À Espera de Um Clichê
1 When The Day Met The Night
Notas iniciais
Entrei no grande saguão iluminado, o lugar era simples – ou, melhor dizendo – formal. Mesas de bufê estavam espalhadas esporadicamente pelo recinto, este estava abarrotado de gente.
As pessoas eram imponentes, como se estivessem propositalmente se empertigando, (bem, isso poderia ser facilmente verdade) elas se vestiam em deslumbrantes trajes de gala e riam afetadamente, de forma que o champanhe ondulasse perigosamente para fora das taças que seguravam.
Dois segundos e eu já pude constatar que odiava o local.
Era um recorde.
Ao meu lado, segurando meu braço com certa brusquidão, estava meu chefe.
Ele definitivamente não combinava com o lugar, e o sorriso falso que dirigia a qualquer um que nos olhasse era enervante.
O homem era parrudo, com ombros e costas largas, mas não tão alto. Seu cabelo era um moicano cuidadosamente moldado com lotes e mais lotes de gel, tinha vários piercings, principalmente nas orelhas. Nem seu terno preto, austero e bem-cortado podia disfarçar o quanto estava deslocado.
Ah, esqueci de uma característica importante dele:
Era um canalha.
–-x—
Eu observava totalmente alheia a tudo, meu chefe conversando com um casal pomposo. Ele não me dera nenhum sinal, portanto, não era necessário que eu prestasse atenção.
Quem sou eu? Boa pergunta.
Posso ter comentado que o meu “doce” chefe era desajustado, mas isso era somente no ambiente, já eu, era uma desajustada do mundo.
Tenho olhos lilases – consequência de uma maldita mutação genética – e, como se não fosse o suficiente raro, tenho a pele morena, que contrasta totalmente com os olhos.
Talvez você ache que é legal ser assim.
Não é.
Por causa da minha aparência, – sem dizer habilidade – sou o “brinquedinho” do chefe. E, como se lesse meus pensamentos, o mesmo alisou repulsivamente minhas costas.
Qualquer toque dele me fazia querer sair correndo, fugir de tudo. Acabar com tudo.
Só queria estar em casa.
Bem, ajudaria se eu tivesse uma casa para voltar.
Normalmente, os funcionários cuidam sozinhos de seu trabalho. Mas esse caso era um tanto quanto... especial, e, em função disso, fui “agraciada” com a presença daquele brutamontes ao meu lado.
Percebi que ele fazia um leve gesto. Ensaiado, claro, mas parecia normal a olhos desatentos. Mirei a direção que me fora indicada.
Lá estava minha vítima.
–-x—
Com a desculpa já planejada de ir ao banheiro, beijei o rosto do criado-mudo (meu chefe) a contragosto e andei apressada para onde vira minha presa pela última vez.
Os saltos batendo no chão emitiam uma barulheira que me irritava profundamente, dava agonia.
Segurei melhor a pequena e preciosa bolsa em minhas mãos e subi desajeitadamente o vestido longo creme e tomara-que-caia. Amaldiçoei o meu traje, que intermitentemente ameaçava a realmente cair enquanto eu avançava com passadas firmes o corredor branco.
A bifurcação que a vítima escolhera levava a um corredor estreito ladeado de portas.
Aproveitei estar em um local completamente vazio e soltei o coque firme no qual prenderam meu cabelo, repleto de presilhas compridas e palitinhos, em estilo japonês.
Tirei os saltos, ficando descalça com meias finas, não faria diferença em meu trabalho. Encostei a orelha na porta ao meu lado, ouvindo atentamente enquanto tirava um pequeno apetrecho da bolsa.
Pousei-o levemente na superfície da porta – ele era tipo um olho mágico – e, ficando transparente, pude observar o interior do quarto: ninguém.
Calçando minhas luvas, girei a maçaneta e deixei o meu traje de gala lá, voltando a me perguntar aonde meu objetivo havia ido.
Não ouvia sons em nenhum lugar e observei que o corredor virava para a direita.
Dei de cara com uma porta e, lá, sim, havia som.
Guardando um revólver dentro da minha calça por precaução – era preferível que eu o matasse silenciosamente – peguei uma faca e encaixei minha bolsa em uma costura feita especialmente para ela na blusa, deixando minhas mãos livres.
Sem cerimônias, arrombei a porta.
Lá dentro, dois homens estavam de pé, um de frente para o outro.
Um deles se limitou a erguer uma sobrancelha, lançando um olhar desconfiado ao volume nas minhas calças e para o meu braço – que segurava a faca – escondido atrás das costas.
O outro simplesmente me dirigiu um sorriso leve e divertido, quase malicioso. Ele é louco, pensei com meus botões.
E era meu “cliente”.
Tinha o corpo razoavelmente alto e esguio, o cabelo era curto, preto e repicado. A pele, branca como leita, ficava em evidência por causa de seu terno chumbo. Seus olhos, ameaçadoramente vermelhos, me encaravam como se eu fosse uma interessante peça de tabuleiro.
Observei rapidamente o cenário em volta, tentando achar algo que pudesse usar em meu benefício. A parede atrás dos homens era inteiramente de vidro, dando uma visão vertiginosa e exuberante da cidade noturna, com suas diversas luzes piscando incessantemente, os altos edifícios sendo engolidos por uma pesada nuvem de chuva.
Do lado, uma cama de casal grande, porém simples, com lençóis cinzas e brancos. Uma TV de plasma grande rodeada com confortáveis poltronas estavam à minha direta, e, mais adiante, um pequeno frigobar e uma mesa com vários papéis jogados em cima. O quarto era exageradamente espaçoso, mas pouco mobiliado.
Voltei a olhar para o estranho homem de olhos vermelhos, e seu sorriso alargou. Dispensou com um gesto o outro – que também se vestia formalmente, utilizava óculos escuros e tinha um corte estranho, como se tivesse penteado um moicano para os lados – que, relutante, saiu por uma porta lateral.
Sozinha com o moreno, estendi a faca na minha frente. Seus olhos vermelhos brilharam de júbilo.
– Seus dias acabam agora. – Proclamei.
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