À Espera de Um Clichê
3 Kimi ni Negai wo
Notas iniciais
Isaac Unveil nunca foi o que se chamaria de criança normal.
Seus olhos pousavam nos outros e encaravam-nos malevolamente. Gargalhava histericamente sozinho e adorava ver pessoas trabalhando duro para nada.
Mas era, pelo menos, inofensivo.
Seus pais eram enormemente ricos: e tinham bons motivos, já que eram os chefes da maior Máfia do país e do continente.
Ninguém pensaria que a Sra. Unveil era uma perigosa mafiosa. Amava cozinha, de comer… bem, nem tanto, — sobrava para o marido, que estava sempre com uns quilinhos a mais que o necessário — era magra, bonita, loira e elegante. Se vestia e maquiava com cuidado, mesmo se fosse passar o dia inteiro em casa. Isaac achava sua mãe um tanto quanto fútil.
A Sra. Unveil ficava preocupadíssima — para não dizer com medo — com os surtos histéricos de seu filho, e ficou enormemente aliviada quando este melhorou ao ficar amigo de um menino da sua idade.
Ele se chamava Ivan, o perfeito esteriótipo de um romântico. Mesmo tendo apenas 8 anos, sonhava com seu encontro predestinado: esbarraria com a menina de seus sonhos, derrubaria os livros e, ao ajudar a pegá-los, com uma troca de olhares, se apaixonaria à primeira vista. Tinha até mesmo as falas planejadas.
Isaac achava aquilo tudo um baita de um clichê sem sentido. Chegou a indagar mais de uma vez ao amigo em que mundo duas pessoas ficariam carregando os livros nas mãos daquele jeito… Parecia que no mundo de Ivan, bolsas e mochilas eram algo inexistente. Ou, talvez, sua parceira pra vida inteira deveria ser, como ele, uma excêntrica com fobia à utensílios práticos. Como bolsas.
Isaac gostaria de encontrar uma mulher que fosse o oposto da mãe: uma mulher que se virasse sozinha, prática, útil e quieta. Não aguentaria alguém pitaqueando toda hora.
Ivan achava essa objetividade de seu amigo muito sem sentimentos. Concluía (corretamente) de que, desse jeito, Isaac nunca se apaixonaria, e, que, se ele tivesse uma mulher, ela seria tão importante quanto um objeto de decoração.
“Deixe essa exatidão e esses cálculos pra matemática, seu cabeçudo. Se continuar tão frio assim, vai congelar todos à sua volta e virar um solitário cheio de esculturas de gelo.” Ivan costumava falar ao amigo.
Para o pequeno mafioso, essas palavras não significavam nada: se quisesse uma mulher, não havia nada que o dinheiro e o poder da família não pudessem resolver. Mas ficava quieto, não queria discutir com o amigo, muito menos nesse tipo de assunto, no qual Ivan encarnava um padre que amava falar na missa.
Isaac tinha um carinho um tanto quanto especial por Ivan. Seu amigo era honesto, gentil, livre e sonhador, totalmente o oposto dele mesmo, algo que admirava.
Ivan, também, nunca se importou ou teve medo da personalidade do amigo, e o mesmo sabia que ele não estava nem um pouco interessado no dinheiro de sua família.
Guarda-costas seguiam Isaac o tempo inteiro, fato que o incomodava, mas Ivan o fazia se esquecer deles, na verdade, o fazia se esquecer de tudo: da família, do mercado negro, dos negócios ilegais. Com ele, era apenas uma criança normal.
Todas as pessoas próximas ao pequeno Unveil notavam como ele mudara desde que conheceu o menino, — os pais, os guarda-costas, as criadas — Isaac continuava frio e calculista, porém menos… doentio (?). Cumprimentava a todos, não encarava mais os outros com sua cara de doido que tem fetiche em dissecar seres vivos, e, além disso, parou de gargalhar que nem um vilão do mal. Tudo parecia muito bem.
E estava.
Estava.
–-x--
Um dia, os dois haviam escapulido, e, enganando os guarda-costas de Isaac, atravessaram um pequeno bosque e deram de cara para uma pracinha.
O dia estava ensolarado, e o céu sem nenhuma nuvem. Dava para ouvir os passarinhos ao longe.
O parque dispunha de alguns poucos brinquedos, mas havia vários banquinhos ao redor. Eles eram pintados de branco e muitos estavam descascados.
O chão era de areia fina, com alguns blocos de pedra indicando caminhos. Era uma praça bem agradável.
Sim, era agradável, entretanto tinha algo de estranho.
Isaac cutucou o amigo, perguntando se também achava que tinha algo de estranho. Ivan negou, franzindo o cenho, mas logo deu de ombros e começou a contar, espalhafatosamente, como aquele parquinho podia ser uma cenário maravilhoso para seu encontro dos sonhos.
O pequeno mafioso tampou a boca do outro, e seus olhos azuis arregalaram, como que perguntando o que havia de errado. Isaac era quieto e frio, mas apesar de não ser romântico, gostava de ouvir as divagações do outro. Mas parecia errado Ivan estar falando ali. Um alarme soava dentro da cabeça de Unveil.
A praça era silenciosa demais.
Os dois ouviram um farfalhar atrás deles, vindo do bosque que tinham acabado de sair. Ivan aquietou-se e Isaac tirou a mão de sua boca.
Uma gangue saiu de trás dos arbustos, conversando alto e chutando tudo que havia no caminho. Isaac sabia que eram encrenca. Segurou o braço de Ivan e o puxou para longe do parque. As ruas em volta eram igualmente desertas, mas os dois tinham que dar um jeito de sair dali. Ivan, entendendo o recado, também apressou o passo.
Os jovens ficaram silenciosos, o que soou suspeito para Isaac, porém logo voltaram a gargalhar, depois que Isaac ouviu dois baques surdos e um gemido de dor ao seu lado.
Alarmado, olhou Ivan, que tentava esconder uma careta de dor. Olhou para suas costas, uma pequena mancha de sangue começava a aparecer na blusa azul do amigo. Os malditos tinham jogado uma pedra bem pontiaguda.
Cerrando os punhos de raiva, Isaac se voltou para o grupo. Um garoto alto, de jaqueta de couro e moicano lhe dirigia uma expressão zombeteira.
Ele estava o desafiando.
Isaac prontamente avançou, sendo segurado por Ivan, que murmurou baixinho ao seu lado, pedindo que deixasse de lado e fossem embora. O de olhos azuis sabia que, Isaac, quando colérico, sempre partia pra dentro. O amigo era forte, claro, mas eles só tinham 10 anos, não tinham chances nenhuma contra esses garotos de… o quê? 17, 18 anos? Desejou que o amigo atendesse seu pedido.
Infelizmente, o pequeno mafioso continuou indo em frente, e o grupo constituído por 4 jovens também, até estarem frente a frente. 4 contra 1, impossível até mesmo desconsiderada a diferença de idade e tamanho. Mas para Isaac não importava, qualquer um que se metesse com Ivan devia ser caçado.
Desferiu um soco na boca do estômago do líder, que contorceu levemente a boca, porém não deu sinais de ter se machucado.
Rindo, o maior chutou o garoto, fazendo-o cair na areia pesadamente. Sem demoras, os outros se puseram a espancá-lo também. Sempre que possível, Isaac chutava e arranhava as pernas que o rodeavam, mas ia, claramente, perder.
– P-parem! — Conseguiu ouvir em meio à barulheira dos chutes: era Ivan. Queria tanto que ele fugisse, já estivesse longe!
– Ivan, corra! — Falou ofegante, mas alto o suficiente para o amigo escutar. Este apenas olhou pesaroso para o outro e esboçou um leve sorriso.
– Por favor, parem. — Botou-se de joelhos.
Os maiores se entreolharam e trocaram sorrisos, avançaram para o menor ajoelhado.
– Não! — Isaac tentou se levantar.
– Façam com que o pestinha não interrompa — Ordenou o líder sem tirar sequer um segundo os olhos de Ivan. Os outros 3 se precipitaram para cima de Isaac o socando e chutando com mais vontade. O menino pôde sentir que algumas costelas e provavelmente o braço, quebraram. Os olhos arderam, a dor era insuportável, mas o pior era o que poderia acontecer com Ivan.
– Corra… — Murmurou, quase que para si mesmo, quando não tinha nem mesmo forças para se ajoelhar, caindo deitado na areia. Sentia um líquido quente escorrendo pela sua testa e caindo no olho, cegando-o. Sabia que era sangue. Todo seu corpo formigava.
– Esse aqui já até parou de se mexer. — Um dos delinquentes gritou para o líder.
– Segure ele para que veja tudo direitinho. — O maior respondeu com uma risada rouca enquanto agarrava o pulso de Ivan.
Isaac sentiu puxarem-no pelo cabelo até sentar sobre as próprias pernas, encarando firmemente o líder e seu melhor amigo. Ele tentou transmitir com os olhos um pedido para que Ivan fugisse, este entendeu a mensagem do amigo, mas se recusava a deixá-lo sozinho.
O líder jogou Ivan no chão, fazendo com que ele ficasse de quatro, segurou os cabelos castanhos do menino, obrigando ele a encará-lo.
– Hoje você será minha puta. — Isaac sentiu o sangue fugir-lhe do rosto, e do de seu amigo também. Era jovem, mas, pela vida que vivia sabia bem o que significava. Ivan não entendia o que estava acontecendo, mas sentia que não seria algo bom.
Isaac gritou, como nunca havia gritado antes, esperneou e desvencilhou-se dos seus raptores, sentindo que perdeu alguns fios de cabelo no processo.
Bambo, correu o mais rápido que conseguia até o amigo, perdendo momentaneamente o ar quando uma das costelas quebradas pressionou dolorosamente um dos pulmões.
Corpos voaram em cima dele, prensando-o contra o chão, o menino gemeu involuntariamente de dor. Ele não conseguiria chegar até Ivan.
Sentiu lágrimas escorrerem por seu rosto, ele provavelmente se espantaria por estar chorando, mas estava desesperado demais para pensar em qualquer outra coisa.
Observou, em choque, o líder desafivelar o cinto de sua calça, enquanto arrancava a bermuda de seu melhor amigo. Tentou, em vão, debater-se. Estava preso. Não conseguia fazer nada.
Gritou, gritou a plenos pulmões, gritou de uma forma que sequer imaginava poder fazer antes. Algo se enfiou em sua boca, tentou morder e cuspir, mas amordaçaram-o completamente.
Só conseguia emitir sons abafados — que, aparentemente, divertiam ainda mais o bando — enquanto o líder se ajeitava atrás de Ivan, e, sem aviso, atacou-o.
Ivan soltou um grito de dor, e continuou arquejando. Isaac pôde vislumbrar sangue percorrendo as coxas do amigo, mas lágrimas embaçaram sua visão.
O ato continuou por alguns minutos, que Isaac achou que fossem uma eternidade. O rosto do amigo também já estava banhado em lágrimas e sentia tanta dor e tanto cansaço que até mesmo seus gritos de agonia não passavam de um baixo gemido.
O líder, quando satisfeito, ajeitou as calças enquanto o menor caía no chão, derrotado. Logo se levantou, gesticulando algo para os outros, que lhe jogaram um cano comprido de metal.
O maior o balançou como se fosse uma espada e testava seu peso. Isaac, percebendo o que ele ia fazer, aproveitou que os outros delinquentes estavam distraídos e tirou o tecido que tampava sua boca.
– Por favor, já basta. — Suplicou. — Se for fazer algo, faça comigo. — Abaixou a cabeça, sabia que não adiantaria simplesmente pedir para parar.
– Calma, criança. — Disse com a voz rouca. — Você ainda terá sua vez.
Dito isso, bateu violentamente com o cano na cabela de Ivan. Isaac gritou seu nome, colérico e escapou das garras do trio de jovens. Correu até o líder e seu melhor amigo, e, vendo que o outro não estava em condições de correr, jogou-se por cima dele, cobrindo-o com o corpo. A lateral da cabeça de Ivan sangrava, mas ele ainda estava consciente.
– O que fizeram com você…? O que fizeram com você…? — Isaac murmurava febrilmente enquanto acariciava o corpo mutilado do amigo. — E tudo minha culpa, desculpa. — As lágrimas rolaram com mais força, caindo no rosto de Ivan.
– Não se preocupe… — Ivan disse afetuosamente, mexendo nos cabelos do pequeno mafioso e sentindo as falhas e o sangue quente e viscoso grudando os fios. — Não faça essa cara, não é o Isaac que eu conheço. Ele é forte e conseguiria viver sem mim.
– Ivan, eu nunca conseguiria viver sem você… — Isaac se lembrou em uma torrente de lembranças, todos os momentos que compartilhara com o outro. Em como era divertido ter alguém ao seu lado quando era sozinho. E não poderia ser qualquer pessoa. Só poderia ser Ivan.
– Awnn, que fofo. — Debochou uma voz. — Mas já cansei desse melodrama. — Esbravejou, dando um pontapé em Isaac.
– Claro que consegue. — Concluiu Ivan apressado, enquanto abria um sorriso. — Só me prometa que será feliz. — Ele abraçou o amigo. Não queria morrer, mas por algum motivo, sabia que ia. E ficava preocupado do que o pequeno mafioso faria sem ele. Cada um entendia muito bem sua importância um para o outro.
Arrancaram Isaac de cima dele, o menino tentou se segurar no outro, mas foi logo jogado para longe. Ivan pôde ver o líder outra vez, estendendo o cano de metal. Olhou para Isaac outra vez e fechou os olhos: a última imagem de sua vida teria que ser uma de seu melhor amigo.
O som da batida foi abafado por um grito de Isaac, feito seu trabalho, o líder virou-se para o garoto restante.
– Agora, sim, é a sua vez.
–-x--
Isaac estava dentro de um carro, embrulhado em cobertores, mas não entendia o que se passava. Sua mente só conseguia processar os últimos momentos de Ivan, e dava, continuamente, replays.
O carro parou, alguém o pegou no colo e colocou-o numa maca, adentrando um prédio que parecia um hospital.
Isaac estava nas últimas quando seus guarda-costas milagrosamente apareceram, afugentando os delinquentes e carregando o menino para o hospital. Aquela guangue sofreria, porém mais tarde, juraram os dois homens parrudos após olharem, também, o corpo inerte e mutilado do melhor amigo de seu pequeno chefe. Aquele que tinha transformado-o.
De noite, após ser enfaixado e engessado de todas as formas possíveis, Isaac encarava as paredes brancas do hospital.
Naquele dia, algo dentro do garoto se quebrou.
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