À Sombra da Justiça

10 Ingrata Revelação


Notas iniciais
Pessoal, voltei!! Para não perdermos tempo, mais um episódio da nossa história. Como promessa é dívida, teremos por hora menos Estripador, e aí vem Watson e Esther. Enjoy!

Londres, 21 de Maio de 1894.

Passou-se apenas alguns dias desde que Esther começou a trabalhar na escola, e estavam ambos a um pouco mais de uma semana de completar um mês de casados, e sentiam-se distantes um do outro. Isso não deveria ser uma surpresa, mas inevitavelmente doía. Holmes, naturalmente, voltou à sua rotina normal, porém não encontrando um equilíbrio entre o casamento e a vida como detetive consultor. Desde a última noite que passaram juntos, ele não retornara mais para casa. Para minha casa, Esther corrigiu-se com tristeza, pois afinal Baker Street sempre seria seu lar. A ausência de notícias só não era pior porque Esther estava cada vez mais atarefada com a rotina de professora de universidade.

Esther aproveitaria as quintas-feiras, dia de folga da Universidade, para fazer compras. Fazer compras era uma rotina da qual ela ainda estava se habituando, especialmente quando casada, diante das mudanças e das novas necessidades. Ela estava, aos poucos, descobrindo os gostos de Holmes. Embora já soubesse de alguns, dos tempos que ambos viveram na França, ela ainda tinha a sensação de estar vivendo com uma pessoa diferente. Ela conhecia Holmes de verdade a cada dia que se passava, sem a máscara de disfarce de John Sigerson, embora algo leh dissesse que ela o conhecer de verdade naqueles dias.

Além de compras, Esther gostava de frequentar um café na Regent. Tinha acabado de comprar um livro de poesia francesa e iria lê-lo com chá e biscoitos. Assim ela pretendia, até encontrar Watson por ali.

Não foi obra do acaso. Desde que ambos terminaram, Watson frequentava aquele café, que era um dos preferidos de Esther, quase todos os dias, apenas na esperança de vê-la, ainda que de longe. Não queria causar problemas em seu casamento e nem prejudicar sua reputação, por isso escolhia uma mesa no canto e a observava atentamente. Vê-la, ainda que a distância, era o que bastava para aplacar sua saudade.

Esther rapidamente o convidou para se sentar.

–Então, eu posso ver que a senhorita ainda frequenta esse café. – ele disfarçou. Esther concordou.

–Gosto do silêncio daqui e do clima aconchegante. – ela disse. – E o você? Está esperando por alguém?

–Oh não... Estou aqui para espairecer. Cada vez mais surgem pacientes no consultório e preciso dar uma pausa.

–Posso imaginar o quanto a sua rotina esteja exaustiva.

A conversa seguiu para outros rumos. Holmes poderia estar certo, pensou Esther. Fazia tempo que ela não conversava tanto com alguém. A vida toda, sempre teve seu irmão David ao seu lado e jamais imaginou como viveria sem ele. No entanto, ela pôde encontrar Holmes, no início um amigo e agora, seu marido, embora ela não pudesse dizer a ninguém que era casada com Sherlock Holmes.

Watson era mesmo um bom homem, ela pensou. Divertido, cativante e charmoso. Lembrava um pouco seu irmão David neste aspecto. O rapaz que todas as meninas almejavam, que derretia qualquer um com seu sorriso e maneiras galantes, que cativava até mesmo por seu ar misterioso (uma das poucas coisas que Watson realmente não tinha, pois seu olhar era como um livro aberto). Tinha um pouco da inocência e simplicidade, algo que não havia em Holmes, sempre tão esperto e tenaz, sarcástico e inteligente. Sortuda seria a moça que ele desposasse.

Na saída do café, depois de uma longa conversa, Esther e Watson se despediram na calçada. Mas antes que trocassem um aperto de mão, Esther sentiu uma leve tontura. Cavalheiro, Watson imediatamente a impediu que perdesse o equilíbrio, segurando-a pelos braços.

–O que houve, Sophie? – ele perguntou, abstendo-se do protocolo.

–Não é nada... Estranho, de repente eu me senti esquisita...

–A senhorita anda se alimentando bem? – ele perguntou, em uma advertência.

–Oh, eu diria que sim... Acho que meu apetite está até mais aflorado nos últimos tempos.

Watson subiu uma sobrancelha, em desconfiança.

–Bem, se você quiser, eu posso leva-la para casa.

–Eu acho que não será necessário, Watson, eu...

Outra vez, Esther sentiu as pernas bambas, mas desta vez, foi mais grave. Ela desmaiou sobre os braços de Watson.

–Cabriolé! – ele clamou, desesperado, ao se deparar com a sorte de ver um veículo disponível passar perto de si.

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Esther acordou tonta, sem qualquer consciência do que tinha acontecido ou do tempo que passara. Levantou-se, sentando-se sobre o colchão frio, de lençóis brancos e monótonos. A sensação de vertigem ainda era grande, e ela decidiu abandonar qualquer idéia de se levantar dali, até que tivesse controle sobre seus pés.

Watson apareceu de repente, já devidamente equipado. Não havia mais dúvidas de que estava em seu consultório.

–Adonai... O que aconteceu?

Watson franziu a testa, um tanto pasmo com a maneira que ela se expressou, mas não fez qualquer comentário.

–Você desmaiou quando estávamos nos despedindo. Como estávamos mais perto do consultório do que da sua casa, decidi leva-la aqui, se a senhorita não se importa...

Esther suspirou. – O que está acontecendo comigo...?

–Eu tenho algumas suspeitas, Sophie. Er... Suas regras... Estão em dia?

Esther ficou ruborizada com a intimidade da pergunta.

–Er, não... Porquê?!

Watson parecia cada vez mais convicto, mas permaneceu no tom neutro e profissional. – Quanto tempo?

–Mais de um mês... Mas minhas regras sempre foram irregulares.

–Mas a senhorita já esteve em um período tão prolongado assim?

Esther admitiu, avaliando a questão. – Não.

–Hum... – Watson caminhou pela sala. – Como médico, eu diria que tenho 80% de certeza quanto ao diagnóstico, mas...

–O que eu tenho, Watson?

Watson estava encabulado. Ela está casada a menos de três semanas! Como isso pode ter acontecido? Impossível, impossível... Não, isso é muita indiscrição da minha parte. Se eu disser a ela que sei... Não, eu não tenho esse direito! Ela inevitavelmente vai descobrir, as mulheres sempre percebem cedo ou tarde. John Hamish Watson, você não deve intervir em uma questão tão grave.

–Watson?

Esther, que estava com uma expressão séria, preocupada com o possível diagnóstico, aguardava por sua resposta.

–Isso pode ser anemia, minha cara. Essa tontura, enjôo... Nada mais que uma anemia.

–Puxa Watson, você me deixou preocupada! Pensei que fosse algo mais sério! – ela disse, aliviada.

Você fez o que era certo, John. Se ela está grávida de dois meses e casada a menos de um mês, isso não é problema seu.

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–Dois meses?! – Holmes, que tinha ficado surpreso o tempo todo – e até radiante demais com toda a narrativa, Watson constatou sem entender o porquê -, tinha estranhado completamente essa última observação.

–Sim, meu caro. Os sintomas são típicos, e posso calcular que são de uma gestação de dois meses porque já estão aparecendo e a barriga ainda não está saliente. Aliás, eu fiz o teste do coelho.

Holmes assentiu, pois sabia a quase eficácia do teste do coelho, embora não soubesse dos detalhes. Watson, sempre paciente, explicou.

–Antes de nos despedirmos, pedi que me permitisse coletar seu sangue, alegando que iria verificar se era mesmo anemia. Depois que ela foi embora, fui até Notting Hill e procurei um vendedor de coelhos. Comprei um animal e injetei o sangue dela nele. O anima morreu horas depois, e você sabe, meu caro, que esse exame é infalível. Mais um sinal de que a gravidez dela já ultrapassa o primeiro mês, pois ainda em estado recente, haveria pouca evidência no sangue. Além disso, já vinha sendo alertado pela minha experiência como médico e... Pai. – disse, lembrando-se de Mary e do início de sua gestação.

Holmes ficou circunspecto, refletindo com seu cachimbo.

–Mas diga-me, Watson... Ela não estava casada há... Semanas?

Watson ficou incomodado. – Você não está insinuando que...

Holmes deu uma baforada. – Por quê não, Watson? Você nunca fez a mínima questão de esconder sua fama de conquistador do sexo feminino. “Três continentes”, lembra-se? Sequer poupava sua falecida esposa de narrar suas aventuras amorosas...

–Holmes, não seja sujo! – enfureceu-se Watson. – Quanta bobagem! Eu jamais estive em um grau tão íntimo com Sophie!

A cerca de duas semanas atrás, nem eu.

–Então, só temos uma explicação: a sua admirável ex-namorada não era tão admirável quanto você possa dizer.

Watson parecia indignado e tentava salvar a reputação de Sophie de todas as maneiras.

–Ela pode ter... Antecipado as núpcias com o marido... Quantas não fazem isso às vésperas do casamento?

Holmes riu, com desdém. – Mais de um mês antes, Watson? Nenhuma mulher se arriscaria a tanto. Geralmente fazem isso às vésperas, no máximo, dias. E além de quê, essa tal de Sigerson não era um explorador que mal ficava com os pés em solo firme, como você mesmo disse? – disse Holmes, em um tom decepcionado. – Não, meu caro, não há salvação para esta pobre moça.

Watson replicou. – Ela é uma boa moça, Holmes. Eu não vou permitir que você continue insultando-a dessa maneira.

– Por quê não me conta logo a verdade, Watson? Eu ficaria feliz, ao menos, em saber que o bebê é seu filho. Você nunca foi de guardar segredos neste departamento para mim, aliás, sempre foi bastante falador a respeito deste tema... Eu entendo se você achar que pode não ser o pai, mas...

–Holmes, chega! – determinou Watson.

–Claro, há toda a questão da reputação, do quê a boa sociedade poderia achar de uma mulher grávida de outro homem, mas vamos nos atentar aos fatos: a princípio, vocês se casariam. Você chegou a entregar uma aliança, a pensar na data de casamento. Uma relação de passos tão adiantados pode... Watson?

Quando Holmes se deu conta, Watson não estava mais em seus aposentos. Só pôde ouvir a porta do andar de baixo, se fechando de forma violenta. Certamente seu amigo estava enfurecido com suas suspeitas.

Enfurecido... Ele é que deveria estar enfurecido! Ele era o marido enganado! Esther jamais falou com ele qualquer coisa a respeito do avançar de sua relação com Watson. Ora, se ambos tinham ido tão além nesta relação, porquê ela escondeu isso? Ele tinha o direito de saber!

E ele tinha ficado tão feliz com a notícia! A cada palavra de Watson, quando contava sobre a descoberta da gravidez de Esther, Holmes sentia mais dificuldade em manter a máscara da frieza. No fundo, tinha vontade de soltar um sorriso bobo, de surpresa e felicidade, mas isso certamente causaria uma enorme suspeita em Watson. Seu risco de ter sua felicidade descoberta terminou com aquelas três palavras: uns dois meses.

Holmes lembra-se bem de ter se casado com Esther na mesma semana da morte de Dmitri. Com a agilidade dos poderes de Mycroft, conseguiu uma licença para casar e só precisou de 2 dias, tendo apenas o irmão como testemunha, para casar-se com ela em uma Igreja Anglicana do interior de Sussex. Na mesma noite, núpcias, em um hotel de três estrelas, bem simples como nos velhos tempos. A primeira noite ocorreu há exatos 21 dias, concluiu Holmes. Como ela poderia estar grávida de uns 2 meses?

Notas finais
CHO-CA-DA!!! Esther, sua danadinha... Escondendo o jogo de Mr. Holmes?! Não posso acreditar!!! E Watson, como sempre, não perdoando ninguém... Pessoal, espero que me desculpem por ter tacado areia no bem-casado dos nossos pombinhos vitorianos, mas garanto que isso renderá boas emoções ainda. E, é claro, o retorno de Daddy Watson ao páreo!!! Será que ele ainda tem chance com nossa Esther? Se eu fosse o Holmes, dava atenção logo a ela, senão... Ele vai tomar a garota de volta!!! E não esqueçam de despejar todo o seu ódio/rancor/raiva à minha pessoa nos reviews, que eu não ligo não. Bjs e até o próximo cap