À flor da pele
5 Café de Macho!
Notas iniciais

Diana
“Boa–noite...” – Envio.
O que mais poderia escrever? Não é como se eu ficasse batendo papo com homens solteiros o tempo todo. Mentira, faço isso com Tyler. Mas, Ty faz parte da minha vida, o que torna mais fácil conversar.
Termino meu jantar e vou pra pia, lavo as poucas louças, as enxugo e guardo. Pego minha garrafa de água na geladeira e meu celular na bancada. Apago a luz do cômodo e me certifico de deixar a de fora e a do corredor acessas, para o Tyler.
Hora de trabalhar e então dormir.
Começo a subir as escadas e meu celular apita. O pego no mesmo instante e continuo subindo. Ao abrir a mensagem encontro um “Você já vai dormir?”, do Theo.
Começo a digitar uma resposta, mas deixo o celular cair ao chutar o último degrau com força.
– Ai! Filho da... — Seguro a língua e me agacho, passando a mão na minha canela dolorida. Péssima ideia subir escadas distraída.
Fico sentada no chão até a dor diminuir, então recolho o celular e a garrafa e vou pro quarto, meio que mancando. Agora a canela está latejando. Grande droga!
Invés de deixar o aparelho de lado e ir fazer as coisas que preciso, acabo enfiando-me embaixo das cobertas e respondendo Theo. Só uma ou duas mensagens não fará diferença. E também, é só até a minha canela parar de doer.
“Você pediu um 'boa–noite'. Então...” – Envio.
Baixo o celular, mas ele apita novamente.
“Bem, então vamos recomeçar.
Oi, Diana.
Como está?”.
Rio. Mas não perco tempo. Já estou digitando.
“Bem, Theodor, e você?”
“Theodor?”– Posso imaginar ele à minha frente de testa franzida e prestes a me corrigir. Sorrio com isso.
“Oh... devo usar o apelido em mensagens também?”– O provoco.
“Em todas as ocasiões”
“Um funeral? Um casamento? Um jantar de negócios?”
“Sim, por favor, embora prefira que em um casamento seja 'Amor'. Mas se não puder, sim, Theo.”
Preciso ler duas vezes a mensagem. Nessa também posso visualizá-lo dizendo. E o sorriso sexy que dançaria em seus lábios logo depois.
Estou corada com o assanhamento dele. Acho que no fim Tyler tem razão. Theodor só quer me “comer”.
“Ok, Theo. Mas, para um casamento, você já tem uma namorada pra fazer isso ;)”
Deixo o celular de lado. Quem ele pensa que é? Ora que abuso! Que descaramento! Que delícia!
Não! Abuso, descaramento, fim!
O celular apita. Não o pego. Me levanto e dou as costas para o criado mudo que tem o aparelho em cima. Vou pro banheiro e escovo os dentes. Nesse tempo escuto o celular de novo. Outra mensagem.
Não vou ver, digo a mim mesma.
Depois de escovar, passo fio dental e em seguida escovo de novo, só pra ficar mais tempo sem lhe dar uma resposta.
Então, quando acabo tudo, saio do banheiro e o celular apita uma terceira vez.
Volto pra cama ansiosa e pego o aparelho no criado mudo.
“Assim é melhor.”
“Tenho uma namorada, é? Pode me apresentá-la? Tô meio por fora.”
Isso significa que ele não tem uma ou que está mentindo? Tyler não mentiria sobre algo assim. Tá, ele mentiria! E outras coisas maiores só pra me chatear, porque o passatempo dele é atormentar minha pessoa.
Abro a terceira mensagem.
“Dormiu, Dia?”
Dia? Ganhei um apelido? Que bobo. Que fofo. Que desagradável. Que meigo!
“Dia?”
“Todo mundo precisa de um apelido. Isso constrói laços, sabia?”
Começo a gargalhar.
“Não acredito que acabou de citar Tyler. Você precisa parar de andar com ele, sério!”
“Eu tento, mas ele sempre volta...”– Ele me responde.
“ Atração fatal! Ele te ama ♥. Ele fala tanto de você que, às vezes, sinto que te conheço há anos.”
“Talvez seja isso. Mas ainda há um lado bom ter um amigo obsessivo, ele sempre traz coisas boas quando dá as caras ;)"
Em seguida outra mensagem.
"No seu caso é ao contrário. Eu só descobri da sua existência quando te encontrei com ele naquela noite... totalmente sem querer. Ele sempre manteve segredo sobre essa amizade de vocês, o que me chama atenção, já que ele é um boca aberta. Acho que ele estava te escondendo de mim...”
Escondendo? Como assim? Talvez estivesse escondendo era o Theo de mim. Afinal, sempre falou, mas, nunca apresentou.Me deito na cama, ficando de lado. Deixando o celular no travesseiro.
O que Theodor Blake quer comigo? Não é como se eu nunca tivesse recebido cantadas antes. Só que nunca de caras como ele, que podem escolher qualquer modelo ou socialite. Se a intenção é ter uma noite de sexo, ele se engana profundamente se acha que conseguirá. Nunca fui esse tipo de mulher e não pretendo começar a ser agora. Saber desse detalhe sobre Tyler só aumenta as dúvidas. Por que nunca fomos apresentados?
Tyler diz que o conhece há pelo menos 10 anos. Eu o conheci sete anos atrás e moro nessa casa há três. Casa que fica perto da do Theo. Então, por que nunca fomos apresentados?
O celular vibra outra vez. Prometo a mim mesma que se ele continuar com esse papinho galanteador vou por um fim imediatamente nessa conversa.
“Como você gosta do seu café?”
Preciso ler duas vezes. Como assim? Ele leu minha mente ou esse é o começo de uma cantada ruim?
“Meu café?”
“Minha avó diz que se conhece uma pessoa pelo café!”
“Talvez eu não goste de café...”
“Então você não é uma pessoa! Segundo minha avó, claro.”
Começo a rir. Quem diria que Theodor Blake é tão cheio de humor.
“Ok, sua avó venceu. Com creme. E você?”
“Eu sabia, creme é coisa de mulherzinha! Eu gosto do bom e puro café. Café de macho, sem açúcar ;)”
Meu estômago se contorce só de imaginar.
“Sem açúcar? Nem mesmo adoçante? Isso parece horrível!”
“Sem açúcar, sem adoçante. Café de macho!”
Ele é engraçado. Ou talvez esteja completamente sem assunto.
Preciso acabar o projeto e fazer o planejamento. Olho pro relógio ao lado da cama. Já são 21 e 25. A hora passa rápido.
“O que está fazendo?” – Diz a nova mensagem.
Trabalhando, é o que eu deveria estar fazendo. Mas "nada" é a resposta certa.
“Apenas deitada. E você?”
"Trabalhando"
Oh... ele poderia ter mentido... eu teria me sentido melhor com uma mentira. Agora me sinto uma inútil. Ah não ser que ele esteja mentindo para parecer legal...
"Bem, não quero te atrapalhar. Tenha um bom trabalho e uma boa–noite, Theo :-)"
Deixo o celular de lado e olho ao redor. Suspiro e vou atrás da minha mesa de desenho, notebook e pen-drive, mas então o celular volta a apitar. Mal se passou cinco minutos.
Deixo meu notebook e demais coisas na mesa que tenho no quarto e volto pra cama. Me sento ali e abro a mensagem.
"Não está incomodando. Está aliviando meu estresse."
E mais uma vez meus lábios se esticam em um sorriso. Ele é muito gentil. Não passa essa imagem ao olhar para sua figura imponente. Sério, educado, observador. Mas não gentil. Estou surpresa.
“Por que não deixa o trabalho pro escritório?”– Pergunto cinicamente. Estou eu aqui me remoendo para começar a trabalhar.
“Em casa é mais tranquilo. Fico mais à vontade e posso rever tudo sem pressa”
Sinto o mesmo quanto a isso. Por esse motivo é que trago trabalho pra casa. Fazer o que não quero já é estressante o bastante, se puder fazer em casa, onde não há pessoas me incomodando o tempo todo, me alivia muito o emocional. Mas, isso se deve ao fato do meu enorme desânimo com o emprego. Talvez ele esteja no mesmo barco que eu.
"Desanimado com o trabalho?" – Envio.
A resposta não demora a chegar.
"Não o trabalho, as pessoas..."
Nossa, como eu o compreendo! Meu desgosto em trabalhar para Dony é justamente por causa dos clientes. Seria tão bom não ter que ouvir segundos e terceiros sobre o que fazer e como fazer. Mas não respondo isso a Theodor, não sou tão íntima assim a ponto de entrar nesses detalhes.
Não escrevo nada. Ele também não manda mais nos 20 minutos seguidos, então sei que é hora de acabar o que preciso.
Vou pra mesa e ligo meu notebook. Espero iniciar e ligo minha mesa de desenho nele.
Essas mesas são um verdadeiro milagre moderno. Desenho em um pequeno espaço e tudo aparece na tela do computador. No começo, quando ainda era estudante, não havia essas facilidades. Pelo menos os professores não as aceitavam. Era tudo na mão, depois escanear e separar tudo com algum programa. Hoje é tudo na mão. Eu adoro isso.
Copio o projeto do pen-drivepara o notebook e abro o arquivo. Assim começo os detalhes do banheiro.
Não levo muito tempo para acabar. Não faltavam muitas coisas. Salvo tudo e passo pro pen-drive. Projeto do Hoen: Ok!
Começo a revisar as anotações que fiz na reunião com Harold de manhã. Pelo menos a primeira parte desse projeto será divertida, afinal, ele me deu carta branca.
Começo a esboçar o cômodo com as medidas baseadas nas que ele me passou. Me distraio com isso. Quero logo acabar essa parte básica e começar a divertida. Meus dedos seguram a caneta de desenho com firmeza, mal preciso usar réguas, estou acostumada. Aos poucos um dos cômodos vai ganhando forma.
Só paro o que estou fazendo quando o celular apita. Estendo a mão esquerda e o pego. A direita mantenho segurando a caneta sobre o desenho.
Quando o celular se ilumina, percebo que passei muito da hora. Já passou da meia-noite. Durmo, religiosamente, às 23 horas, todos os dias. Isso não vai nada bem. Estou completamente fora da rotina hoje.
A mensagem que acabou de chegar é do Tyler, mas percebo que tem outra sem abrir.
Abro a última.
“Oi!
Só queria te acordar.
Espero que tenha te acordado.
Você deve tá uma fera se tiver acordado ♥
Acho que tô um pouco bêbado, que se dane. Tô chegando.
FIQUE ACORDADA!”
Que estupidez. Bêbado deve ser o mínimo.
“Me acordou, maldito!”– Minto e envio. A mentirinha vai aquietar momentaneamente o lado bêbado dele.
Abro a mensagem seguinte, chegou há uma hora, é do Theo.
“Acordada?”
Será que devo responder? Talvez ele já tenha ido dormir. Bem, melhor não responder, se ele ainda estiver acordado e quiser conversar, só vou perder mais tempo antes de dormir.
Deixo o celular de lado e salvo os desenhos, passo pro pen-drive e deixo tudo na mesa para guardar na bolsa amanhã, desligo o notebook e o guardo na terceira gaveta da cômoda branca que tenho no quarto. Acendo o abajur e apago a luz do quarto. Pego o celular e deixo no criado mudo, pego minha garrafa de água e dou um bom gole nela, a deixando junto do celular. Então apago o abajur e ajeito-me no centro da cama de casal. Finalmente relaxando.
Ou não...
Me sinto mal por não responder Theo. Me levanto um pouco e alcanço o celular. Ele ilumina meu rosto e me incomoda, então volto a acender o abajur. Abro a mensagem e começo a digitar.
“Acordada, prestes a ir dormir. Boa-noite...”
Envio. Mas me arrependo, eu se eu o acordar, do jeito que o miserável do Tyler faz comigo?
Mas meu medo some rapidamente com a mensagem que chega.
“Que pena que já vai...
Boa–noite, Dia. Tenha doces sonhos...”
Eu não gosto de trocar mensagem com pessoas que não sejam Tyler ou Terry. Não sei bem como me despedir ou como ficar enrolando pro assunto render. Embora, admito, eu gostei dessa breve conversa de hoje com Theodor. Mas, agora não sei se devo mandar algo mais. Tipo mais um "boa–noite", ou "tchau", "Até amanhã", "até um dia", "Até nunca mais..".
Como é que se despede de alguém por mensagem? Se a pessoa responde é como se a conversa não tivesse acabado e aquela sensação de “ele está te esperando responder” sempre permanece.
Penso, penso, penso. Respondo. Envio.
“Tenha doces sonhos também.”
Acho que um tchau deveria ter resolvido. Mas tudo bem.
Ergo o celular pra colocar no criado mudo, mas ele apita na minha mão.
“Certamente terei...”
Tá vendo o que estou dizendo? E agora? A conversa acabou? O que eu deveria responder?
Me sento ansiosa. As costas da minha mão começam a coçar levemente.
“Que bom =)” — Envio.
Fico encarando o celular, com os dedos cruzados e torcendo para que ele não apite mais. Se passa um minuto, dois... três... fim.
Respiro aliviada e coloco o celular, finalmente, sobre o criado mudo. Apago o abajur e então deito.
Finalmente, dormir!
Mas então me lembro de algo...
Suspiro profundamente.
Esqueci de estender a roupa e escolher a de amanhã.
Uma batalha começa em minha mente. Resolver tudo agora ou deixar pra depois? Estou tão confortável... mas se deixar pra amanhã posso me atrasar e terei de lavar a roupa de novo, porque ela ficará com cheiro ruim por dormir molhada na máquina.
Resignada, suspiro forte e, mais uma vez, acendo o abajur. Saio de baixo das cobertas e encontro meu chinelo. Vou ao guarda–roupa e pego o cabide vazio, escolho um vestido preto colado ao corpo e um terninho branco. Separo saltos da cor do casaco. Metade do serviço terminado.
Me arrasto pra fora do quarto. Desço as escadas cautelosamente e quando estou no fim dela, viro pro corredor que dá na cozinha. Acendo a luz do cômodo e destranco a porta da lavanderia, acendo a luz desse cômodo também e abro a máquina, pego as peças e as estendo.
Me sinto em paz quando acabo.
Saio do cômodo e apago a luz, tranco a porta e saio da cozinha, também apagando a luz. Quando chego no corredor, a luz apaga, mas não fui eu dessa vez. Será que queimou?
A luz de fora também está apaga, me deixando em um breu. E me assustando um pouco.
Caminho tateando a parede, indo em direção à porta, onde fica o interruptor, mas no caminho bato em algo. Ou melhor, alguém. Caio no chão com o impacto e grito. Me arrasto pra trás, mas bato em uma parede. Meus olhos começam a se acostumar com a escuridão e posso ver o formato da pessoa a minha frente. Ela avança pra cima de mim e grito mais alto, desferindo socos e chutes. No entanto, o riso alto e bobo me fazem parar.
– Tyler? — Digo chorosa e assustada.
– Quem mais seria, sua maluca? — Meu amigo responde aos risos. Ele se aproxima de novo, tocando meus ombros e me puxando pra ficar em pé. Mas é complicado agora. O susto que ele me deu não deixa minhas pernas firmarem.
Quero matar esse idiota, mas só consigo tremer. Me apoio na parede quando ele se afasta e então o cômodo ganha luz.
Tyler tem o cabelo castanho todo despenteado. Não usa mais jaqueta e a camisa está fora da calça, faltando um botão e com algumas marcas vermelhas, que acredito ser batom.
– Hello, sou só eu!
Ele levanta as mãos em sinal de paz e se aproxima, mas encontro forças, sei lá de onde, e lhe dou um tapa bem dado. Só que minha mira é bem ruim e não acerto o rosto, apenas a mão erguida, o que o faz rir ainda mais. O cheiro de álcool que vem de seu hálito é forte.
– Eu avisei que estava chegando, nem vem! — Ele me puxa pra junto dele e me dá um abraço apertado. — Vamos dormir, baby.
Sou arrastada escadas à cima.
– Seu maluco, miserável! — Vou praguejando até que estou em meu quarto.
Meu amigo, muito estúpido, me empurra pra cama. Alcanço minha garrafa de água com as mãos tremendo.
– Se tem tanto medo de morar sozinha... — Ele diz se livrando da camisa — Por que não vem morar comigo de uma vez? Fizemos isso a faculdade toda.
Morar com Tyler foi um pesadelo. Ele era a desordem em pessoa. Levou meus nervos à flor da pele. Eu estava sempre prestes a ter um ataque. O que tinha de organizado seu físico, tinha de bagunçado o resto.
– Só se você quiser que eu me mate, Tyler. E você pegou pesado com essa brincadeirinha, seu idiota.
– Não foi de propósito, não tinha te visto, só quando apaguei as luzes é que te notei vindo da cozinha. Ah, Di, para de drama.
Ele tira a calça, sem vergonha alguma e invade meu banheiro.
Um pouco mais calma, me ajeito na cama.
Eu sei que ele está certo sobre eu viver sozinha. Não é lá muito seguro uma mulher assim hoje em dia, mas me assusta demais pensar em dividir meu espaço com alguém de novo. É uma grande intimidade, sujeita a todo tipo de situações. Situações que eu não tenho mais ânimo para tolerar. E não digo sobre um interesse romântico, digo no geral. Seja um companheiro, ou uma companheira, família. Limites são quebrados com esse tipo de convívio e meus limites não aguentam mais serem partidos.
Escuto meu amigo escandaloso cantar quando o chuveiro é ligado. Me aconchego na cama, ainda trêmula e me deixo relaxar, finalmente.
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