À Espada Pelo Sangue
3 Capítulo 3 - Um Bêbado de Pavio Curto
Notas iniciais
Quando acordei, abrindo os olhos de repente, eu estava deitada em uma cama e algumas pessoas estavam ao redor. Identifiquei Shayla, Kyle e o Sr Farrel. Havia também um garoto sentado ao meu lado e uma menina loira de mãos dadas com outro garoto, todos aparentando ter minha idade.
— May! – disse Shayla – Até que enfim!
— Você é forte. – disse o garoto sentado ao meu lado – Com um corte desses outra pessoa poderia ter ficado desmaiada por dias. Você acordou em minutos.
—Quem é você? – perguntei .
— Meu nome é Michael Yew.
Michael pegou um copo com canudinhos e me entregou.
— Tome isso, vai te ajudar a melhorar.
Eu bebi, um pouco desconfiada, mas, no momento em que a bebida tocou minha língua, me dei conta de que era a coisa mais gostosa que já havia tomado em toda a vida. Imediatamente me senti melhor, e uma onda de energia me atingiu.
— O que é isso? – perguntei, lambendo os lábios.
— É Néctar. – ele respondeu como se explicasse tudo.
Eu me sentei, pronta para exigir uma resposta mais específica. A garota loira olhou para mim e disse:
— É de Atena. Só pode ser. Olha pra cara dela, Mike. – ela sorriu – Nem dá pra duvidar.
— Claro, mas não podemos considerá-la de Atena antes de ela ser reclamada – disse Michael – Você sabe disso.
Eles falavam como se eu nem estivesse ali.
— Ah, é claro. Olhe, eu vou para a aula de arco e flecha. Vê se dá um jeito de ela estar melhor quando Atena reclamá-la, O.K.? Vamos Percy.
“Percy...?” Pensei. Por que aquele nome não me parecia estranho?
A garota e o garoto saíram. Antes que eu pudesse perguntar sobre o que eles estavam falando, Shayla olhou para mim dizendo:
— May, que bom que está bem!
— O que aconteceu? Digo, depois que eu quase morri?
— Você deve sua vida àquele garoto que saiu agora e ao senhor Farrel. Ele te salvou daquele... Daquela coisa.
— Não diga isso- disse Sr Farrel – Nós só matamos a criatura enquanto ela estava distraída. E a propósito, não me chame mais de Sr Farrel, meu nome é Drake.
— Quer dizer que você não é um professor? – perguntei, propositalmente ignorando a parte em que ele disse que “matou a criatura”. Não sabia se estava psicologicamente pronta para aquilo: uma coisa de cada vez.
— Não exatamente.
— Eu sabia!
— Sabia?
— Não, mas desconfiei quando o Kyle mostrou as pernas de bode dele. Hã... Você não tem pernas de bode, tem?
— Eu não! Sou uma pessoa normal. Quer dizer, sou um humano, ou quase humano... esquece! A questão é que eu não tenho pernas de bode.
— Você disse que não é humano, ou eu é que ouvi errado? – Shayla perguntou.
— Eu sou uma pessoa, mas não totalmente humano.
— Você vai deixá-las confusas desse jeito. – disse Michael.
— Espere aí. Você acabou de dizer que não era totalmente humano? – eu tinha medo até de perguntar.
— É mais ou menos isso. Eu sou como vocês duas e como o Michael.
— Ei! Eu posso até não ser muito normal, mas definitivamente sou humana! – reclamei indignada.
— May, fique quieta, por favor. – disse Michael, em um tom doce. – Você recebeu pontos no seu ombro.
Olhei meu ombro, ele estava enfaixado. Engoli em seco.
— Eu vou ficar bem? Digo, vou voltar a ter os movimentos que tinha antes? Porque eu sinceramente não estou nem um pouco a fim de ter que deixar a ginástica, nem o Karatê. Seria horrível!
— Vai, sim. – disse ele, sorrindo – Por sorte, poucos dos seus músculos mais importantes foram danificados e nossa medicação deve ser eficiente o bastante para que se recupere totalmente. Mas, por enquanto, não deve fazer nenhum esforço. Eu vou ter que trocar as faixas por você todo dia. Infelizmente o corte foi muito fundo e vai levar um tempo para cicatrizar.
“Ah que maravilha!” pensei.
— Hum... Bem, agora eu preciso ir. – Ele olhou para Sr. Farrel/Drake sorrindo ansioso – Will desenvolveu uma nova magia de cura, e o chalé todo foi convocado para uma demonstração. Vai ser genial! Enfim, acho bom vocês irem falar com Quíron. Ah, e, May, lembre-se de não fazer esforço ou os pontos podem romper, e também não molhe as faixas. Eu vou ficar de olho em você. Até mais.
Ele se levantou e saiu.
— Ele é médico? – perguntei
— É mais ou menos isso. – disse Sr Farrell/Drake – Ele e todos os seus irmãos são bons em medicina, artes, vôlei, arco e flechas e etc.
— Arco e flecha? Ele treina arco e flecha para quê?
— Que legal! – disse Shayla, antes de Drake poder responder. Porque ela sempre interrompia? – Eu adoro esse tipo de coisa. Menos a parte do arco e flecha. Eu nunca tentei usar um.
Eu me levantei, deixando o assunto de lado. Era confusão demais pro meu gosto.
— O que vamos fazer agora? – franzi a testa – Acham que deveríamos prestar queixa na polícia sobre um doido brincando de boliche com postes e carros?
— Bem, nós precisamos falar com Quíron. – disse Kyle, aparentemente ignorando minha pergunta irônica.
— Quem é Quíron?
— Ele é o diretor de atividades do Acampamento. – Drake respondeu.
— Que acampamento é esse, a propósito? – perguntei confusa.
— Nós estamos no Acampamento Meio-Sangue.
Estranhei o nome.
— Meio-Sangue? Tipo, semideuses da mitologia grega?
— Sim...
— Que tipo de gente maluca coloca esse tipo de nome em um acampamento de verão normal?
Drake e Kyle se entreolharam.
— Esse pessoal é normal, não é? – perguntei desconfiada.
Kyle ia responder, mas Drake o cortou.
— Vamos. Quíron está nos esperando.
Ele agarrou minha mão e me levou para fora (lê-se me arrastou para fora). Eu e Shayla o seguimos por um caminho curto, mas bem movimentado. Campistas passavam para lá e para cá, segurando coisas que eu suspeitava serem espadas, facas, arcos e flechas e outros brinquedos que só gente anormal usa.
Chegamos a uma casa grande, com uma mesinha na varanda e dois homens estavam jogando algum jogo nela. Um deles era gordo, usava uma camisa com estampa de leopardo e tinha uma cara de bêbado. Já o outro usava uma cadeira de rodas, tinha uma barba irregular, o olhar era profundo, e parecia ter milhares de anos e já ter visto de tudo. “Realmente a palavra normal não se encaixa nesse lugar” pensei, cada vez mais insatisfeita com a situação.
O cara da estampa de leopardo olhou para nós e torceu o nariz, como se fossemos um monte de lixo.
— Mais duas? – perguntou – Esse pessoal não tem misericórdia de quem cuida deles?
O de cadeira de roda olhou para ele com desgosto.
— Por favor, Sr D, seja menos reclamão. – ele olhou para nós – Ignorem o Sr D. Ele anda meio cansado ultimamente. Eu sou Quíron, diretor de atividades do acampamento. Por favor, sentem-se.
— Ultimamente? – ouvi Drake sussurrar para Kyle – Pelo que eu saiba, desde que o conheci que ele está assim ultimamente.
Sentei-me meio hesitante, franzindo a testa para o homem. Quíron nos estudou com seus olhos de mil anos.
— É bom que estejam vivas. Detestaria que Drake tivesse perdido tempo.
— Como assim? – Shayla perguntou.
Drake entrou na conversa.
— Eu fui à escola onde estudavam para ficar de olho em vocês. Kyle não ia conseguir dar conta de duas, ainda mais em idade... er... mais avançada...
— Está me chamando de velha? – Shayla perguntou. Revirei os olhos. Muito bem, Shay: sempre com o foco nos pontos principais.
Drake procurou uma resposta, sem sucesso.
— O que quer dizer com ficar de olho em nós? – falei – Como assim dar conta de duas?
— Eu diria que vocês tiveram “sorte” e eu azar. – Disse sr. D com desgosto – Sabem jogar pinochile?
Senti meu rosto esquentar, sinal de que estava prestes a explodir. Não tentei controlar a raiva. Eu detestava não saber das coisas, e estar no escuro como estava naquele momento era exatamente o que eu mais odiava. A atitude daquele gordo nojento não colaborava nem um pouco.
— Não sei e não quero saber! – disse com rispidez, ao que Sr D respondeu com um olhar assassino – O que quero saber agora é: o que eu faço aqui? Sobre o que exatamente estavam falando quando disseram que estavam de olho em nós? Sobre o que aquela menina estava falando quando disse que sou de Atena? Por que Kyle tem pernas de bode e fica pedindo ajuda a deuses da mitologia grega e por que esse lugar tem o outro nome que se dá a semideuses e...
Eu parei e uma ideia me ocorreu, uma ideia totalmente maluca.
— O que estavam falando – balbuciei – a criatura que me atacou, esse pessoal usando espadas... P-pernas de bode...
Quíron assentiu, a mão pousando na barba.
— Suponho que já tenha entendido o que estava acontecendo aqui.
— Demorou, hein? – O Sr D disse.
— Eu só espero que esteja errada. – falei, esforçando-me para ignorar o idiota sentado ao meu lado – O que pensei vai além do aceitável.
— Não exatamente – disse Quíron – Você está apenas começando a entender uma coisa bem difícil de acreditar.
— Você quer dizer uma coisa impossível de se acreditar. – eu corrigi – É sem lógica.
— Eu gostaria muito de saber de que... — Shayla começou.
— Você não pode estar falando sério. – eu disse – Não há como... – De repente um pensamento me ocorreu, me virei lentamente para Kyle – Kyle... O que aquela coisa que me atacou era antes de virar... bem, a coisa?
Kyle hesitou.
— Ele... ele era...
— Era o Norman! – disse Shayla – Ele se transformou naquilo! Eu vi! Quer dizer... não exatamente, acho... acho... acho que foi uma das visões que tive... – Shayla sacudiu a cabeça – Isso é demais pra mim.
— Não, meninas. – disse Quíron em um tom tranquilizador, mas pude perceber que ele estava perdendo a paciência com nossa conversa nem nexo — Sei que acham uma loucura, mas não é. O fato é que eles existem. Não podemos negar que é estranho no começo, mas é real.
— Gente – disse Shayla confusa – eu sinto muito, mas não estou entendendo de quem estão falando, digo, exatamente.
Vi o Sr D bufar em deboche. Ele estava começando a me irritar de verdade.
Quíron fitou Shayla com seus olhos milenares.
— Senhorita Milan – disse ele – O que lembra da mitologia grega?
— Ahn... – Shay pesou um pouco — Sim. No 7º ano estudei sobre isso. Deuses e deusas gregos, que governavam o mundo antigo. E seus filhos que enfrentavam monstros... – Ela parou e então lhe lançou um olhar desconfiado – O que isso tem a ver?
Prendi a respiração. Chegara a hora de saber a verdade, e eu não tinha certeza se queria realmente saber. Quíron, ao contrário de mim, respirou fundo.
— Estamos falando desses deuses. O que estou tentando explicar é que eles são reais e ainda vivem, em pleno século XXI. E como nas antigas histórias eles continuam se apaixonando por mortais e tendo filhos com eles. Esses filhos são chamados de semideuses ou meio-sangues, e é o que vocês duas são, assim como Drake, filho da deusa Atena, Michael, de Apolo, e todos os outros que vivem aqui. Os deuses são reais, assim como os monstros. Este Acampamento é um lugar seguro, onde você pode conviver com seus irmãos semideuses e aprender a como sobreviver no mundo mortal.
Deixei aquela ideia amadurecer em minha cabeça, fazendo o máximo para torná-la o menos esquisita possível. Seguiu-se um longo silêncio enquanto pensávamos. Meu joelho subia e descia com a minha hiperatividade nervosa. Senti a palma da mão suada. “Droga” pensei “Não posso surtar agora. Não posso surtar agora”.
— É uma pegadinha? – Shayla perguntou enfim – Vocês estão tentando me enganar?
Sacudi a cabeça. Por mais que eu quisesse que fosse apenas uma pegadinha, o corte em meu ombro era bem real e havia sido feito por uma criatura verdadeira, não era ilusão.
— Não há como. – eu disse – Aquela coisa que me atacou foi bem real. Mas ainda assim... Deuses? Isso é sério?
O Sr D olhou para mim com seus olhos transbordando de fúria.
— Quer uma prova, pirralha? Pois eu te darei uma: eu sou um deus.
Conti o riso.
— Tudo bem. Acho que até acreditaria se...
Foi aí que cometi o erro de olhar em seus olhos.
Eles brilharam em um tom roxo intenso e me deixaram em estado de choque. Eu não conseguia me mexer, nem falar. Imagens indecifráveis surgiram em minha mente, e apesar de não poder dizer o que eram, uma angústia me atingiu. Uma silhueta púrpura começou a se formar, revelando sua forma aos poucos. Seu braço estava estendido para mim, adentrando meu corpo, como se buscasse arrancar de lá alguma coisa.
Podia sentir minha força sendo sugada para fora. Eu estava ficando cada vez mais fraca, logo morreria, seria o fim. A silhueta se transformou na imagem do Sr. D, mais magro e jovem, e com uma fúria intensa no olhar, beirando a loucura. No entanto, ele era perturbadoramente bonito e com uma aura avassaladora. Seu braço estendido puxou alguma coisa de dentro de mim. Ele me mostrou uma corrente de prata, que ligava meu peito a minha cabeça, e então fechou o punho com força. Pude ouvir o som agonizante da prata rachando. Eu me dei conta de que havia algo além do físico, mesmo que não pudesse saber o que. Ele imprimiu mais força no punho, e sua aparência continuou a mudar, cada vez mais poderosa, e assombrosa.
Fiquei desesperada, mas meu corpo não obedecia ao comando de gritar ou mover-se. Podia ouvir vozes distantes me chamando. Tentei me concentrar nelas.
— May! – era a voz de Shayla, que me sacudia – O que você está fazendo com ela?
— Dionísio, não ouse revelar mais da sua forma divina a esta garota! – ordenou Quíron, em tom urgente – Ou vai matá-la! A fúria de seu pai recairá sobre você se isso acontecer.
Sr D desviou seu olhar de mim e imediatamente eu desmoronei, totalmente esgotada. Meus olhos estavam abertos, mas minha visão estava se desfazendo, como as bordas de uma folha de papel queimando.
— Tragam Michael aqui, agora. – disse Quíron – Peguem Néctar e Ambrósia. Ela precisa de ajuda. Dionísio – Ele repreendeu – Zeus tem sido brando com relação a todas as suas outras subversões, mas esta foi a gota d’água. Você está completamente ciente da importância dessa menina. Se ela morrer, não só a mãe dela irá buscar vingança, como também sua família e Lady Hera. Um relatório será feito ao Olimpo hoje mesmo.
Minha visão se foi. Tudo ficou escuro. Ouvi a movimentação, Michael chegando correndo, Shayla aos prantos, Drake gritando alguma coisa. No entanto, logo minha audição começou a se esvair, e o único som que eu podia registrar eram as batidas do meu coração, como um tambor prenunciando a morte. Era uma batida de desespero.
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