

– Você está bem?

Não me responde dessa vez. Fica quieta por um momento, até que seu corpo começa a dar leves espasmos. Quase imperceptíveis. Ela está chorando de novo.

– O que aquele babaca fez?

A empurro em direção à sala e ela me acompanha sem reclamar, me solta quando estamos perto do sofá e a empurro para sentar.

– Já volto.

Saio dali e volto para o corredor, fecho a porta e recolho o saco que deixei cair, o coloco sobre o aparador e volto para ela.

Me sento ao lado de Diana e a puxo para perto de mim. Ela aconchega sua cabeça em meu ombro, ficando com seu nariz perto do meu pescoço, causando cócegas.

– Converse comigo. — Peço, preocupado com seu estado. Ela não está histérica como minha mãe e Jane costumam ficar quando estão chateadas. Diana só parece triste, e é de partir o coração essa visão.

– Estou bem... É só... Os hormônios.

Hormônios? Tipo TPM? Seria indelicado perguntar? Bem, melhor ficar quieto e me fazer de entendido.

– Tyler fez algo que te magoou?

Sua mão sobe até meu peito e se agarra ao meu terno. Ela nega, mas o choro volta com força.

– Diana, ele te machucou?

– Não! — Ela nega prontamente. — Foi o contrário... — E então vêm os soluços. — Ele nunca mais vai me perdoar.

Eu devo admitir que essa é uma situação inusitada. A mulher que tenho em meu peito, e que detém meu interesse, chora pelo namorado da minha irmã. Quão mais estranho isso pode ficar?

– Ele te contou da Jane? — Pergunto, me segurando para não perder a calma. Com a sorte que tenho com relacionamentos, é bem possível ter me interessado por uma mulher que gosta de outro. Mesmo que ela me corresponda tão ardentemente, talvez seja apenas seu corpo. Seu coração pode estar em outro lugar e isso é irritante. Especialmente porque o outro “lugar” poderia ser o Becker.

– O que... — Sua voz sai cortada.

– Você gosta dele, não é? Não como amigo. — Suspiro, chateado demais e quase me esquecendo de ser gentil com ela.

Isso é muito decepcionante. O que é que aquele cara tem que todo mundo cai de quatro por ele?

– Não, Theo! — Ela diz irritada. — Não o vejo dessa forma e nem ele a mim. Somos amigos e eu o magoei.

– Ok... — Será verdade? Eu nunca imaginei realmente que tivessem algo enquanto a espiava com Jane. Ela nunca pareceu interessada. Mas, mulheres são complicadas. Elas negam, negam, mas no fundo é sempre o contrário. — O que aconteceu então? Você foi contra eles viverem juntos e isso o magoou?

Ela se afasta de mim, me encara, com os olhos escuros grandes pelo que parece... Surpresa.

– Eles vivem juntos agora?

Concordo.

– Desde quando?

– Há quase um mês...

O olhar sério dela me incomoda. Eu já não sei o que pensar.

– Agora que sabe, está chateada e percebeu que o ama de outra forma? — Digo, me sentindo um pouco bobo, mas acho que é necessário deixar essa parte clara de uma vez por todas.

Ela faz careta e bufa.

– Não, Theodor, não! Eu não vejo Tyler dessa forma e não vou passar a ver só porque ele está com alguém!

– Tudo bem! — Digo e sorrio, mas logo fico sério, como o momento pede.

– Ele não me contou isso. Eu me sinto uma idiota por não saber como meu melhor amigo tem estado. Poxa, ele mora com alguém agora e eu não fazia ideia.

Diana se encosta no sofá. Ela abre a boca para dizer algo, mas não quero que diga. Suspeito que vá me mandar embora, já que não parece bem para receber visitas.

– Esqueça isso. — A interrompo. — Tyler não é normal, ninguém nunca vai entender o que o motiva a fazer o que faz.

Ela começa a negar com a cabeça, abre a boca de novo, pronta para protestar, mas não deixo falar outra vez. Me inclino sobre ela e faço o que desejei o dia todo. A beijo. Apenas um selinho, mas que me deixa feliz e mais relaxado. Senti falta dos lábios dela, de seus dedos tocando minha pele e de ouvir a sua voz.

– Eu sei o que vai te fazer sentir melhor. — Digo quando separo nossos lábios. Ela apenas me olha, com as bochechas coradas. Até disso senti falta.

– Theo... — Sua voz falha e acho que ela está se lembrando de sábado, quando nos beijamos e tocamos com tanto ardor.

– Vamos correr. Isso sempre me deixa bem. Me alivia o estresse do dia a dia.

Ela me olha incerta.

– Não acho que esteja em clima para sair...

– Bem, você que sabe. — Essa coisa de ser insistente nunca fez muito meu tipo. Eu pergunto, sim ou não resolve. Sem necessidade de insistência. Diana tem me feito mudar até nisso, pelo menos em ter vontade de insistir, mas nem sempre dou lugar ao que desejo. E dessa vez será assim também, sem insistência. Ela está tendo uma péssima noite e ainda tomou chuva mais cedo, deveria tomar um banho, comer algo quente e então dormir. Comigo. Obviamente.

Ela me estuda, então suspira e, enfim, concorda, justamente quando eu já havia desistido. Mas tudo bem, isso realmente ajuda.

– Vou me trocar. — Me oferece um sorriso, mas isso não muda o fato de seus olhos estarem vermelhos, e ela parecer estar na borda, pronta a se deixar cair em algum momento de pura agonia e maluquice, do jeito que só as mulheres sabem fazer.

– Coloque um moletom, um bem quente, está frio!

Ela morde o lábio e sorri, um pouco mais verdadeiramente agora.

– Claro, pai!

Se levanta e se afasta, usando as costas das mãos para secar as bochechas.

A observo se afastar. Seu rebolado bonito na calça preta e justa chama muito atenção.

Quando ela sai, pego o celular e envio uma mensagem para Amy, para que traga minhas roupas de corrida também. Até poderia passar em casa e pegá-las, mas aposto que os rapazes já estão por lá. E Patrick anda muito saidinho ultimamente. Ele não pode ver uma mulher que sua vergonha na cara parece fugir para bem longe. E ainda tem Thomas, que parece ter notado Diana bem demais durante a festa.

Amy responde com um xingamento minutos depois.

Deixo o celular sobre a mesa de centro e noto um envelope em cima dela. Eu sei que não deveria mexer no que não me pertence, mas a curiosidade às vezes fala mais alto.

Alcanço o envelope e o abro. Dinheiro e uma chave. Estranho. Mas o que me irrita mesmo é o que está embaixo do envelope. Um cartão.

“Doutor Müller, terapeuta ”.

Maldito Thomas!


Diana

Tiro meus sapatos e terninho, os deixo no banheiro. Deveria só trocar a roupa, mas estou com tanto frio. Então tomo um banho rápido, na água bem quente.

Quando termino, saio enrolada em uma toalha e vou em direção ao guarda-roupa.

Gosto de correr com roupas leves, mas hoje está muito frio, por causa da chuva que caiu de manhã, eu acho. Torço para que seja só uma frente fria e que logo passe.

Encontro uma calça preta de moletom e uma camiseta branca, depois preciso olhar em todas as portas até encontrar a blusa que faz conjunto com a calça. Ela é de zíper e até pondero sobre colocar uma camisa mais bonita por baixo. Talvez uma regata com corte em V, para não chamar atenção apenas para meu rosto inchado pelo choro.

Mas a verdade é que estou cansada. Emocionalmente instável demais para me preocupar com aparência.

Estou lutando para me manter razoável.

Se Theodor tivesse chego dez minutos depois, ele teria se assustado com o estado em que eu estaria. Eu lutei, o máximo que pude, para não pirar enquanto Tyler estava aqui. Ele está se afastando justamente pela minha falta de controle. Ter uma crise em sua frente não ajudaria. Até mesmo porque ele me deixou tendo um dias atrás.

Mas foi bom Theo aparecer. Me obrigou a manter o controle e não me deixar guiar pelos meus instintos... Doentios.

Doente...

Quem diria que algum dia eu iria me considerar dessa forma.

Não tenho certeza sobre isso, para dizer a verdade. Tenho esperanças de que seja só na cabeça de Tyler. Mas não posso mais negar que algo não está normal comigo. Não agora.

Eu não quero ficar sem o Tyler. Quero muito ir ao médico e conseguir ajuda, se necessário. Acabar com esse momento ruim que se formou entre nós e... Bem, talvez não seja uma boa ideia consertar as coisas tão rápido.

Tyler Becker mentiu para mim. Ele merece sofrer.

Não se faz isso com os amigos. Mas ele fez. Por um mês ele me escondeu que estava vivendo com Jane. O que torna oficial: nossa amizade já era.

Não importa o que digam, sempre será assim. Um novo amor sempre será o machado que destrói amizades.

Minha mente está uma bagunça. Quero gritar. Chorar. Passar o resto dos meus dias deitada em minha cama, só esperando pelo fim.

Eu deveria ter contado a Tyler que Eleonor estava vindo... Não devia ter escondido. Ele é meu melhor amigo. Tenho certeza que teria entendido.

Não, ele não teria! Definitivamente não teria. E nem sei se iria querer. Agora, com Jane em sua vida, não acho que tenha lugar para mim.

Isso me deprime. Eu não quero sair para correr. Quero me fechar em uma bola e ficar sofrendo pela droga que minha vida é. O que me faz me sentir culpada, porque na verdade tenho uma ótima vida. No final, eu sou uma mal agradecida. E doente.

Suspiro, tentando aceitar a minha situação. Lutando para me manter sã. Não aguentaria se espantasse Theodor agora por perder o controle.

Pego uma meia e me sento na cama, a vestindo. Depois disso me dou um momento para ficar calma. Não que isso resolva.

Meu melhor amigo não só me abandonou, como mentiu. E meu pior pesadelo está cada vez mais próximo.

– Droga! — Digo em voz alta, na tentativa de me sentir melhor. Dizem que expressar os sentimentos em voz alta causa uma espécie de alívio. O que é totalmente falho se levar em consideração minhas experiências.

Amarro o cabelo em um coque e saio do quarto de meia, desço e vou direto para a lavanderia, onde pego meu tênis. Quando vou para a sala, não encontro Theo. Volto para o corredor, pronta para subir. Vai que ele foi atrás de mim e acabou me esperando no quarto de hóspedes. Pouco provável! Mas não custa olhar.

Mas então a porta do banheiro de baixo abre e ele sai. Tem uma bolsa de ginástica na mão, e o terno deu lugar a calças folgadas e um casaco com capuz cinza. Nós pés ele usa um tênis de corrida que se parece com o meu.

– Pronta? — Ele pergunta e concordo.

Onde ele conseguiu as roupas? Tenho quase certeza de não ter visto nenhuma bolsa antes.

Mas isso não importa agora.

– Precisamos ir de carro. — Ele diz ao se aproximar, beija minha testa e vai para a sala. O sigo.

Theo deixa a bolsa ao lado do sofá e se aproxima.

– Pensei que íamos correr no parque.

Ele nega.

– Vou te levar em um lugar que gosto de ir. Não tem muitas pessoas, é tranquilo. Acho que você precisa disso agora.

Sorrio pela sua gentileza. Estou feliz por ele ter vindo. De verdade. Não sei como estaria nesse momento sem ele.

– Vamos? — Me oferece o braço, que aceito.

– Vamos.

***

Theo dirige meu carro. Ele disse que Amy o deixou mais cedo em casa. Me sinto mal por ela saber que estamos juntos agora. Que tipo de mulher levaria o cara que gosta para um encontro? Eu me sentiria péssima com a ideia.

E mesmo que Theodor diga que não houve nada, Tyler disse o contrário e ele não desmentiu na época. O que significa que agora não há, mas um dia houve. Será que Amy nutre algum sentimento por ele? Foi perceptível a cara de poucos amigos dela para mim na reunião que Jane fez na casa de Tyler, quinta passada.

Me preocupo com isso. Não quero ferir os sentimentos dela. Eu nem mesmo quero algo com Theodor. Não quero que ela tenha uma ideia errada.

Theo não conversa comigo durante o trajeto, ele fica em silêncio. Parece concentrado demais, até mesmo chateado. Mas, sempre que possível ele estica a mão e afaga meu joelho e esse simples gesto me deixa tranquila. Momentaneamente, pelo menos.

Reconheço o caminho que pegamos, passei por ele com Terry no sábado, dá na casa de Theodor, mas quando a mansão começa a ficar visível, ele vira e pega outra direção.

Ele não me ligou. Nem ontem, nem hoje... Eu não tenho certeza se deveria ter o feito também. Theo não parece o tipo de pessoa que espera pelos outros. Ele simplesmente faz o que quer e acho isso incrível nele. Mas isso também deixa uma dúvida. Se ele não me ligou, é por que não queria falar comigo?

Por que ele está aqui agora, então? Não o entendo algumas vezes.

– Chegamos. — Ele diz, parando em um enorme estacionamento.

As luzes do lugar estão acessas e logo acima de um enorme portal, mais a frente, tem uma placa. Troia, está escrito. Acho que ouvi sobre um lugar assim, mas não tenho certeza. Não sou de sair, logo, não conheço muito da minha cidade.

– Onde estamos? É um tipo de parque? — Pergunto.

– Isso. Você o viu da minha janela sábado.

– Oh... — O campo de golfe.

Theo sai do carro e dá a volta, para abrir minha porta. Ele me oferece a mão, que aceito, e me ajuda a sair. O frio toma conta do meu corpo. Já passa das sete horas, a temperatura caiu consideravelmente e, embora eu tenha tomado um remédio para dor de cabeça, antes de sair do escritório, sinto uma leve pontada ainda. E isso incomoda muito.

Minha mão é agarrada por outra, uma quente e macia.

Minhas mãos não são macias, tenho lá alguns calos de tanto esfregar meu chão em casa e pela forma que seguro a caneta de desenho no trabalho, mas a de Theo é. Isso é um pouco constrangedor, me sinto descuidada.

Passamos pelo arco, encontrando uma enorme construção, que parece um restaurante, e está cheio. Me chama atenção o número de colunas que há do lado de fora, me lembrando templos gregos.

Do lado de dentro da propriedade, logo depois dessa construção diferente, há vários carrinhos de golfe.

Um homem se aproxima de nós. E ele é grande. Muito grande. Alto, largo, careca, vestido de preto. O segurança, eu acho.

– Theo!

Minha mão fica livre enquanto Theodor abraça o homem grande, que é visivelmente maior que ele.

– Vince! Vejo que conseguiu manter seu emprego, mesmo com essa boca grande!

O homem ri ruidosamente.

– Essa é Diana. — Theodor diz a ele, então recupera minha mão e me puxa para perto. — Dia, esse é Vince, um amigo muito antigo.

– É um prazer, belezura! — Vince sorri, mostrando os dentes um pouco tortos. Ele me pega de surpresa ao se aproximar demais e me puxar para um abraço. Beija minha bochecha estaladamente.

Quando ele me solta, Theo me puxa para ele de novo.

– Bom conhecê-lo... Vince. — Minha voz falha por um momento, enquanto ainda estou atordoada. Acho que ele babou em mim!

– Você a assustou, gigante! — Theodor diz. — Já falei para estender a mão, cara. Esse tamanho todo já intimida o suficiente!

Tento dizer que não estou assustada, mas estou sim. No entanto, não pelo tamanho do homem, mas pelo gesto. Não estou acostumada com pessoas sendo tão íntimas assim. Quer dizer, tocar em outra pessoa é muito íntimo e pessoal, não se deve fazer isso sem a conhecer.

– Não seja estraga-prazeres! — Vince diz sorrindo.

– Vamos correr, onde está livre?

O homem se estica para alcançar o bolso traseiro e tirar um aparelho celular. Ele começa a tocar a tela.

– Buraco 11, 16, 17 e 18. Venham! — Ele fala e começa a andar até os carrinhos de golfe. Para perto de um deles. — Todo seu!

– Obrigada. Nos vemos! — Theo se despede.

– Claro, na próxima semana estou de folga, aquele jogo ainda está em pé?

– Evidentemente! — Theo diz animado. — Aquela maria machão não me perdoaria nunca se eu cancelasse.

Vince sorri largamente.

Eu não entendo o que eles estão dizendo, isso é chato. Não sei nada sobre o Theo e sua vida realmente. Me sinto invadindo um espaço que não deveria.

– Boa corrida, belezura. — Vince se despede.

– Ela se chama Diana. — Theo diz a ele.

– Belezura para mim. — Vince retruca, já de costas para nós.

Theo se volta para mim e mais uma vez me pega desprevenida quando seus lábios tocam os meus.

Se eu tinha alguma dúvida sobre ele ligar para aparências, elas foram totalmente deixadas de lado agora. O lugar está cheio e ele está me beijando, na frente de muitos olhos curiosos. E não é um selinho como antes, ele suga meu lábio com gosto e dá uma mordida de leve antes de se afastar.

Seu sorriso bonito aparece. Já falei o quanto adoro o sorriso dele? É perfeito.

– Hora de ir. — Ele me empurra lentamente, com seu corpo pressionado no meu. Seus olhos nunca deixam os meus, até que enlaça minha cintura e me para. Ele me conduz para seu lado e me ajuda a subir no carro pequeno, que não tem uma porta.

Theodor entra do outro lado e aperta um botão, fazendo o carro ganhar vida. Não há chave.

Ele conduz o veículo pequeno para fora do estacionamento e logo estamos em uma estradinha de pedra, que parece se estender pelas bordas da propriedade. Olho a nossa volta, o lugar é muito bonito. A grama é bem aparada, há vários arbustos cortados de formas artísticas e algumas árvores.

Passamos por várias pessoas andando com carrinhos de mãos, com sacos grandes e cheios de tacos em cima. Aos poucos, o movimento vai diminuindo e ele tira o carro da estradinha, deixando sobre a grama.

– Você sabe, poderíamos vir andando... — Comento.

A distância não foi grande e ainda poderíamos ter nos aquecido.

– Mas ai eu teria que cumprimentar muitas pessoas pelo caminho.

Ele desce do carro. Me viro e deixo as pernas para fora, no ar. É altinho esse carrinho.

Theo para em minha frente e segura em minha cintura, me erguendo e depositando no chão.

– Não quero dar atenção a ninguém além de você. — Completa.

– Essa é uma ótima explicação. — Digo a ele, que me retribui com um sorriso e um beijo na testa.

Theodor e sua presença me distraíram tanto no trajeto que esqueci estar com frio e meu corpo congelando, mas agora que paramos e começo a estudar o lugar, me esqueço dele por um momento e volto a tremer com força.

– Vamos aquecer?

Nego. Se eu não começar a correr agora mesmo, vou congelar.

Ele concorda e começa a correr de costas, me olhando. Só se vira quando estou com ele, lado a lado.

Com o coração já mais leve pela companhia, eu me dedico a correr e esquecer. Preciso disso. Deixar a minha vida bagunçada para trás por um momento.

Só um momento.

Notas finais
Acharam o capítulo muito parado? O que esperam do próximo? (Já imagino a maioria dos comentários com "hentai") Bj bjs