À beira mar

10 Vidas desperdiçadas


A investigadora Clarke bebeu seu café com calma e satisfação, aproveitando os poucos minutos que ainda tinha antes de alcançar sua mesa e ser sugada pela papelada à sua espera. Um dos policiais a chamou, avisando que Carol havia acabado de chegar e ela amaldiçoou a pressa da garota, acabando com seus preciosos momentos de paz.

— Obrigado por vir tão depressa. – ela disse, apesar da frustração. – Por aqui, por favor.

A apatia de Carol não surtia nenhum efeito na investigadora, que deu seguimento à investigação normalmente, questionando Carol sobre tudo o que ela era capaz de dizer sobre Jane. Uma conversa desconfortável que durou cerca de quarenta e cinco minutos e que deixava Carol mais cansada a cada minuto.

— Você já não tem o suficiente? – Carol reclamou, inquieta.

— Ainda não, senhora. Eu tenho duas mortes em minhas mãos, então toda e qualquer informação é útil. – a investigadora continuava tomando notas.

— Eu não vejo como a infância da Jane pode ser relevante neste caso. – a acidez na voz dela desagradou Clarke, mas ela relevou. Desta vez.

— Nunca se sabe.

— Clarke? – alguém bateu na porta da sala de interrogatórios, um jovem oficial, nervoso pela presença intimidadora da investigadora. – Aqui está o material que você solicitou.

— Obrigada. – ela fechou a porta e colocou a caixa pequena sobre a mesa, tirando de dentro dela, um celular. – Você sabe a senha do celular de Jane.

— Sei, claro. – Jane não contou que ambas sabiam a senha uma da outra, para que em casos de emergência, pudessem usar qualquer celular. Um episódio de paranoia que Jane compartilhou com Carol há muito tempo.

— Se importa? – a investigadora lhe entregou o celular.

— Você é da polícia, por que já não desbloqueou? – Jane questionou, digitando os números.

— Acredite, nós tentamos. Mas há uma longa discussão em curso, em algum lugar do parlamento, sobre as políticas de segurança desta empresa em particular. – Clarke desejou poder beber mais um café naquele momento.

— Aqui está.

— Ótimo, muito obrigada. – a investigadora rapidamente começou a tocar na tela do telefone, buscando informações. – Agora eu vou conectar o celular com a nossa internet para poder verificar com quem ela estava se comunicando.

No momento em que o celular de Jane foi conectado, o som característico da notificação de mensagem surgiu do celular de Carol. Ela pediu licença para checar o que era e sua face ficou pálida instantaneamente, alertando a investigadora.

— É uma mensagem de Jane. – ela sussurrou, quase largando seu celular no chão, como se estivesse possuído.

— Vá em frente.

Então, protegidas de qualquer barulho externo, as duas ouviram as palavras desesperadas de Jane, saindo do telefone e preenchendo todo o espaço, consumindo todo o ar.

“Carol, eu sei que isso vai parecer loucura, mas eu preciso que você me escute. Peter está aqui. Eu não sei como, e nem entendo direito o porquê, mas ele está aqui. Está me assombrando há dias e... ah, meu Deus, Carol... eu acho que ele quer me matar. Por isso me escute bem: mande ajuda. Eu preciso de ajuda, Carol! Socorro!”.

Carol começou a chorar só de ouvir a voz da amiga, e implorou que fosse liberada, ansiosa por voltar para casa, mas antes que a investigadora pudesse decidir, outra batida na porta as interrompeu. Joshua, o legista forense, chamou a investigadora até o corredor e exibiu uma pasta.

— Tenho os resultados, Clarke. – ele disse, sucinto.

— Afogamento. – ela disse, sem olhar para a pasta. – Essa não foi difícil de adivinhar, Joshua.

— Você sabe que eu não estaria aqui se fosse só isso. – ele pareceu irritado com a petulância da investigadora, mas não disse nada a respeito.

— O que encontrou?

— Havia uma droga no corpo dela, e uma quantidade considerável. – ele mostrou os resultados, apresentando diversos nomes que não significam para a investigadora mais do que significam nomes de molhos franceses.

— Então ela estava drogada e pulou no mar? Pelo que a amiga contou, ela não tinha nenhum envolvimento com drogas.

— Eu não estou me referindo à cocaína, Clarke. Isso é muito diferente. – a investigadora não deixou passar a animação na voz dele. – Eu liguei para o doutor Collins para conversar sobre isso.

— O velho Collins? Ele está aposentado há anos, Joshua.

— Só porque as mãos dele pararam de funcionar, não significa que o cérebro também tenha parado.

— O que ele disse?

— Esta droga ficou famosa há muitos anos, quando um médico sem recursos conduziu um grupo de testes clandestinos, usando moradores de rua que foram sequestrados. A droga nunca foi aprovada em nenhum laboratório por conta dos muitos efeitos colaterais. – ele animava-se mais a cada palavra. – E o maior efeito colateral era alucinações. O grupo todo perdeu os sentidos, e depois de um curto período exposto à droga, eles perderam a noção da realidade.

— Mas como ela teria conseguido essa droga, se ela nunca foi aprovada? Alguém produz isso ilegalmente?

— Aparentemente, sim. Eu nunca ouvi falar disso, mas ela deve ter conseguido de algum lugar. – ele entregou a pasta para ela, como se estivesse se livrando da responsabilidade. – Seria prudente avisar o FBI sobre isso.

— Clarke? – outro oficial a chamou. – Nós conseguimos as filmagens.

Deixando Carol sozinha por mais alguns minutos, a investigadora foi até o monitor indicado, ficando de pé ao lado do oficial, acompanhada de Joshua.

— Havia câmeras internas, escondidas pelos cômodos. Nós separamos as partes mais importantes.

Nos minutos seguintes, a investigadora Clarke assistiu às filmagens mais estranhas e inquietantes de sua vida, que a fizeram sentir uma raiva incomum para alguém tão controlada como ela. Ela assistiu Sarah circulando a casa, ativando câmeras de segurança com a sua movimentação, a viu escrevendo recados no espelho, batendo em uma janela, e limpando tudo enquanto Jane estava na cozinha com três policiais. Viu-a usar roupas masculinas, andar por aí, rindo de satisfação pelo pânico de Jane.

— Ela estava alimentando as alucinações da garota? – Joshua perguntou, surpreso.

— Isso explicaria a mensagem que ela enviou para a amiga. – Clarke disse.

— Aqui é onde fica complicado. – o oficial falou. – Essa é a câmera de segurança da lanchonete do Philip, no dia da morte das duas.

As imagens mostrava Jane fumando e então se aproximando de uma lixeira, entrando em pânico e correndo para o carro logo em seguida, fugindo de lá.

— E isso é na casa, logo depois de ela surtar no estacionamento.

A filmagem mostrava Sarah deixando flores na sala, horas antes de Jane chegar em casa. Quando Jane as encontrou, entrou em um estado de completo surto. Sarah aparece no corredor, uma postura assertiva, tentando falar com ela, mas Jane procura uma faca e ataca Sarah, a matando minutos depois. Usando o sangue de Sarah, ela escreve no chão, passa um tempo parada com as mãos na cabeça, tira o casaco sujo de sangue e segue para a praia, como se nada tivesse acontecido.

— Então ela se matou porque matou Sarah? – Clarke especulou.

— Aposto que ela nem sabia o que estava fazendo. – Joshua suspirou, tomando notas. – Isso foi exatamente o que aconteceu com o grupo de cobaias, segundo o doutor Collins. Ele piraram de vez.

— E nós descobrimos mais algumas coisas interessantes. – o oficial abandonou a mesa e voltou com outra caixa, exibindo uma foto de um casamento.

— Eles eram casados?

— Isso é de menos. O mais interessante é a investigação que fizemos sobre a Sarah.

— O que descobriram?

— Ela não trabalha no hospital daquela cidade. Aparentemente, ela pediu demissão do hospital daqui, onde trabalhava, e desapareceu. – o oficial procurou por outro papel. – E aquela casa era dela, e não alugada. Essa foto foi encontrada lá, junto com diversas outros itens pessoais.

— Eu preciso juntar os pontos com a versão da amiga de Jane. Puxe a ficha de Sarah, todos os dados que encontrar no sistema, inclusive a árvore genealógica dela. E Joshua, me traga os nomes da equipe que criou essa droga.

— Por que você quer a árvore genealógica dela? – o oficial pareceu confuso.

— Só um palpite. – a investigadora já se afastava.

Clarke voltou para a sala de interrogatórios, encontrando Carol ainda aos prantos, ouvindo a mensagem mais uma vez.

— Carol, eu sei que é um momento difícil, mas eu preciso de você só por mais alguns minutos, tudo bem?

— Tudo bem.

— Eu recebi o boletim de ocorrência do dia em que Peter agrediu Jane, e eu vi que você estava lá, correto?

— Isso mesmo. Fui eu quem chamou a polícia. – ela assentiu, secando as lágrimas.

— Ele era violento com ela, eu vejo. Você acha que tem algum motivo para acreditar que ela devesse temer o marido? Para acreditar que ele poderia realmente assassinar a própria esposa? – a investigadora tomava notas sem parar.

— É claro que sim. O Peter era um maluco psicót... espere. – Carol inclinou sua cabeça para a esquerda, confusa. – Por que você disse isso?

— Jane parecia acreditar que, mesmo depois de morto, ele queria matá-la. Eu quero entender a extensão da violência dele.

— Não, eu quero dizer por que você os chamou de marido e esposa?

— Eles não eram casados? – ela estendeu a foto do casamento que trazia consigo.

— Não, eles não eram casados. – Carol analisou a foto. – Esta não é a Jane. A semelhança é incrível, mas definitivamente não é ela. Parece a Sarah, só que mais nova. E talvez sem cirurgias plásticas.

— Ok, Carol, isso deve ser o suficiente. – a investigadora se esforçou em esconder sua surpresa. – Você pode ir agora.

Carol apressou-se para fora da sala, sendo acompanhada pela investigadora que, logo após despedir-se dela, voltou para junto do oficial e de Joshua.

— Você não vai acreditar... – disse o oficial.

— Sarah e Peter eram casados. – ela disse, aproveitando a expressão de surpresa dele.

— Bem, então você não acreditar nisso. – disse Joshua, imprimindo um arquivo.

— Alguém da família de Sarah fez parte do grupo de lunáticos que criou a droga. – ela disse, aproveitando ainda mais a expressão de incredulidade de Joshua.

— O avô. – ele sussurrou. – Mas como você sabia?

— Sarah provavelmente culpava Jane pelo suicídio de Peter, o que a fez dedicar seus dias a enlouquecer Jane, a mulher por quem seu ex-marido se apaixonara. – a investigadora pegou mais uma xícara de café, finalmente voltando para sua mesa. – Esse tipo de loucura passa de geração para geração, devia ter começado em algum lugar.

— Isso é muita loucura para um dia só. – disse o oficial, recorrendo ao café também.

— E um nível de sadismo absurdo. – Joshua especulou. – E talvez ela tivesse conseguido escapar de tudo isso, se a alta dosagem daquela droga não tivesse enlouquecido Jane a ponto de transformá-la em uma pessoa violenta e assassina. É, realmente, muita loucura para um dia só.

— O amor, Joshua, é uma droga muito mais poderosa do que essa porcaria que o avô dela ajudou a criar. Ele enlouquece as pessoas muito rapidamente, transforma qualquer um em alguém melhor ou pior, dependendo de suas inclinações.

— Quais você acha que eram as inclinações de Jane?

— Jane era apenas a pessoa errada no lugar errado, presa entre o amor destrutivo de dois sádicos. Ninguém passa por este tipo de fogo cruzado e sai vivo para conta a história.

— Talvez esteja na hora de começarmos a buscar uma cura para esta droga. – Joshua comentou, deixando a sala.

— Talvez seja mesmo.

A investigadora Clarke organizou o arquivo do caso e o catalogou como crime passional, adicionando novas investigações a serem realizadas até que tudo estivesse claro e documentado, e considerou seriamente criar uma seção no catálogo chamada “vidas desperdiçadas”. Sabia muito bem que aquele não era o primeiro caso, e nem seria o último, que preencheria aquela seção.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!